Edição de arte Oeste

A polícia da informação

Filha da censura e irmã do controle social da mídia, a agência de checagem tenta impor o pensamento único

Sepultada em 1976 pela revogação do Ato Institucional nº 5, a velha censura tentou sair da tumba com um nome espertamente rejuvenescido: controle social da mídia. Desmoralizada pela suspeita de que as redações seriam comandadas por bandos de franklinsmartins, e infestadas por jornalistas que odeiam a liberdade de expressão dos outros, foi enterrada como indigente. Em 2015, começou a escapar da cova rasa com um codinome que soa inofensivo: agência de checagem. Desta vez, os disfarces são menos mambembes, a metodologia é mais sutil. Mas rugas inconfundíveis escancaram a alma liberticida. Podem chamá-la de censura que ela atende.

Entre 1968 e 1976, a teimosa inimiga da liberdade de informação não ocultava a identidade e agia em forma de gente. Instalados nas redações de jornais e revistas, os censores liam todos os textos prontos para publicação armados de um lápis de cor. O X em vermelho berrante interditava páginas datilografadas que lhes parecessem desfavoráveis ao governo, e também trechos que aquele leitor onipotente considerasse misterioso demais. Na dúvida, invertiam o antiquíssimo preceito jurídico — e decidiam contra o réu. Algumas publicações trocavam o texto, outras preenchiam o espaço desocupado com versos dos Lusíadas ou receitas de bolo. Com o tempo, alguns censores agiam com o desembaraço de quem se sente em casa.

O responsável pela coleção de XXXXXXX que desfigurou centenas de páginas da revista Veja ficou tão à vontade que solicitou a inclusão da sala que ocupava nas escalas feitas pelo moço do cafezinho. A reivindicação foi encaminhada ao destinatário errado. Depois de ouvi-la, o diretor responsável Edgard de Sylvio Faria, homem de poucas palavras, raríssimos sorrisos e nenhuma paciência com intrusos, chamou o garçom da Editora Abril para transmitir-lhe a orientação curta e grossa: “Se esse senhor pedir a você alguma coisa, recuse. Se quiser cafezinho, sirva frio”. Bem mais calorosas foram as relações entre os jornalistas do Pasquim e a censora do semanário, dona Solange. Durante algumas semanas, parte dos redatores e a encarregada de vigiá-los preferiram entender-se na cama. Acabaram denunciados pela crescente redução de textos proibidos. E a tolerante Solange foi substituída por um homem.

Os critérios que orientavam o trabalho dos censores caberiam numa frase: “É proibido publicar qualquer artigo, reportagem, editorial, vogal, consoante, ponto de exclamação, vírgula, ponto de interrogação, reticências ou quaisquer outras coisas que possam desagradar aos integrantes da cúpula do governo federal”. Os executores da missão de vetar textos sabiam que isso era pouco para os governantes nativos, cujo sonho foi explicitado pelo general-presidente Costa e Silva em meados de 1968. Convidado para um almoço pela Condessa Pereira Carneiro, o visitante queixou-se à dona do Jornal do Brasil do tom pouco amistoso das páginas da editoria de Política. “Nossas críticas são sempre construtivas”, ponderou a Condessa. “Mas eu não quero saber de críticas, nem destrutivas nem construtivas”, abriu a alma o chefe do governo militar. “O que eu quero mesmo é elogio.”

Tal sonho pareceria possível se tivesse vingado o parto do controle social da mídia. Concebida por jornalistas convencidos de que a liberdade de imprensa era incompatível com a democracia, como Franklin Martins e Rui Falcão, a invencionice pretendia assumir o comando do noticiário jornalístico em todo o Brasil por meio de “conselhos” formados por profissionais a serviço do PT. Como as redes sociais ainda eram irrelevantes, entraram na mira dos pais da novidade telejornais, radiojornais, jornais impressos, revistas e outros veículos convencionais. Esses só divulgariam informações filtradas pelos conselheiros incumbidos de fazer chegar ao povo apenas o que o povo precisa saber. Gente para a composição dos conselhos não faltaria: desde a fundação do PT, sobram jornalistas devotos da seita que tem em Lula seu único deus. Foi a escassez de inteligência que matou o plano — antes que os genuínos jornalistas morressem de rir.

