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A catarse de Top Gun: Maverick

TG:M não é propriamente um filme anti-woke, como têm afirmado conservadores mundo afora. Trata-se, em vez disso, apenas de um filme livre de woke

“A linguagem serve de substituta para a ação: com sua ajuda,
um afeto pode ser ‘ab-reagido’ quase com a mesma eficácia.”
(S. Freud & J. Breuer, Comunicação Preliminar, 1893)

Em O Fim do Homem Soviético, a escritora bielorrussa Svetlana Aleksievitch ressalta o significado cultural da cozinha doméstica nos tempos da URSS. No Estado policial soviético, as cozinhas tornaram-se santuários de resistência, nos quais se podia cultuar uma intimidade de resto tão vilipendiada, e onde as pessoas se permitiam pequenos gestos de subversão. Ali, contavam-se piadas sobre os “camaradas” do Partido e falava-se mal do regime — tudo com o rádio ligado no volume máximo, é claro, para burlar as eventuais escutas da polícia política.

Num dos relatos colhidos pela Nobel de Literatura de 2015, lemos o seguinte: “A cozinha russa… A pequena e miserável cozinha da ‘khruschoba’, de 9 a 12 metros quadrados (com sorte!), com um banheiro atrás de uma parede fininha. Planejamento soviético. Na janela, cebola numa latinha usada de maionese, um vasinho com um aloé para combater resfriado. A cozinha para nós não é apenas um lugar para preparar as refeições; é também sala de jantar, sala de estar, escritório, tribuna. Um lugar para sessões coletivas de psicoterapia. No século 19, toda a cultura russa vivia em propriedades senhoriais, mas, no século 20, nas cozinhas. E a perestroika também. Toda a vida ‘sessentista’ foi a vida ‘da cozinha’. Obrigado, Khrushchov! Foi na época dele que saímos dos apartamentos comunais, conseguimos cozinhas privadas, onde se podia xingar o governo, e ainda por cima sem ter medo, porque na cozinha era só gente da família. Lá nasciam as ideias, os projetos fantásticos. Contavam piadas (…) Crescemos nas cozinhas, e nossos filhos também; eles ouviam Gálitch e Okudjava junto conosco. Tocavam Vyssótski. Captavam a BBC. As conversas eram sobre tudo: sobre como as coisas estavam uma merda, mas também sobre o sentido da vida, sobre a felicidade para todos (…) Infinitas conversinhas. O medo de que pudessem nos ouvir, com certeza nos ouviriam. No meio da conversa, alguém sempre olhava rindo para o lustre ou para a tomada: ‘O senhor está ouvindo, camarada major?’. Pelo risco… Pelo jogo… Tínhamos até certa satisfação com essa vida dupla. Uma quantidade insignificante de pessoas se opunha abertamente, mas tínhamos muito mais ‘dissidentes de cozinha’. Falando mal pelas costas…”

Em tempos de tirania woke, temos hoje também muitos “dissidentes de cozinha”, ávidos por um espaço privado onde possam extravasar o incômodo com a incessante patrulha dos guerreiros da justiça social, capazes de condenar à execração pública (senão mesmo à prisão) todo cidadão suspeito de crime politicamente correto: equivocar-se no uso do pronome de gênero adequado, usar uma expressão “estruturalmente” racista (a exemplo de criado-mudo), abrir a porta do carro para uma mulher, não levar os filhos à parada gay, olhar para uma moça bonita… Desconfio que, até entre os justiceiros sociais, eles próprios, haja aqueles que, de tanto afetar em público uma impérvia virtude moral, aproveitem a privacidade doméstica para relaxar os músculos tensos da carranca politicamente correta com a qual costumam se apresentar em público. Sozinhos na cozinha, ou mesmo entre amigos íntimos (daqueles que não vazam conversas de WhatsApp), pode-se perfeitamente imaginá-los em raros momentos de espontaneidade, batendo o punho no jogo americano e extravasando em meio à tempestade de farelo de pão: “Mas puta que pariu! Também precisavam enfiar beijo gay no Buzz Lightyear?”.

Tendo em vista essa multidão de descontentes silenciosos com o ambiente totalitário criado pela cosmovisão woke, compreende-se o sucesso estrondoso de um filme como Top Gun: Maverick (doravante TG:M). Disse-o muito bem o crítico Kyle Smith, autor de uma reportagem sobre o assunto na revista National Review: “O sucesso de TG:M revela a ânsia da sociedade norte-americana por entretenimento despretensioso, que recue ao período a.W.: antes do woke”.

De maneira perspicaz, Smith compara o significado cultural de TG:M ao de American Graffiti (Loucuras de Verão, no Brasil), comédia lançada por George Lucas em 1973. Passado no início dos anos 1960, o filme narra as frívolas aventuras de um bando de jovens dirigindo despreocupadamente pelas ruas do interior da Califórnia enquanto ouvem o rádio. É o retrato de um período mais inocente em relação à turbulência política de meados da década, marcada por uma sucessão estonteante de eventos disruptivos, como a Guerra do Vietnã, o festival de Woodstock e o movimento hippie.

