A pandemia do politicamente correto

Enquanto bilhões de pessoas lutam para sobreviver ao vírus e ao colapso econômico, ativistas turbinam a guerra cultural

Pense numa situação absolutamente prosaica: comprar uma lata de tinta. Pode haver aí algum risco de ofender alguém? Nos tempos estranhos em que vivemos, em que o “politicamente correto” se dissemina como vírus fora de controle, pode. Segundo revelou recentemente o executivo de uma tradicional marca do produto, os nomes de certas cores como “pele de pêssego” e “pele bronzeada” não devem mais ser usados pela empresa porque teriam viés racista. O disparate é apenas um exemplo das sandices que vêm se multiplicando pelo mundo em função dos esforços de ativistas para “neutralizar” o vocabulário. Ou seja, eliminar palavras que possam ser percebidas, ainda que remotamente, como ofensivas a membros de minorias — de gênero, raça, origem étnica, idade, credo ou portadores de deficiências. E como essas categorias não cessam de se fragmentar, à medida que múltiplas novas “identidades” são reivindicadas, assiste-se a uma ofensiva delirante contra um dos pilares básicos da civilização: a língua. O instrumento de comunicação por excelência que nos diferencia como humanos, base da cultura e da sociedade.

Em uma iniciativa na mesma linha, empresas de tecnologia decidiram também eliminar, semanas atrás, termos supostamente racistas do jargão empregado por seus profissionais — como master e slave, que identificam sistemas nos quais um deles controla derivados ou cópias. E aqui no Brasil anda cada vez mais acirrada a polêmica em certos meios sobre a melhor maneira de abolir eventuais traços discriminatórios do idioma. De início, resolveu-se substituir os pronomes ele e ela pelos neologismos todxs ou tod@s, mas a fórmula tem sido criticada porque estes não são reconhecidos por softwares de leitura de tela, o que discrimina disléxicos e cegos. Prevaleceram então os extremistas, que propõem praticamente um novo idioma, no qual o a e o dos artigos e pronomes masculino e feminino são trocados por e ou u, a fim de abranger todos os chamados gêneros não binários — um amplo e crescente espectro de variantes, como atesta a ampliação da antiga sigla GLS para GLBTQ+ ou LGBTTTQQIAA.

Nessa “neolinguagem inclusiva”, que alguns defendem seja adotada como norma-padrão, dir-se-ia, por exemplo: “elu é muito bonite”, em vez de “ela é muito bonita”; e “todes gostam de irmén e du amigue delu”, em vez de todos gostam da irmã e do amigo dele”. Seriam incorporados também neologismos estapafúrdios — como o malfadado “presidenta”, de triste memória — e suprimidos todos os vocábulos que possam ter conotações negativas por sua origem etimológica, a exemplo de denegrir, judiar e escravizar. Não se trata, portanto, de abolir palavrões ou impropérios. E quem poderia ser contra esforços legítimos para acabar com incivilidades e práticas de discriminação? O objetivo declarado é “purificar” radicalmente o discurso de qualquer palavra que possa ofender a alguém. Parece absurdo? Quando se abre a possibilidade de qualquer um reinventar o idioma, reescrever obras artísticas e policiar a cultura a pretexto de defender os direitos das minorias, entra-se inapelavelmente num terreno perigoso.

Tenta-se apagar ou reescrever a história para adequá-la à ótica das ideologias anticapitalistas

Essa cruzada para homogeneizar o pensamento e impor à sociedade um novo cânone de valores não é novidade. Ela vem ganhando terreno há décadas, fomentada sobretudo nos meios acadêmicos, artísticos e intelectuais, no contexto da crescente polarização política entre direita e esquerda. Ou melhor, entre conservadores e liberais e os autointitulados progressistas — que agora se identificam também pelo neologismo wokes, que pretende designar os “despertos” e conscientes, que se consideram os únicos defensores da justiça social e do bem comum. Mas o movimento ganhou voltagem após as recentes manifestações antirracistas na forma de uma ampla ofensiva contra símbolos e valores da cultura ocidental: ataques a personagens e monumentos históricos, substituição de nomes de instituições e lugares, censura a obras literárias e artísticas consideradas inadequadas. Uma tentativa, em suma, de apagar ou reescrever a história, à moda do regime stalinista, para adequá-la à ótica das ideologias anticapitalistas. No processo, “cancela-se” ou condena-se ao ostracismo quem ouse contestar tais práticas e defender sua independência de pensamento.

O radicalismo persecutório chegou a tal ponto que um grupo de 153 intelectuais de renome publicou, na semana passada, uma carta na cultuada revista norte-americana Harper’s para condenar seus excessos. “A livre troca de informações e ideias, que é a força vital de uma sociedade liberal, está diariamente se tornando mais restrita”, alertaram os signatários, que incluem até mesmo alguns marxistas, como o filósofo-celebridade Noam Chomsky, e ativistas históricos como a feminista Gloria Steinem. Eles lamentam ainda “a intolerância a pontos de vista opostos, uma moda de promover a vergonha e o ostracismo públicos, e a tendência de reduzir questões políticas complexas a certezas morais cegas”.