Quem seria incumbido de selecionar as manchetes que abrem o Jornal Nacional?, perguntavam-se nas redações e nos botequins os providos de pelo menos 15 neurônios. Quer dizer que os conselheiros cuidariam de escrever a reportagem de capa da Veja, editar o caderno especial do Estadão, eleger a foto principal do Globo? E quem vai comprar publicações produzidas por um bando de incapazes capazes de tudo? Onde encontrar leitores, ouvintes e telespectadores interessados no que pensam, dizem e escrevem militantes que engolem sem engasgos ordens emanadas de um analfabeto funcional? O monstrengo morreu por ausência de respostas a tais interrogações elementares. Retornaria anos depois rebatizado de agência de checagem, o mais recente filhote da censura ortodoxa. O caçula encontrou um habitat perfeito no país cindido por um Fla-Flu que a pandemia de coronavírus tornaria ainda mais maniqueísta. No restante do mundo, a covid-19 é uma usina de dúvidas. Aqui, gerou um gigantesco conglomerado de poços de certezas. Nas agências de checagem se aglomeram — com máscara, lavando as mãos a cada 15 minutos, desfraldando a bandeira do eterno lockdown e respeitando até medidas de distanciamento social com fervor religioso — anônimas sumidades que se julgam capazes de distinguir o que é certo e o que é errado, o que é verdade e o que é mentira. Melhor: fake news, expressão aplicada a desinformações que determinam o resultado de toda eleição.

Vistas de perto, as agências de checagem são viveiros de esforçados policiais da informação. A equipe agrupa marmanjos que não fizeram sucesso nas redações, jovens que não farão e gente que encontrou ali uma opção para o desemprego. Nenhum deles investiga erros cometidos pelo jornal que os sustenta. Mantêm na alça de mira apenas portais, sites, blogs e outros espaços suspeitos de divergirem das certezas que cultuam. Enxergam tapeações bolsonaristas em tudo o que desafine da cantilena lulista. Os idealizadores do controle social da mídia perseguiam a unanimidade a favor do governo federal. Os fundadores das agências sonham com a unanimidade contra o governo federal. Uns e outros buscam por rotas diversas o mesmo porto inacessível. São irmãos.

A mão invisível das agências de checagem desceu sobre Oeste pela primeira vez em 31 de julho de 2020. Sob o título “É falso que imagem da Nasa prova que Amazônia não está ‘em chamas’”, a Aos Fatos determinou que a imagem do satélite da agência espacial que ilustrava o texto publicado 11 dias antes não correspondia à realidade. Motivo: uma das três manchetes destacadas no início da reportagem citava o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Numa extensa resposta à agência — e em outras matérias publicadas sobre o caso —, Oeste explicou que jamais usara fotos da Nasa para contestar dados do Inpe. A imagem do satélite apenas provava que a Floresta Amazônica, diferentemente do que vinha divulgando a imprensa tradicional, não estava em chamas. Oeste acrescentou que, “mesmo analisando os dados do Inpe (e não foi essa a intenção da reportagem), era possível constatar que, no bioma amazônico, havia 2.248 focos de queimadas registrados pelos satélites em junho de 2020”. O número era inferior à média para o mês, de 2.724 — e bem abaixo do máximo, registrado em 2004 (9.179 focos).

Em consequência da parceria entre Aos Fatos e Facebook, a reportagem de Oeste, sempre que compartilhada na rede social, era coberta por uma tarja com o aviso: “Informação falsa — Checada por verificadores de fatos independentes”.

Apesar das informações verídicas, o Facebook continua mantendo uma tarja sobre a foto da reportagem de Oeste

Em 17 de março deste ano, Aos Fatos atacou novamente: “É falso que São Lourenço zerou mortes e internações por covid-19 devido a ‘tratamento precoce’”. A reportagem publicada por Oeste na antevéspera informava corretamente que, de acordo com o boletim emitido pela prefeitura de São Lourenço, naquele dia não havia um só paciente internado na UTI devido à covid-19. O texto incluía um relato do prefeito Walter Lessa (PTB) sobre a adoção do tratamento precoce em casos de suspeita da doença. Como sempre, a agência contestou a utilidade do tratamento precoce.

Depois dessa “checagem” e do veto imposto pelo Facebook a posts patrocinados, Oeste acionou a Aos Fatos judicialmente, exigindo as devidas retratações e reparações. Foi a primeira ação desse tipo no Brasil. Na sexta-feira 23 de abril, o juiz Marcelo Augusto Oliveira, da 41ª Vara Cível de São Paulo, determinou a exclusão dos textos da agência de checagem. “A ação tem como objetivo responder à pergunta: estamos ou não numa democracia?”, ressaltou Alexandre Fidalgo, advogado de Oeste. “Essa indagação retórica precisa ser analisada. Se o Estado é democrático, são permitidas opiniões diferentes, inclusive contraditórias”. O mais preocupante, segundo Fidalgo, é que as reportagens de Oeste alvejadas pela agência não eram fruto de opinião, mas de rigoroso processo de apuração jornalística. “Ainda que os fatos publicados possam desagradar a alguns, são fatos”, observou. “Eles não só podem como devem ser divulgados.”

