A 'nova cracolândia', na calçada da Primeira Igreja Batista de São Paulo, na Praça Princesa Isabel | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste
A 'nova cracolândia', na calçada da Primeira Igreja Batista de São Paulo, na Praça Princesa Isabel | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Apocalipse zumbi

Recém-chegada à Praça Princesa Isabel, a cracolândia espalha seus tentáculos pelos cartões-postais da capital paulista e expõe o descaso do poder público

Sérgio Sant’Ana, de 38 anos, mora há três no Complexo Júlio Prestes, a poucos metros da estação do metrô. O empreendimento residencial fica no bairro Campos Elíseos, entre as vias Helvétia, Dino Bueno, Barão de Piracicaba, Cleveland e Duque de Caxias. Essas vias são conhecidas como o “fluxo” da cracolândia, no centro da cidade de São Paulo, frequentado diariamente por cerca de 600 pessoas, e onde centenas de dependentes químicos vivem em meio ao tráfico de drogas.

Ao acordar na manhã de 21 de março deste ano para ir ao trabalho, Sérgio se surpreendeu com uma cena incomum: a cracolândia estava deserta. Mais tarde ficou sabendo que as “hordas zumbis” que vagam rotineiramente pelas ruas haviam se mudado para a Praça Princesa Isabel, a cinco minutos dali. De acordo com a Polícia Civil (PC), o sumiço dos drogados ocorreu de uma hora para outra, “como num passe de mágica”. 

Depois de limpezas da prefeitura, o local parece nunca ter sido habitado por dependentes químicos. Há até algumas famílias passeando no local, antes lotado de barracas, com muito lixo e gente vagando a esmo de um lado para o outro. “Duvido que essa paz dure muito tempo”, disse Sant’Ana. “Temo que os dependentes voltem para cá a qualquer momento.” Sant’Ana mencionou ainda que, apesar de a cracolândia “sumir”, a sensação de insegurança permanece, em virtude dos assaltos que continuam.

Em entrevista concedida ao jornal Folha de S.Paulo, Alexis Vargas, secretário municipal de Projetos Estratégicos, garante que “não houve nenhum tipo de negociação entre o poder público e os bandidos”. O secretário disse que a mudança dos dependentes químicos também foi impactada por operações policiais, que, segundo ele, prenderam vários traficantes na região. Ao portal G1, Roberto Monteiro, delegado da Polícia Civil, disse que a ordem de mudança da cracolândia veio de “uma facção criminosa”. Monteiro alertou ainda para a expansão da antiga cracolândia para outras partes de São Paulo. O delegado assegurou que tudo está sendo monitorado pelos agentes de segurança.

Um cenário desolador

Desde a transferência da cracolândia principal, quem passa pela Praça Princesa Isabel depara com uma aglomeração de gente consumindo drogas a céu aberto. O cenário é desolador: restos de comida no chão (de marmitas entregues por ONGs, como a do padre Júlio Lancellotti), barracas, um forte odor de excrementos humanos e entorpecentes. No início desta semana, a prefeitura iniciou “ações de zeladoria” e retirou 35 toneladas de lixo do local, incluindo madeiras usadas na confecção de moradias improvisadas. Exceto as barracas onde as drogas são vendidas. Apesar da iniciativa, a nova cracolândia permanece e as “casas” voltaram a ser erguidas assim que os agentes públicos deixaram o local.

Concentração da nova cracolândia, na Praça Princesa Isabel | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

O dia a dia dos moradores nos arredores da Praça Princesa Isabel, que já era difícil em razão da antiga cracolândia, localizada a poucos metros dali, se tornou infernal. A corretora de imóveis Marina Martins, de 57 anos, mora há 20 no local. Quando chegou do sul de Minas Gerais, lembra que a praça era um local limpo, colorido, com feiras de artesanato aos fins de semana e reduto de lazer para os moradores. “Minha filha aprendeu a andar de bicicleta ali”, recordou. “Hoje, é impossível imaginar uma criança andando de bicicleta naquele local. Para sair de casa, tem de tomar cuidado. Logo pela manhã, há dependentes químicos com pedaços de pau na mão, garrafas, entre outros objetos, que intimidam as pessoas. Nossa vida aqui, que já não era fácil, se tornou o apocalipse.”

