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Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Edição 120

Choque de capitalismo

O melhor programa para erradicação da pobreza ainda é o emprego

Salim Mattar
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De acordo com estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), 2021 foi o ano de máxima pobreza, com quase 63 milhões de brasileiros, que representam cerca de 20% da população, possuindo renda domiciliar per capita de até R$ 497 mensais. Isso é uma demonstração inequívoca da pobreza com a qual convivemos e da má distribuição de renda. Os governos têm falhado nesse quesito, pois os nossos políticos estão mais interessados em resolver os próprios problemas do que na efetiva erradicação da pobreza. Os programas de governo são elaborados com forte característica política, resultando sempre em baixíssima efetividade e comprovando que, no Brasil e em outros países, os programas sociais não têm sido a solução para retirar pessoas da pobreza e da extrema pobreza. O melhor programa para a erradicação da pobreza ainda é o emprego!

Tendo sido o país governado pelos sociais-democratas praticamente desde 1985, o capitalismo aqui foi domado, tornou-se quase subserviente e dependente do Estado, acanhado em sua essência e com os mercados sofrendo forte interferência dos governos, ainda assim, sobreviveu. Falou-se no passado que o Brasil necessitaria de um choque de capitalismo. Pura verdade, mas ficou na retórica.

De fato, nos dias de hoje, é válido falar em um choque de capitalismo. Mesmo com os avanços recentes que estimulam o funcionamento do mercado, como o Novo Marco do Saneamento, das Ferrovias, Cambial, do Gás, das Startups, da Cabotagem e outros mais, ainda foram insuficientes para libertar toda a potencialidade do mercado. A Lei da Liberdade Econômica, que foi um avanço institucional para o mercado, facilitando o ingresso de novos empreendedores na competição por produtos e serviços, foi implementada em apenas 475 dos 5.570 municípios. Cada novo empreendedor e cada pequena e microempresa são sementes de capitalismo que se transformarão, muitas delas, em grandes organizações.

Um verdadeiro choque de capitalismo seria privatizar tudo. Vender todas as estatais, suas subsidiárias, coligadas e investidas, tirando o Estado definitivamente do mundo dos negócios

De acordo com o relatório de 2021 do Economic Freedom of the World, o Brasil está na 109ª posição, entre 162 países, com Hong Kong e Cingapura no primeiro e segundo lugar. No Índice de Liberdade Econômica de 2021, elaborado pela Heritage Foundation, o país figura no 143º lugar, entre 178 países. Podemos concluir que o país está longe de ser um ambiente propício ao pleno funcionamento do capitalismo, que requer livre e competitivo mercado.

O mercado privado financeiro compete com cinco bancos estatais: Banco da Amazônia (Basa), Banco do Nordeste (BNB), Caixa, Banco do Brasil e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Indefensável o Estado ter presença no setor financeiro, inibindo, de alguma forma, o sistema privado. Pior, concedendo crédito subsidiado, assumindo riscos com influência política, ineficiente administração, corrupção e conflituosa relação com o mercado e os governos. Em algum momento, a sociedade brasileira vai ter de discutir esse assunto, pois a tendência natural seria o Estado sair totalmente do mercado financeiro e, sem querer polemizar, se discutir a necessidade de manter um banco como o BNDES, que se tornou uma instituição própria e corporativista se rebelando contra o seu controlador.

Nesse choque de capitalismo, as agências reguladoras deverão ser resgatadas para se tornar de fato independentes, recebendo investimentos para a sua estrutura, profissionalismo nas indicações políticas e melhor recompensa remuneratória. Algumas de nossas agências, mesmo assim, ainda são reconhecidas internacionalmente por sua eficiência e transparente atitude regulatória.

Um verdadeiro choque de capitalismo seria privatizar tudo. Vender todas as estatais, suas subsidiárias, coligadas e investidas, tirando o Estado definitivamente do mundo dos negócios. Isso colocaria o país num círculo virtuoso, oxigenaria a iniciativa privada, proporcionaria a expansão de negócios com melhor administração, aliviaria a máquina pública, que poderia ser reduzida de tamanho, seriam eliminados os roubos, a malversação de dinheiro e a corrupção e não haveria mais prejuízos, que têm sido suportados pelos pagadores de impostos.

Como o melhor programa para erradicar a pobreza é o emprego, precisamos de um choque de capitalismo para gerar emprego e renda, e, assim, reduzir substancialmente a pobreza e eliminar de vez a extrema pobreza.

É simples assim!