Se há algo que os radicais políticos toleram menos que a oposição franca é a indiferença por suas causas

Com efeito, American Graffiti fez sucesso não por ser um grande filme, mas por ser um filme simbolicamente apto a encarnar uma certa nostalgia pela era pré-assassinato de JFK, quando a vida parecia mais simples, e as relações interpessoais, mais previsíveis. Embora temporalmente próximos, o período retratado no filme e o momento imediatamente posterior são quase como planetas distintos, dada a abissal distância cultural que os separa, tão rápidas e radicais tendo sido as mudanças intercorrentes.

Também longe de ser uma obra-prima cinematográfica, TG:M tem exercido impacto similar. A América e o mundo experimentam um momento tão ou mais conturbado que os anos 1960, um período marcado por pandemia, radicalismo político (a exemplo de movimentos como Black Lives Matter e Mee Too), guerra na Ucrânia e a diuturna guerrilha woke contra os valores mais caros às democracias liberais, notadamente a liberdade de expressão. Diante desse cenário, e reduzido a um mutismo impotente pelas minorias radicais que comandam as instâncias formadoras da opinião pública, o cidadão comum vive exausto, frustrado e ansioso. Daí o significado de um filme que, com uma estrutura narrativa clássica e um roteiro feijão-com-arroz, faz ressoar na alma do espectador a memória de um passado em que se podiam cultivar o amor romântico entre homens e mulheres, o desejo de aventura, as glórias militares e a camaradagem masculina sem ter de se submeter a lições de moral não requisitadas sobre racismo, masculinidade tóxica e mudanças climáticas.

Mas, como o crítico da National Review faz questão de ressaltar, TG:M não é propriamente um filme anti-woke, como têm afirmado conservadores mundo afora. Trata-se, em vez disso, apenas de um filme livre de woke. Transportando-nos de volta ao Zeitgeist de meados dos anos 1980, a trama simplesmente ignora os assuntos que costumam mobilizar radicais e canceladores de internet, campo de batalha em que se travam as mais virulentas guerras culturais contemporâneas. Daí ter feito tanto sucesso junto a um público que, farto da presente politização de todos os setores da vida cotidiana, tudo o que almeja é descansar a mente e, num mundo fragmentado e suscetível, sentir-se novamente em casa.

Eis por que também, ao permanecer alheio à cultura woke, o filme tenha exasperado tanto os fanáticos guerreiros da justiça social. Pois se há algo que os radicais políticos toleram menos que a oposição franca é a indiferença por suas causas. Como escreveu Emil Cioran em sua Genealogia do Fanatismo: “Em um espírito ardente encontramos o animal de rapina disfarçado; não poderíamos defender-nos demasiado das garras de um profeta… Quando elevar a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afaste-se dele: sátiro de nossa solidão, não perdoa que vivamos aquém de suas verdades e de seus arrebatamentos; quer fazer-nos compartilhar de sua histeria, de seu bem, impô-la a nós e desfigurar-nos”.

TG:M tem, pois, um efeito catártico. Diante da tela, o público experimenta a deslumbrante sensação de trégua no fanatismo politicamente correto. Para as salas de cinema — verdadeiros abrigos anti-woke — confluem milhões de pessoas sedentas por leveza e senso comum. E, então, a sala de cinema torna-se a cozinha soviética — o local onde se pode sentir e pensar aquilo que, do lado de fora, os comitês de vigilância pública proíbem. Assim como as cozinhas na URSS, as sessões de cinema tornam-se sessões de psicoterapia coletiva, onde os espectadores-pacientes vivenciam o processo que Freud chamaria de ab-reação, a descarga emocional capaz de aliviar-lhes o peso dos microtraumas cotidianos causados por um ambiente de controle do pensamento e política dos costumes.

Não, TG:M não parece ser mesmo um filme extraordinário. Mas, por seu valor simbólico, é indubitavelmente um filme marcante. Trata-se de um valioso registro cultural, revelando muito não só sobre a psique do cidadão comum como também sobre o tempo em que vivemos. E, por si só, esse já seria um motivo mais que suficiente para celebrá-lo.

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11 comentários Ver comentários

  1. Concordo integralmente com o autor. Ao final da sessão, meu sentimento foi exatamente o descrito pelo autor: alívio, prazer de assistir a um filme de ação, rodopiar pelos céus numa aventura emocionante! Ótimo texto! Ótimo filme!

  2. Gordon, o Jordan Peterson fala muito sobre pensamento e a linguagem como uma forma de abstrair e simular ações, uma espécie de ensaio para as possibilidades sem o risco de realização. Controlar e censurar pensamento e linguagem são formas de limitar o futuro.

  3. vi hoje e nos meus 66 anos me senti criança de novo. Mas o mais importante do filme foi mostrar para os jovens que virem o filme a importância da honra, da família, do companheirismo e do patriotismo.

  4. Muito divertido o filme. Fazia tempo que não me sentia tão bem num cinema, a despeito da lacração agenda onu 2030 nos trailers e filmes antes do principal.

  5. Não são os conservadores que atacam esse filme, mas sim os que vivem alheios a vida real, ainda na quarta camada da consciência, que, em geral, são esquerdistas.

    Débi e o Lóide são os ídolos dessas pessoas. Um filme mais apropriado para os críticos do estilo de vida normal do Maverick .

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