José Antonio Kast, político chileno | Foto: Divulgação
José Antonio Kast, político chileno | Foto: Divulgação

José Antonio Kast: ‘O Foro de São Paulo é uma ameaça real’

Ex-candidato a presidente do Chile critica o governo de Gabriel Boric, elogia Bolsonaro e pede resistência contra o socialismo na América Latina

“Radical” e “ultradireitista”. Os dois adjetivos usados pela velha imprensa para se referir a José Antonio Kast não resistem ao jeito polido e manso do ex-deputado que quase se tornou presidente do Chile em 2021. Caçula de dez irmãos, Kast nasceu em Santiago, em uma família de imigrantes alemães católicos. Sua relação com o liberalismo clássico também “vem de família”, conta: um de seus irmãos, Miguel, foi um dos Chicago Boys, o grupo de economistas que defendia a desregulação econômica como estratégia de crescimento, tendo sido ministro de Estado e presidente do Banco Central durante o governo de Augusto Pinochet.

Advogado, Kast também foi deputado federal entre 2002 e 2014. Mesmo fora do Parlamento, fundou o Partido Republicano em 2019, cujo estatuto informa ser “absolutamente contra o aborto em todas as suas formas, contra o casamento homossexual e a favor do direito dos filhos de ter pai e mãe”. O partido também promove “uma economia social de mercado, com forte defesa da livre-iniciativa privada em matéria econômica”.

A Oeste, Kast elogiou o “bom trabalho do governo Bolsonaro na economia e na segurança pública”. Sobre seu país, ele criticou o presidente Gabriel Boric, que, para ele, “está destruindo o Chile”. Também se manifestou contra o texto da nova Constituição, a qual não “trata dos problemas reais do país”. E não descartou disputar o Palácio La Moneda pela terceira vez, em 2025: “Se surgir a oportunidade, posso ir”.

Confira os principais trechos da entrevista.

O presidente Gabriel Boric anunciou um plano de segurança nacional para “reformar a polícia” e desarmar a população. Como o senhor vê isso?

Tradicionalmente, a esquerda argumenta que os criminosos são fruto de uma construção social e associam a pobreza ao crime. Claramente não é bem assim. Dentro desse pensamento, os “progressistas” tentam desacreditar as instituições policiais, não permitem o cumprimento das normas penais e sustentam que o uso de armas por civis gera violência. Lembro que, no Chile, temos uma lei rígida sobre posse de armas. Quem quiser tê-las, precisa cumprir requisitos, como passar em testes psicológicos e comprovar ser maior de idade. São os terroristas e os narcotraficantes que não cumprem as normas. O enfrentamento tem de ser feito às grandes organizações criminosas, e não ao povo. A esquerda tenta mudar o foco da discussão, pondo a culpa nas armas, e não nos criminosos. O presidente Gabriel Boric quer fazer como em ditaduras, a exemplo da Venezuela: somente o Estado pode ter armas, o que atenta contra as liberdades individuais. Seguindo essa lógica, como já ficou demonstrado em vários lugares, a criminalidade vai se expandindo por toda a sociedade. No Brasil, as políticas desarmamentistas de governos anteriores fizeram o índice de violência subir. Com a chegada de Bolsonaro e a aplicação rígida da lei, o nível de violência e o número de assassinatos caíram ostensivamente.

“A esquerda está se apoderando do sistema educacional, cooptando jovens e fazendo-os desacreditar na democracia”

Há dez anos, a violência no Chile só aumenta. A que se atribui isso?

À forma inadequada com que os governos lidaram com o problema. O Estado de Direito tem de fazer valerem as leis, senão a impunidade prevalece. O Chile não fez isso. Quando há terrorismo, precisa-se combatê-lo com a lei, caso contrário, o narcotráfico vai crescer. O mesmo se aplica a outras circunstâncias. Se não há punição para quem rouba um carro, o criminoso se sente autorizado a agredir o condutor na próxima tentativa de assalto. Se um militante “progressista” bloqueia uma estrada e as autoridades não fazem nada, logo essa mesma pessoa vai dobrar a aposta e pôr fogo em pneus. Torna-se um ciclo interminável. O que temos visto no Chile é a esquerda se apoderando do sistema educacional, cooptando jovens e fazendo-os desacreditar na democracia. Assim, eles passam a enxergar a revolução como a única via para transformar a sociedade.