Salim Mattar é empresário e presidente do Conselho do Instituto Liberal

Leia também “A criatura se volta contra o criador”

11 comentários
  1. Antonio Marques
    Antonio Marques

    Mattar, uma das ou a maior perda do governo Bolsonaro, mas, suas ideias foram plantadas e continuam surtindo efeitos positivos…

  2. Danilo Barreto de Araujo
    Danilo Barreto de Araujo

    Excelente ponto de vista. A concorrência do Estado no setor financeiro é ainda maior se lembrarmos do banquinho de Brasília, o BRB, que apesar de ser um banco local, avançou pela Bahia e hoje patrocina categorias de automobilismo nacional e faz a gestão do Autódromo de Brasília. Como assim? O DF não tem Secretaria de Esportes? Tem sim. Mas não seria desvio de finalidade um banco gerir um autódromo? Certamente. E o Ministério Público não nota isso? Boa pergunta. São 32 Secretarias no Distrito Federal, incluindo duplicidades como Desenvolvimento Econômico e uma outra chamada Desenvolvimento da Região Metropolitana. Surreal, porque o Distrito Federal possui uma única cidade só chamada Brasília com a mesma extensão do seu território. Um pequeno exemplo de como as estruturas estatais tendem naturalmente a se auto inflar como cânceres. Estendendo seus tentáculos para todos os lados de maneira desordenada e ilógica, até implodir, como está acontecendo com a Argentina neste momento. Mais do que nunca, precisamos de políticos e juízes com pensamento liberal, não apenas na esfera Federal e no Executivo, mas em todas as outras esferas e poderes.

  3. Ayrton Pisco
    Ayrton Pisco

    Como o sr Salim Matar vem falar de choque de capitalismo e distribuição de renda no mesmo texto?
    A tal distribuição de renda é a maneira mais simples e curta de se definir o equívoco central do socialismo: renda não se distribui, cria-se.
    A ideia de fazer do Estado o “distribuidor da renda” é, no fim das contas, o maior causador da miséria. O melhor que se faz para gerar renda para todos é o Estado reduzir-se ao mínimo essencial e dar liberdade, segurança jurídica e infra estrutura.
    O Salim escorregou na falácia do socialismo.

  4. José Luiz Almeida Costa
    José Luiz Almeida Costa

    Precisamos de mais empresários como Salim Mattar que defendam o capitalismo.
    Mas, admitamos que o gramscismo carcomeu as mentes dos intelectuais e formadores de opinião, assim como a Naegleria fowleri – a ameba “comedora de cérebro faz.
    Mesmo nas escolas de grife (INSPER, FVG, Dom Cabral), aprende-se mais sobre Marx que qualquer outro filósofo econômico.
    Enquanto, a esquerdopatia não for curada, o capitalismo no Brasil continuará sendo o monstro imaginário que atormenta o sono do establishment.

  5. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Com uma máquina pesada dessa, o governante faz das tripas coração é preciso tirar os parasitas do estamento público e promover uma reforma universalista, pra não sucumbir

  6. Manfred Trennepohl
    Manfred Trennepohl

    Excelente matéria, Salim Mattar. Análises perfeitas, caminhos apontados… falta o mais importante. Trocar todos os nossos congressistas. Papel da sociedade. Após isso, com certeza todas essas mudanças deverão acontecer. Até lá, infelizmente temos que nos contentar com o que é possível fazer e não com o que precisamos fazer.

  7. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Pois é Mattar, mesmo criticando o Congresso pela não aprovação das privatizações necessárias, não foi correto você abandonar o governo e ainda fazer criticas. Seu ex chefe Paulo Guedes continua lá dando sua contribuição mesmo contrariado por vezes com a necessária politização de Bolsonaro para conseguir governar o pais, pois reconhece que Bolsonaro já teria sido impedido por esse Congresso que você com razão critica. Não é só privatizar, é necessário uma REFORMA POLITICA, que reduza em no mínimo 1/3 do LEGISLATIVO (Câmara Federal, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais) e o SENADO FEDERAL a somente 1 inútil senador por Estado. Para que o pais precisa de 3 RANDOLFES por Estado?. E isto não é o presidente Bolsonaro que decide, mas sim o POVO voltar às ruas naquelas memoráveis manifestações verde amarelas, pacificas e democráticas EXIGINDO a urgência dessa PAUTA, bem como das REFORMAS DO JUDICIÁRIO e ADMINISTRATIVA. Mais, reduzir a quantidade de prefeituras que não tem receita própria para pagar sequer seu funcionalismo público e agrega-las a uma única prefeitura da região com representantes de todos os munícipes.

    1. Helcio Jose Pinto Rodrigues
      Helcio Jose Pinto Rodrigues

      Concordo. Se as pessoas que aceitam colaborar ( e tem capacidade para tal ) dão por concluída suas missões precocemente seguiremos com esse modelo cuja manutenção interessa às corporações estatais, sindicatos, políticos fisiológicos e até mesmo certo ex presidente que trata as estatais com “nossas empresas”.

    2. Laudares Capella
      Laudares Capella

      Excelente Antonio Carlos;.Claro como a agua, só falta o povo se manifestar quantas vezes for preciso.

  8. Marcio Cruz
    Marcio Cruz

    Parabens, Salim Mattar. Exemplo como empresario, excepcional com sua visao sobre privatizar tudo. Continue.

  9. Roberto Salles Zancaner
    Roberto Salles Zancaner

    Excelente artigo!
    Para extinguir a corrupção nas estatais, basta extinguir as estatais…

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