Em vez de excluir os textos, como determinou a Justiça, Aos Fatos colocou uma tarja preta sobre o logotipo de Oeste e manteve as postagens. A insolência foi tão longe que a agência se considerou censurada pela decisão do juiz que a proibiu de censurar os textos censurados. O Facebook ainda não liberou os posts patrocinados da revista.

A má-fé das agências de checagem não se limita a Aos Fatos. Em 8 de abril, a Verifica, subordinada ao jornal O Estado de S. Paulo, contestou trechos da reportagem com o título “Covid-19: após um mês de lockdown, aumenta o número de pacientes internados em leitos de UTI em Araraquara”. As afirmações da Verifica foram rebatidas uma a uma no texto intitulado “Oeste novamente é vítima de fake news de agência de checagem”. Eram oito. Na primeira delas, a agência alegava que Araraquara não tivera um mês de lockdown. Segue-se a resposta de Oeste:

“Ao responder às perguntas de Oeste num e-mail enviado em 22 de março, a própria assessoria de imprensa da prefeitura de Araraquara enviou um documento com o título ‘Resultados de 1 mês de lockdown’. A mesma informação foi retificada por telefone, em ligações gravadas entre o repórter e a assessora de imprensa da prefeitura. O dado também consta numa reportagem publicada no próprio site do jornal O Estado de S. Paulo em 22 de março. A informação aparece no título: ‘Um mês após lockdown, Araraquara respira’”. O texto do Estadão nunca foi classificado de fake news.

A réplica de Oeste tinha mais de 800 palavras, reduzidas a menos de 60 pela Verifica e publicadas no pé do artigo, sob o subtítulo “Outro lado: “No dia 13, o site publicou um texto em que disse ter sido ‘vítima de fake news da agência de checagem’ e afirmou que ‘o objetivo da reportagem de Oeste era tratar unicamente das internações em leitos de UTI’. O Estadão Verifica mantém a conclusão desta checagem”.

Algumas demonstrações de má-fé exigem coragem. Em 29 de março, por exemplo, a agência Fato ou Fake, ligada ao jornal O Globo e ao portal G1, publicou um texto com o título “É #FAKE que governador de Sergipe fez decreto abolindo o direito à propriedade privada”. No mesmo dia, Oeste havia informado que um decreto de Belivaldo Chagas determinara a requisição de “bens móveis e imóveis privados e a utilização temporária de propriedade particular”.

Segundo as agências, “abolir o direito de propriedade” é diferente de “requisitar bens móveis e imóveis privados”. Assim como “invasão” é diferente de “ocupação”, como querem fazer crer Guilherme Boulos e o MST. “Favela” é diferente de “comunidade” e “regulação” (ou “controle”) dos meios de comunicação nada tem a ver com “censura”.

Oeste analisou 32 reportagens publicadas em maio pelas quatro principais agências de checagem do país: Lupa (ligada à revista piauí e ao jornal Folha de S.Paulo), Aos Fatos, Fato ou Fake e Verifica. Em sua maioria, as checagens são pertinentes. Mas fica claro que as agências estão alinhadas ao evangelho segundo a oposição a Bolsonaro. O único conteúdo positivo sobre a atuação do presidente, publicado pela Verifica, checa uma distribuição de alimentos promovida em Araraquara.

Malabarismos estatísticos também aparecem na tentativa de desmoralizar declarações de Marcelo Queiroga à CPI da Covid. No item 4 de um texto publicado pela Aos Fatos, está escrito que “é FALSO que haja queda no número de casos confirmados de covid-19”. Segundo a agência, “as médias recentes [de contaminação] têm apresentado pequenas variações, indicando estabilidade na curva de casos”. Basta uma consulta ao site do Ministério da Saúde para sepultar a versão da agência.

Um texto publicado pela revista de divulgação científica Scientific American afirma que as distorções e mentiras produzidas por políticos e analistas se tornaram tão comuns que os principais meios de comunicação passaram a designar jornalistas e verificadores de fatos para checar suas afirmações. “A motivação para descobrir falsidades e declarações enganosas tiradas do contexto é louvável”, diz o artigo. “Os verificadores de fatos visam a chegar mais perto da verdade, mas seus preconceitos podem ocultar a própria verdade que procuram.” Se também no Brasil as intenções são boas, os resultados até aqui se mostram desastrosos. Balizados pela arrogância e por uma perigosa autoconfiança, os checadores agem como infalíveis policiais da informação. Se efetivamente soubessem identificar todas as mentiras e todas as verdades, estariam perdendo a chance de enriquecer rapidamente. Bastaria que as agências lançassem publicações próprias. O mundo finalmente seria apresentado ao jornalismo sem erros.

Com reportagem de Artur Piva

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