Como o senhor vê a nova Constituição chilena?

Esperamos que os cidadãos rejeitem a atual proposta da Assembleia Constituinte. A maioria dos chilenos quis mudanças constitucionais, mas não essas que hoje levariam o país a um fracasso semelhante ao experimentado por outras nações com mudanças constitucionais parecidas. Queremos direcionar nossos esforços para resolver as causas urgentes da sociedade, que geraram a mobilização social de 2020. As pessoas foram às ruas porque queriam melhorar o sistema de saúde, as aposentadorias e as políticas habitacionais. Ressalto, porém, que todas essas exigências não requerem uma mudança constitucional, mas, sim, legislativa. A esquerda soube usar a sensibilidade das pessoas naquele momento e responsabilizou a Carta Magna por todos os males do Chile. Ao deparar com o novo texto constitucional sugerido, os cidadãos entenderam que ele não trata dos problemas reais do país, que vão continuar os mesmos se a medida passar do jeito que está.

O Banco Central do Chile prevê recessão na economia no ano que vem. Como reverter esse cenário?

Recuperando a confiança dos investidores, que foi dinamitada pela esquerda e por este governo. Para isso, temos de cortar impostos e reduzir o tamanho do Estado, concentrando seu poder no que é essencial. Precisamos também fazer com que as leis sejam cumpridas. Infelizmente, muitas normas são desrespeitadas no país. Além disso, o governo tem de melhorar a questão da imigração. Atualmente, temos um índice bem alto para o tamanho do país. É um problema grave, visto que o governo não pode fazer tudo. Por último, e não menos importante, faz-se necessário assegurar mais liberdade às pessoas.

“Os comunistas viram que o sistema marxista fracassou na economia e passaram a atuar no entorno de temas como ambientalismo e gênero”

Qual a sua avaliação sobre o governo do presidente Jair Bolsonaro?

A forma como Bolsonaro lidou no enfrentamento da violência contra os brasileiros foi impressionante, algo que raramente se viu na América Latina. Modificando algumas leis e dando mais autoridade à polícia, o presidente conseguiu reduzir o poder do crime organizado. Outro dado relevante é a maneira como Bolsonaro desburocratizou o Estado, dando mais liberdade à iniciativa privada e permitindo às pessoas empreenderem com maior facilidade. A economia também vai bem. Se comparada a outros países, a inflação brasileira está relativamente baixa, sobretudo se equiparada a gestões anteriores de esquerda. Outro destaque que dou à política econômica de Bolsonaro é que foi possível baixar impostos em áreas distintas, favorecendo o mercado imobiliário e a entrada de investimentos no país. Sobre a condução dele da pandemia, só o tempo dirá se as estratégias do governo deram certo.

De que forma o senhor vê o Foro de São Paulo?

Trata-se de uma reformulação da esquerda depois da queda do muro de Berlim. Os comunistas viram que o sistema marxista fracassou na economia e passaram a atuar no eixo de discussões no entorno de temas como ambientalismo e gênero. A partir daí, reformularam-se como um todo e criaram meios de se instalar nas diferentes esferas de poder da sociedade. Foi uma estratégia exitosa no Brasil, na Venezuela, na Nicarágua, no México, na Argentina, entre outros países. É um processo lento e ao qual precisamos resistir. O Foro de São Paulo é uma ameaça real, porque seus dirigentes formulam estratégias para cada um dos países que querem dominar, estudando-o em sua plenitude e enfraquecendo a democracia. Quando chegam ao poder, causam destruição.