Os quase sem roupa

Localizada na confluência de grandes avenidas no centro de São Paulo, como a Duque de Caxias e a Rio Branco, a Praça Princesa Isabel é considerada um marco histórico da cidade. Desde 1960, a praça abriga um monumento que homenageia Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), o Duque de Caxias, patrono do Exército brasileiro. Assinada pelo escultor italiano Victor Brecheret (1894-1955), a obra tem quase 40 metros de altura — 16 deles compostos da estátua em si, do militar a cavalo empunhando uma espada. Hoje, o monumento que no passado foi um dos cartões-postais da capital paulista está pichado, sujo e rodeado pela fumaça que exala dos cachimbinhos e cigarros.

Monumento que homenageia Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, na Praça Princesa Isabel | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Marina critica a atual gestão municipal. Segundo ela, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) não tem “pulso firme” com os drogados da região. Apesar de tudo, ela não pensa em se mudar do local. “Temos de lutar pelo nosso bairro.” 

“Dá para ver quem começou nessa vida há pouco tempo pela roupa: eles ainda estão vestidos”

A corretora estranha que a mudança da cracolândia tenha ocorrido quando se aproxima a inauguração do Hospital Estadual Pérola Byington, na Alameda Glete, que fazia parte da antiga cracolândia. A previsão da gestão de São Paulo é que a abertura ocorra no segundo semestre. Pouco antes de deixar o cargo, o então governador João Doria (PSDB) esteve no local para anunciar a abertura do edital que irá escolher a organização responsável por gerir o hospital.

Paulo Eduardo, pastor há 17 anos na Primeira Igreja Batista de São Paulo, no número 233 da praça, vai na mesma linha de Marina. Ele lamenta o cenário de desolação. “Nunca tinha visto algo assim antes”, disse, na porta do templo, ao observar um amontoado de gente dormindo na calçada. “Dá para ver quem começou a entrar nessa vida agora pela roupa: os que ainda estão vestidos ingressaram faz pouco tempo; os que têm vestes rasgadas, faz mais de ano; e os quase sem roupa, há muito tempo”, observou. 

31 anos de dependência

Paulo, que atua em ações para ajudar o centro de São Paulo, defende a internação compulsória de dependentes químicos. “Sem violência, a pessoa tem de ser levada à força para tratamento, mas o poder público não faz, porque esse é um assunto muito ideologizado, sobretudo na mídia.” Paulo lembrou que muitos dependentes químicos já não conseguem responder por si e precisam de ajuda.

A cracolândia se mantém como um dos principais desafios da capital paulista, mais de 31 anos depois da primeira apreensão de crack. Desde então, quando a “cena de uso aberta” ainda se formava, o movimento prosperou e mudou de local algumas vezes, mesmo depois de diversas interferências de prefeitos, governadores, ações policiais, ONGs e reintegrações de posse de imóveis. Em comum a todos os locais ocupados por acampamentos montados por traficantes e usuários durante décadas, está a degradação humana, urbana e o aumento da violência.

As minifavelas e as filiais da cracolândia

Além da cracolândia principal, outras se pulverizaram por São Paulo, misturando-se às centenas de minifavelas que surgiram por todos os bairros mais centrais da cidade durante a pandemia de coronavírus. Conforme o mais recente levantamento da prefeitura, já são 32 mil pessoas em situação de rua. A seguir, os principais pontos da cidade que expõem o descaso do poder público:

Pateo do Collegio | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Primeira construção da cidade de São Paulo, o local é onde o padre Manuel da Nóbrega e o então noviço José de Anchieta estabeleceram um núcleo para fins de catequização de indígenas. Já é possível ver os moradores ocupando a praça e ruas nas adjacências.

Viaduto da Avenida Paulista | Foto: Fernanda Samartins/Revista Oeste

Entrada para um dos principais cartões-postais de São Paulo, o Viaduto da Paulista abriga uma pequena cracolândia. Apesar de às vezes ser retirada pela prefeitura, ela volta. Pessoas consomem drogas no local até durante o dia.

Uma pausa na correria do dia a dia e pode-se observar que a principal avenida da cidade de São Paulo também serve de casa para moradores de rua e dependentes químicos.

Parque Trianon | Foto: Márcio Komura/Revista Oeste

O Parque Tenente Siqueira Campos foi inaugurado no dia 3 de abril de 1892. As grades do local, frequentado pelos que passam na Avenida Paulista, servem de apoio para barracas de moradores de rua.

Moradores de rua na Alameda Ministro Rocha Azevedo | Foto: Márcio Komura/Revista Oeste

Uma das principais ruas do Jardim Paulista, bairro nobre da cidade de São Paulo, também tem casas improvisadas a céu aberto, que tomam boa parte da calçada da alameda, quase na esquina com a Avenida Paulista.

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