Mesa festiva de Natal | Foto: Shutterstock
Mesa festiva de Natal | Foto: Shutterstock

Sem agricultura, haveria Natal?

Mais de 200 milhões de panetones serão vendidos. São milhões de toneladas de farinha, ovos, açúcar, leite, frutas cristalizadas etc. E um faturamento superior a R$ 1 bilhão

Vê que aqueles que devem à pobreza
Amor divino, e ao povo caridade,
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justiça e integridade.
Luís de Camões, Os Lusíadas (IX – 28)

Nesta semana natalina ocorrem os dias mais longos do ano. No campo é tempo de colheitas. Poucos se dão conta: os produtos da agropecuária e da agroindústria garantem os símbolos, a ceia natalina e parte dos presentes, sobretudo os tecidos em algodão. Vive-se um verdadeiro Agronatal. Nada de mãos vazias.

O Natal coincide com o evento cósmico do solstício de verão. No 21 de dezembro, o sol atingiu seu maior distanciamento da Linha do Equador. E estacionou em seu aparente deslocamento para o Sul: sol-stício, sol estaciona. Agora, irá em direção oposta, ao Hemisfério Norte. Início de verão por aqui e inverno por lá.

Nesta semana, em São Paulo ou Mato Grosso do Sul por exemplo, foi possível avistar o disco solar, ao meio-dia, no fundo de um poço. Nessa hora, o sol atinge o centro, o ponto mais alto da abóboda celeste: o zênite, do árabe samt ar-ra’s, caminho acima da cabeça. Postes, pessoas e casas não apresentam sombra ao meio-dia. Essa ausência de sombras foi interpretada como um sinal cósmico do triunfo da luz sobre as trevas. É tempo de muita Iluminação.

Em seu caminho aparente de Leste a Oeste, no dia do solstício, o sol passou pelo zênite em Queensland (Austrália), no sul do Oceano Índico, em Madagascar e Moçambique, ao norte do Cabo (África do Sul) e da cidade de São Paulo. Esse caminho solar traça no solo o Trópico de Capricórnio. O cruzamento de estradas com essa linha imaginária está sinalizado com placas nas rodovias SP 70, SP 75, SP 255 e outras. Onde o Trópico de Capricórnio cruza a Rodovia dos Bandeirantes (SP 348), as placas são bem visíveis, na chegada e na saída da capital paulista. Poucos motoristas atentam e entendem seu significado. Who cares?

Neste tempo do Advento, em residências, comércios e áreas públicas, montaram-se presépios e árvores de Natal, instalaram-se luzinhas, decorações, flores e guirlandas verde-vermelhas, em meio ao verde-amarelo de bandeiras do Brasil.

Entre os primeiros símbolos natalinos levados do campo às cidades estão as árvores de Natal. No Brasil, são centenas de milhares de pinheiros, tuias e murtas, produzidos ao longo do ano por viveiristas, em vários tamanhos e formatos, para atender desejos e possibilidades do consumidor. Os pinheiros natalinos, sempre verdes, simbolizam esperança e vida. Sua forma triangular evoca a Trindade. O inventor da árvore de Natal foi São Bonifácio, o apóstolo dos germanos, lá pelos idos de 723, em Fritzlar, na Alemanha. Em pleno Advento, ele convenceu, pelo machado, povo e druidas a trocarem a veneração do deus Thor, no carvalho, pela do Menino Jesus, no pinheiro. São Bonifácio manteve a veneração vegetal, a fitofania, com outra árvore e divindade. Deu certo. O costume de plantar pinheiros para celebrar o nascimento de Jesus começou, estendeu-se pela Alemanha e ao mundo.

Plantação de pinheiros de Natal | Foto: Shutterstock

Se os trópicos importaram símbolos do Natal de regiões temperadas, também exportaram um vegetal natalino para a Europa e a América do Norte: a poinsétia, também conhecida como cardeal, flor ou estrela-do-natal. Originária do México, a planta é coroada por folhas semelhantes a flores vermelhas, muito vivas. Seu nome científico, Euphorbia pulcherrima, significa a mais bela das eufórbias.

Esse símbolo vegetal mexicano não veio dos astecas e sim de frades franciscanos, especialistas em novidades natalinas. Como a do presépio, inventado pelo próprio São Francisco ao celebrar o Natal e seus valores em Greccio, em 1223. A partir do século 17, no México, os frades utilizaram a poinsétia em comemorações natalinas e associaram suas brácteas vermelhas à estrela de Belém. Hoje, mais de 120 milhões de vasos servem a decoração natalina na Europa. Aqui, a poinsétia é a planta de decoração mais vendida no Natal. Enfeita shoppings, residências e espaços públicos. Na Cooperativa Veiling de Holambra, só na época do Natal, são vendidos 2 milhões de vasos. Sua produção é sempre em estufas.