O senhor pretende se candidatar na próxima eleição presidencial?

Estamos realizando um projeto que vai além de uma candidatura. Vamos trabalhar todos os dias para que ideias que propiciem a liberdade cresçam. Para liderar essa iniciativa, pode ser eu ou outra pessoa que representam esse estilo de fazer política. Já disputei a Presidência duas vezes. Se surgir a oportunidade, posso ir, mas não é necessariamente o que buscamos. Por enquanto, continuamos trabalhando. Temos desafios muito grandes no curto prazo.

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19 comentários Ver comentários

  1. A doutrina marxistsa e seu decalogo de Lenin tenta se impor como saida universal a problematica humana de seculos como desigualdade social etc com discurso populista de utopias abjetas
    A ex de A Gramsci bandido italiano e suposto filosofo esquerdalha no inicio do src 20 na Italia
    Simples assim
    Jamais dara ou tera resultados positivos concretos
    A historia da Humanidade assim o comprovou de modo nu e cru..
    O resto e mera conversa fiada de esquerdopatas de plantao na midia mainstream e de pseudos intelectuais da academia brasileira
    Ninguem merece esta tragedia social de atraso e desgraca ao povo brasileiro

    So traz miseria fone e morte

  2. Muito boa entrevista. Responde conhecendo bem os problemas brasileiros e ressalta os riscos no Brasil com o Foro de São Paulo. Deveríamos entender que a alta abstenção (53%) levou a vitória da esquerda no Chile. Espero que tenhamos aprendido, e que nossas urnas eletrônicas sejam severamente auditadas pelas FFAA, para evitar graves conflitos com os resultados que tentam traçar com pesquisas FAKEs e estranhos comportamentos do TSE e do STF na defesa das urnas sem transparência. Não entendemos porque temer a AUDITORIA do voto. Com os votos auditáveis e a presença dos eleitores nas eleições, com certeza os resultados não poderão ser contestados ganhe a direita ou a esquerda. Assim afirmou o presidente Bolsonaro, “com eleições auditáveis passo a faixa para o vencedor”. Simples assim.

    1. Sr. Neves, compartilho com o senhor a alta preocupação com a lisura das eleições. As FFAA disseram que farão uma apuração “paralela”, que eventualmente poderá ser contestada com a “oficial” do TSE. Aí eu faço a pergunta de um milhão de dólares: E SE OS RESULTADOS FOREM DIFERENTES??? O TSE vai aceitar a apuração das FFAA? E se não aceitar? Tem como auditar, ou comparar? Honestamente, eu não vejo como isso pode ter um desfecho feliz.

  3. Os chilenos brevemente vão ver com quantas castanholas se faz uma festa, se acham que já viram tudo em forma de autoritarismo, vão sentir saudades do passado e vão se arrepender amargamente da estupidez que cometeram.

  4. Expulsar todas os Comunistas do Brasil, todos são traidores da Nação, terroristas, narcotraficantes, genocidas, ladrões. Veja o dinheiro do povo brasileiro, através do do BNDES, financiando ditaduras na África e América Latina

  5. Excelente entrevista! Como o Chile deixou de elegê-lo para colocar um moleque irresponsável na presidência? Que o Brasil seja o ponto de inflexão nessa tendência de dominação esquerdista na América Latina.

  6. A Esquerda cresce por um simples motivo; Enquanto os conservadores estudam d trabalham para sustento próprio e da Nação, a Esquerda conspira contra e trabalha nos seus planos estratégicos de domínio e ataques aos Conservadores.

      1. À Esquerda está usando com eficiência os postulados de Gramsci. A revolução não se dará mais através das armas, mas da infiltração nos diversos segmentos da sociedade:
        – imprensa
        – universidades e escolas de ensino médio
        – funcionalismo público
        – legislativo e judiciário

        Com a infiltração nesses segmentos, à Esquerda se apodera do poder, por meios democráticos, e depois destrói a própria democracia.

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