Essa espécie de nova religião busca o controle das instituições culturais

As investidas do “politicamente correto” em várias frentes, da educação ao teatro, passando pela música e o humor, não respeitam fronteiras. Na Europa, feministas alteraram tempos atrás o libreto da ópera Carmen, de Bizet, para que a protagonista mate seu amante, Don José, em vez de ser assassinada por ele. Já na Austrália, uma apresentação da peça perdeu patrocinadores porque se alegou que as cenas das trabalhadoras da fábrica de charutos constituiriam um incentivo ao fumo. E, entre nós, nem o grande Monteiro Lobato, cuja obra ajudou várias gerações de brasileiros a pensar sobre o mundo, foi poupado da acusação de racista. Outra indicação de que o movimento abandonou de vez o âmbito do razoável é o combate à chamada “apropriação cultural” — a proibição de membros de determinada raça adotarem símbolos, usos e práticas de outras. Em nome desse credo, insultam-se mulheres brancas que usam turbante no estilo africano. E proíbem-se atrizes mulatas de interpretar personagens negras, como ocorreu, no Brasil, durante a montagem de um musical em homenagem à sambista carioca Ivone Lara.

“O politicamente correto é uma forma de censura que avança de forma sorrateira, sem se assumir como tal, em nome da defesa do direito à fala das minorias”, aponta a pesquisadora e crítica cultural francesa Isabelle Barbéris, autora do livro LArt du Politiquement Correct (A Arte do Politicamente Correto), publicado no ano passado e ainda sem tradução no Brasil. Ela destaca o óbvio despropósito da tal “apropriação cultural”, considerando-se que toda cultura incorpora elementos de outras. E lembra que a arte contraria sua natureza sempre que é instrumentalizada para a defesa de causas políticas, reduzindo o mundo a uma divisão maniqueísta entre o bem e o mal.

Por trás dessas disputas aparentemente periféricas, trava-se na verdade uma guerra cultural. Cujo objetivo evidente, embora não declarado, é impor às maiorias silenciosas a concepção ideológica de mundo de minorias ativistas supostamente mais esclarecidas. Para o analista político norte-americano David Brook, essa espécie de nova religião busca o controle das instituições culturais a partir de uma ideia simplificadora: a de que a história é essencialmente uma disputa entre grupos, sendo alguns deles opressores, e outros, oprimidos. “Eles acreditam que se mudarem as estruturas culturais mudarão a sociedade.” Alegadamente em nome de um mundo mais justo e na base do grito, passando à margem das urnas e do eleitorado.

O “politicamente correto” não se mostra eficaz no combate à discriminação que preconiza

Já na visão afiada do filósofo francês Luc Ferry, a guerra cultural configura uma migração da luta entre direita e esquerda, travada historicamente no campo da política e de questões substantivas, para o território mais rarefeito da cultura e do comportamento. Desnorteada depois que a queda do Muro de Berlim escancarou o colapso dos regimes comunistas e a caducidade das teses marxistas — como a luta de classes como motor da história ou o papel de vanguarda do proletariado —, a esquerda teria abraçado as causas comportamentais, das identidades e do ambientalismo catastrofista para continuar seu embate contra o capitalismo com lógica e discurso atualizados. Nesse sentido, o marxismo, que surgiu em nome da defesa das massas, teria se reduzido, de forma paradoxal, a porta-voz das minorias.

A boa notícia é que, após dominar hegemonicamente o debate intelectual nas últimas décadas, esse ideário começa, finalmente, a ser contestado de forma mais contundente. Os críticos chamam atenção para o fato de que, apesar de toda a estridência, o “politicamente correto” não se mostra eficaz para avançar, na prática, os objetivos de combate à discriminação que preconiza. Pois em vez de pôr o foco na ação política concreta, mais árdua e laboriosa, prefere atuar no palco performático da mídia. Ao criar polêmicas irrelevantes e muitas vezes risíveis, acaba também por deslegitimar e prejudicar a justa causa contra a discriminação. Porém seu ponto mais vulnerável é a natureza totalitária, já que está cada vez mais difícil tolerar, a esta altura da história, a perseguição contra opiniões políticas divergentes. Em especial nos Estados Unidos, onde a tradição de defesa da liberdade de opinião e expressão, garantida pela Primeira Emenda da Constituição, resiste inabalável.

Um dos marcos dessa tradição é a célebre decisão da Suprema Corte no polêmico processo Hustler versus Falwell, de 1987. Tratava-se da defesa do publisher da revista pornográfica, Larry Flynt, contra uma ação movida pelo então poderoso tele-evangelista Jerry Falwell, a propósito da publicação de uma paródia que sugeria, de forma ambígua, relações suspeitas entre o pastor e sua mãe. Apesar do teor escabroso da matéria e do agravante da folha corrida de Flynt, já condenado por outros crimes, a Corte não titubeou. Votou de forma unânime em favor do pornógrafo e de seu direito à liberdade de expressão. “O fato de a sociedade considerar um discurso ofensivo não é razão suficiente para suprimi-lo”, justificou o presidente da Corte à época, juiz William Rehnquist.

Leia mais sobre “cancelamento cultural” no artigo “Hoje é o passado do futuro”

Mais sobre o politicamente correto na matéria “Feminismo: o novo machismo”


Selma Santa Cruz foi editora e correspondente internacional do jornal O Estado de S. Paulo e da  revista Veja, na França e nos Estados Unidos, antes de se dedicar à comunicação corporativa como sócia-diretora da TV1, grupo de agências especializadas em marketing digital, conteúdo, live marketing e relações públicas. É mestre em comunicação pela USP e estudante permanente da História.

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