Chegaram pastores, com ovelhas, cabras, jumentos e camelos. Foi quase uma feira pecuária, um Agronatal

Flores e plantas do Natal são uma obra-prima da agricultura. São mais de 8.000 pequenos agricultores, com área média de 1,5 hectare. Sua organização empresarial e tecnológica é avançada. Empregam, em média, oito trabalhadores por hectare, segundo o Instituto Brasileiro de Floricultura. O mercado de flores gera 209.000 empregos diretos e 800.000 indiretos. O faturamento em 2021 foi de cerca de R$ 11 bilhões, um crescimento anual de 15%. São mais de 600 empresas atacadistas e 25.000 pontos de venda. Deixe o plástico de lado, compre tuias, pinheiros, amarílis, poinsétias e transforme sua casa num lar. Naturalmente.

Flores estrelas vermelhas de Natal para a venda | Foto: Shutterstock

Além da decoração, a agropecuária marca a ceia de Natal com a proteínas nobres, em pratos típicos desta época: peru (mais de 100.000 toneladas), chester, tender e pernil suíno, além de carnes defumadas e cortes especiais de cordeiros. Empresas frigoríficas têm unidades dedicadas só à produção das carnes para o Natal. E, apesar da inflação, aumentará o consumo.

Foto: Shutterstock

O tempo da colheita estival garante frutas tropicais e subtropicais, frescas e secas. E elas acrescentam cor e sabor às ceias, integradas inclusive em farofas, bolos e panetones. Mais de 200 milhões de panetones serão vendidos. São milhões de toneladas de farinha, ovos, açúcar, leite, frutas cristalizadas etc., garantidos pelo agro. E um faturamento superior a R$ 1 bilhão. O consumo médio é de 440 gramas por família, equivalente a um panetone, metade do consumo médio na Itália. Este ano trouxe novas opções, diversificação em recheios (avelãs, doce de leite, pistache, limão siciliano, açafrão, cupuaçu, paçoca e até parmesão) e tamanhos (de gigantes com 4 quilos a minipanetones), acessíveis a todos os bolsos. Até a Embrapa indica receita de panetones feitos por fermentação natural.

Panetone tradicional de Natal, com passas e frutas secas | Foto: Shutterstock

A pesquisa agrícola ampliou o tempo da frutificação e a diversidade de pêssegos, uvas, lichias, figos, morangos, nectarinas, mangas, ameixas, maçãs e outras. O Brasil produz 45 milhões de toneladas de frutas por ano. É o terceiro produtor mundial, atrás de China e Índia. No Natal, além de frutas frescas, há o consumo saudável de nozes-pecã, castanha-do-pará e de caju, uvas-passas, baru, macadâmia e frutas cristalizadas. Segundo a Associação Brasileira de Nozes, Castanhas e Frutas Secas, a produção global de nozes cresce 6% ao ano. Um mercado de US$ 35 bilhões. O Brasil é o oitavo produtor mundial de natalinas nozes e castanhas.

Variedade de nozes em tigelas. Cajus, avelãs, nozes, pistache, pinhões, amendoim, macadâmia, amêndoas, castanha-do-pará | Foto: Shutterstock

Sobre o Natal, relatos evangélicos e tradição cristã retratam o nascimento de Jesus em ambiente rural, num estábulo. Ali descansavam, após a labuta diária, um boi e um jumento (Is 1,3). Em meio ao feno e à palha, o recém-nascido foi colocado numa manjedoura. O evento foi anunciado a pecuaristas. Chegaram pastores, com ovelhas, cabras, jumentos e camelos. Foi quase uma feira pecuária, um Agronatal.

A Igreja nunca afirmou: Jesus nasceu no dia 24 de dezembro. Ninguém sabe quando ele nasceu. Não há dúvida sobre Ele ter nascido, um dia. Nos primeiros séculos, o nascimento de Jesus era festejado em diversas datas. No ano 354, o papa Júlio I definiu uma data única para celebrar o natalício de Jesus, coerente com o calendário litúrgico e os ciclos cósmicos. Data associada ao solstício, nove meses depois da festa da concepção de Maria ou anunciação do Senhor, próxima do equinócio em 25 de março. São datas ligeiramente deslocadas dos dias exatos de solstício e equinócio para marcar a despaganização desses marcos temporais.

O solstício de verão marca o tempo das colheitas, da safra e da grande produção agropecuária brasileira. A agricultura segue os ciclos cósmicos e deles tira proveito. É um tempo de abundância e riqueza. O solstício ilumina não apenas a Terra, o Hemisfério Sul e o espaço em suas três dimensões. Ele ilumina também o tempo (chronos), essa quarta dimensão da existência, além dos corações humanos. Solstício e Natal anunciam a proximidade de um ano novo e a possibilidade para todos, sempre renovada, de um novo Tempo (kairós).

