Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

Agências de checagem: uma aberração da era moderna

À caça de fake news, elas intensificam a perseguição a todos os que não concordam com a verdade estabelecida pelo consórcio de imprensa

“A inflação mensal na Argentina está em 7,4%, enquanto a inflação mensal brasileira está em 10,07%, índice 36% maior do que o argentino.”

Caso Oeste publicasse o que aparece acima, seu autor seria considerado analfabeto aritmético, imbecil estatístico ou maluco.

A realidade informa que a economia brasileira registrou uma deflação de quase 0,7% em julho. Na Argentina, a inflação anual alcançou 71% — e tende a piorar. A mentira reproduzida na abertura desta reportagem foi publicada pela agência de checagem Lupa, subordinada à revista Piauí, sempre ansiosa por qualificar de “fake news” uma constatação feita por Jair Bolsonaro na entrevista ao podcast Cara a Tapa, em 13 de agosto: “A inflação mensal da Argentina está equivalente à nossa atual anual aqui no Brasil”, afirmou o presidente.

Jornalistas de verdade se ajoelhariam no milho. Em vez de reconhecer o erro, pedir desculpas e partir para outra, a Lupa optou por tentar justificar o injustificável. “A comparação das inflações mensal da Argentina e anual do Brasil foi feita por Bolsonaro”, desconversou a agência. “A Lupa mostrou os índices (julho Arg: 7,4%; últimos 12 meses BR: 10,07%), indicando que a frase foi exagerada”, prosseguiu o palavrório. “A inflação anual é maior na Argentina (de 71%), como explicado na checagem.” O post que contém a primeira desinformação não foi apagado. Continua por lá — agora acompanhado de uma explicação ainda mais confusa.

Este é apenas um dos exemplos de uma longa lista de checagens mal checadas. Um dos grandes passatempos dessas agências é perseguir os “blogueiros de direita” — como gostam de denominar jornalistas que não concordam com o que foi estabelecido como verdade pelo consórcio de imprensa.

O fetiche da pandemia

A carnaval da turma se intensificou com a pandemia de coronavírus e chegou ao clímax com a “caça aos negacionistas”. Alguém pôs em discussão a necessidade de vacinação para certas faixas etárias ou perguntou sobre os efeitos colaterais dos imunizantes? Carimbo de fake news. Defendeu o tratamento precoce e falou de cloroquina ou ivermectina? Tarja de desinformação. Colocou em pauta a eficácia do lockdown? Cancelamento já.

Até o momento, nenhuma agência de checagem comentou o estudo feito por pesquisadores de Harvard que reconheceram que o uso preventivo de hidroxicloroquina reduz o risco de agravamento da covid-19. “No início da pandemia, houve uma conclusão prematura de que a hidroxicloroquina não tinha efeito profilático, quando a conclusão correta seria que o efeito estimado era muito impreciso”, lamentaram os autores do estudo. Depois que Bolsonaro defendeu o uso do medicamento, a droga passou a ser desacreditada por boa parte da comunidade científica e pela maior parte da mídia, sempre endossadas por suas agências de checagem.

Os agentes tampouco enxergaram os testes que comprovam a eficiência da ivermectina, como o realizado pela empresa farmacêutica japonesa Kowa, que anunciou em janeiro deste ano que o medicamento apresentava reação antiviral contra a variante Ômicron. Tudo o que pudesse remeter a tratamento precoce foi rebaixado a “desinformação” por mais de dois anos.

Em 17 de março de 2021, por exemplo, a agência de checagens Aos Fatos, subordinada à Folha, tachou de fake news uma reportagem de Oeste sobre a pandemia de covid-19 na cidade mineira de São Lourenço. Enquanto o restante do país era castigado pelo agravamento da tragédia, o município de 46 mil habitantes completara três semanas sem registrar mortes. Em 15 de março, não havia um único paciente internado na UTI.

“Nossa experiência aqui foi exitosa”, concluiu o médico Walter José Lessa, prefeito da cidade. “Fazemos tratamento precoce já nos pacientes sintomáticos, no quarto dia, no máximo. Antes mesmo de chegar o resultado do exame, que às vezes demora dez dias. Essa antecipação do tratamento com azitromicina, dexametasona, ivermectina, vitamina D e zinco tem salvado nossa população.” Oeste ganhou a ação judicial contra a Aos Fatos.

Rodrigo Constantino recorda o episódio no artigo publicado nesta edição. “Mesmo esta jovem Revista Oeste já foi alvo da tentativa de assassinato de reputação”, alerta. “No caso, por uma ‘agência de checagem’, essa aberração da era moderna, uma espécie de extensão da velha imprensa com uma aura de Ministério da Verdade, ainda que tocado por estagiários idiotas. Oeste meteu processo e venceu: a agência que acusou a revista de espalhar fake news é que tinha disseminado mentira. Oeste incomoda justamente porque dá espaço para colunistas que ousam pensar fora da cartilha esquerdista.”

Com o fim da pandemia, essas agências estão obrigadas a procurar novos assuntos. Também por isso, a chegada da campanha eleitoral lhes pareceu bastante animadora. O foco da checagem, entretanto, não mudou. Está isenta de censura, por exemplo, a velha imprensa.

Os isentos

Em 27 de junho deste ano, o jornal o Estado de S. Paulo publicou o que pretendia ser mais um tiro de bazuca contra o governo federal. Segundo o jornal, Marcelo Xavier, presidente da Funai, não havia pisado em terras indígenas desde 2019, quando assumiu o cargo. Se os jornalistas ainda fossem mais jornalistas que militantes, pelo menos desconfiariam de tamanho disparate e apurariam a informação antes de publicá-la com destaque. A notícia foi reproduzida — também sem apuração — por dezenas de outros portais de notícia.