Para encerrar, um novo e breve conto natalino. Votos ao leitor de um Santo Natal.

Foto: Shutterstock

Mãos vazias. O final de tarde, na aldeia do pequeno órfão Natanael, foi abalado pela chegada de uma caravana de camelos, ricamente ornados. Traziam pesadas cargas, montados por verdadeiros reis da Pérsia. Buscaram um local de descanso. Natanael, pastor de ovelhas alheias, ajudou-os a montar acampamento e a cuidar dos camelos.

Curiosos aproximaram-se. Deles escutaram histórias maravilhosas. Por estarem despertos à noite, ouviram a voz oracular dos céus, o anúncio do nascimento de um novo rei. Por seus cálculos matemáticos, combinados à observação de uma estrela guia, foram orientados a caminhar do Oriente à Judeia. Os aldeões duvidavam desses relatos. Inventados para dissimular seus reais propósitos, diziam. Natanael, não.

Seu destino estava próximo: a aldeia conhecida como Casa do Pão, a Beit Lehém ou Belém, a um dia de viagem. Ali encontrariam o futuro rei, recém-nascido. Com muitos compromissos, trabalhos e afazeres, todos retiram-se ao anoitecer com sorrisos incrédulos. Menos Natanael. Dormiu próximo aos camelos.

Ao amanhecer, o menino, miserável e faminto, decidiu segui-los à distância. Dissimulado entre arbustos, caminhando entre pedras e escalando colinas, Natanael os seguiu até o anoitecer, quando a estrela guia surgiu e pairou sobre um estábulo. Muitas pessoas se aproximavam, vindas de todas as partes, com presentes nas mãos para entregar ao recém-nascido.

Os magos do Oriente entraram com seus presentes magníficos. Natanael os acompanhou. Ficou maravilhado com a luz emanando do bebê, nos braços da mãe, no fundo do estábulo. A mulher levantou-se para receber as visitas e suas oferendas. Natanael percebeu constrangido: estava de mãos vazias. Era o único, entre todos, a não trazer nada. Nem mesmo uma florzinha dos campos.

Envergonhado, pensou em retirar-se. Não teve tempo. Maria olhou para todos, para tantas mãos e tantos presentes. Para poder recebê-los, dirigiu-se primeiro a Natanael. Por ser o único de mãos vazias, confiou-lhe o Menino Jesus.

Leia também “Muitos agricultores, uma só agricultura”

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12 comentários Ver comentários

  1. Belíssimo artigo! É a primeira vez que leio um artigo sobre o Agro e que tenho a alma alimentada. Lendo o artigo, chegamos à conclusão de que o Brasil possui uma vocação muito alta. Material e espiritual. Obrigado e continue escrevendo novos artigos como esse.

  2. Como sempre: completo!
    Como diria por aqui, em terras pantaneiras, nosso poeta Manoel de Barros: “cabal”!
    Agricultor, pecuarista, historiador, filólogo, filósofo, astrônomo, cientista, escritor erudito, cientista, cristão…
    O quê mais?
    Precisa?
    Saúde, paz, bem, sucesso Evaristo!
    Forte abraço!

  3. Em meio a muito trabalho, só tive o prazer de ler esta belíssima coluna já no meio da oitava de Natal. Melhor ainda, pronga a alegria dessa mais sublime solenidade, e traz música, perfumes e sabores da infância, Feliz tempo do Natal, estimado Professor!

  4. Com apropriado artigo nosso mestre enriquece nosso período de festas.
    Ao Dr Evaristo e família um FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO 2023 com saúde e realizações

    1. Um excelente artigo Mestre Evaristo.
      Cada vez mais, nos enriquecemos com seu conhecimento, e descobrimos fatos inéditos da história da nossa agricultura, e do fantástico potencial que nosso BRASIL tem.

  5. Texto maravilhoso. Incrivel como ainda ha muita gente que nao se da conta de onde viemos e pra onde vamos
    Acham q o feijao vem das prateleiras dos supermercados
    Obrigada Evaristo por mais essa oportunidade de aprender
    Obrigada aos envolvidos no agro e que nos permite uma mesa farta em datas especiais
    Que o Menino Jesus nos abençoe a todos e principalmente proteja nosso país ameaçado por tempos sombrios
    Um Feliz Natal a todos !!

  6. Este artigo demonstra a necessidade da sociedade brasileira, tão urbana, valorizar o campo, respeitar o agro e os agricultores. E se tem um período para isso, são as festas de final de ano. Nossa civilização ocidental cresceu à sombra do arado, do machado, da enxada, dos bovinos e dos equinos. A agricultura foi e é ainda a força motora de nossa economia. Parabéns dr. Evaristo pela aula. Para concluir: em seu conto natalino, as mãos vazias também representam as mãos limpas!

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