Foto: Reprodução/Estado de São Paulo

A nota divulgada no dia seguinte foi bem mais discreta que a primeira: “Diferentemente do que foi publicado na Coluna do Estadão no dia 27 de junho, o presidente da Funai, Marcelo Xavier, visitou territórios indígenas durante a sua gestão. Segundo a assessoria da Funai, há registro de 10 viagens desde 2019, quando ele assumiu o cargo”.

Foto: Reprodução/Estado de São Paulo

Alguns sites optaram por colocar a culpa no governo, uma vez que “o Portal da Transparência não registrou as viagens de Marcelo Xavier à Amazônia”. A resposta da Funai mostrou que uma ligeira consulta às redes sociais da instituição pouparia do constrangimento os veículos de comunicação. Todas as viagens haviam sido documentadas. As agências de checagem preferiram ficar fora da briga.

Em 12 de agosto, Mônica Bergamo, colunista da Folha de S.Paulo, deleitou-se com a “grande descoberta”, logo divulgada pelo Twitter: “Jair e Michele Bolsonaro almoçaram com Guilherme de Pádua, o assassino de Daniela Pérez”. O texto linkado ao tuíte dava detalhes do que teria sido um culto evangélico seguido de um “encontro para seletos convidados”.


Juliana Lacerda, mulher de Pádua, desmontou publicamente a farsa. “Gente, vazou uma foto minha com a primeira-dama, falando que eu sou amiga íntima dela, e isso é mentira”, esclareceu, num vídeo publicado nas redes sociais. “A imprensa consegue ser muito suja, é mentira. Eu simplesmente estava em uma comemoração dos 50 anos do pastor Márcio, e ela estava presente nessa festa. E eu, como todos ali, estava em uma fila para poder tirar foto com ela.”

Sem admitir o erro, a jornalista da Folha soltou um segundo tuíte: “Mulher de Guilherme de Pádua, assassino de Glória Pérez (sic) e hoje pastor, diz que Michelle Bolsonaro não sabia quem ela era ao tirarem uma foto”. Todos os textos sobre o encontro que não aconteceu continuam circulando na internet como se fossem verdadeiros. Mais uma vez, as agências de checagem ficaram fora da briga.

“As agências sempre estão ligadas a uma grande empresa de comunicação, que nunca é submetida a checagem”, observa Flavio Morgenstern, escritor e analista político. “Há também a parceria delas com com as big techs, que hoje são determinantes no alcance das notícias. A grande censura é feita justamente por essas empresas. A forma como um conteúdo é espalhado numa rede social, sendo distribuído a um menor ou maior número de pessoas, é gravíssima. E as big techs fazem isso usando como base a checagem dessas agências.” Flavio acrescenta que o conceito de fake news nem existia há cinco anos. “Ele foi inventado porque a imprensa precisava explicar o que havia levado à vitória de Donald Trump”, conta. “Agora, todos tratam essas ‘mentiras’ como se fossem o maior perigo do mundo.”

Para o antropólogo Flávio Gordon, as agências de checagem, sobretudo no Brasil, desempenham o papel de polícia política. “Elas têm o poder de delimitar o perímetro do que pode ser dito e o que deve ser banido do debate público sob a pecha de ‘fake news‘”, disse. “Como são compostas majoritariamente de militantes de esquerda, essa delimitação é política e, portanto, totalitária, pois exclui as opiniões e as informações veiculadas por todo um setor do espectro político.” Ao serem usadas pelas big techs como prova de veracidade para determinar a censura de postagens e perfis, elas se tornam, segundo Gordon, parte fundamental de um mecanismo repressivo. “Gosto de chamá-las de agências de chekagem — com K”, afirma. “Uma referência à Cheka, à antiga polícia política soviética, depois transformada em KGB.”

Neste ano, essas agências foram convidadas pelo Tribunal Superior Eleitoral a checar a lisura das próximas eleições.

Leia também “A polícia da informação”

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13 comentários Ver comentários

  1. Estamos um pouco atrasados, porém sem dúvidas, “evoluindo” para o modêlo de “governo” que deveria estar instalado já na década de 80, muito bem ilustrado desde 1958 por George Orwell em seu profético livro 1984 !

  2. Como disse Gordon, essas pseudo-agências cumprem a função de polícia política.
    A ideologia de esquerda é essencialmente totalitária. Faz parte da doutrina e do DNA deles.

  3. Ótimo artigo. Parabéns. Quem autorizou, deu poderes para essas “agências de checagem” se intitularem guardiãs da verdade absoluta? Se dependesse de mim já estariam todas fechadas. Não servem para nada. Quem checa os checadores?

  4. Branca, só uma correção: o nome do podcast que o presidente foi no dia 13 de Agosto é Cara a Tapa não Tapa na Cara. Parabéns pela matéria. Sucesso!

  5. Muito boa sua matéria Branca! Essa questão das fakes virou uma piada! Todo mundo consulta essas “agências” da verdade para verificar sobre o falso x verdadeiro! Deus nos ajude! Porque a situação presente está insustentável!
    Abraço grande

    1. Exato, sr. Manoel. Virou piada e os responsáveis são esses nomeados para o Supremo que não honram os cargos que ocupam. Eles, mais que ninguém, atacam a imagem da Instituição que deveriam preservar e respeitar. Saudações e parabéns à Jornalista pela matéria.

  6. JÁ SABEMOS QUEM SÃO OS INIMIGOS DA VERDADEIRA DEMOCRACIA, OS CORRUPTOS, OS LADRÕES E OS CONSPIRADORES CONTRA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA. NÃO FALTA MAIS NADA PARA SABER

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