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Na terceira e última partida, El Salvador ganha de Honduras no Estádio Azteca (México) e se classifica para a Copa de 1970 | Foto: Arquivo El Diario de Hoy
Edição 332

Imagem da Semana: a Guerra do Futebol

Disputa por vaga na Copa de 1970 precipitou conflito entre Honduras e El Salvador

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

No verão de 1969, a rivalidade entre Honduras e El Salvador durante as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970 culminou em violência e intimidações nas três partidas decisivas, levando à "Guerra do Futebol". Após El Salvador vencer o jogo de desempate em 27 de junho, o país rompeu relações diplomáticas, alegando falhas na proteção de imigrantes salvadorenhos em Honduras.

No verão de 1969, durante as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970, a rivalidade entre Honduras e El Salvador ultrapassou as quatro linhas. As três partidas decisivas — em Tegucigalpa, San Salvador e, finalmente, na Cidade do México (27 de junho) — ficaram marcadas por intimidações e violência entre torcidas. Quando El Salvador venceu a partida de desempate na prorrogação, a tensão esportiva rapidamente se transformou em crise diplomática. O episódio entrou para a história como a “Guerra do Futebol”.

Mas o futebol não foi a verdadeira causa do conflito. As partidas entre as seleções dos dois países apenas acenderam o pavio de uma crise que vinha se acumulando havia anos, alimentada por disputas por terra, pressões migratórias de salvadorenhos em busca de trabalho e acesso à terra em Honduras, reformas agrárias que agravaram conflitos locais, e um nacionalismo crescente em ambos os lados. Esses fatores criaram um ambiente fértil para a escalada.

O futebol já funcionou como catalisador simbólico em outros contextos: episódios como a briga no estádio Maksimir (Dinamo Zagreb x Estrela Vermelha, 1990) — frequentemente citada como sinal precoce das tensões que explodiram nas guerras iugoslavas — e a violência em Port Said (Egito, 2012) após Al‑Masry x Al‑Ahly — ocorrida num contexto de forte polarização pós‑revolução — expõem como partidas podem acelerar divisões políticas e sociais sem, por si só, serem a causa exclusiva dos conflitos.

Honduras e El Salvador se enfrentaram em uma série de três partidas decisivas. O primeiro jogo, disputado em Tegucigalpa, foi marcado por intimidações contra a delegação salvadorenha e terminou com vitória hondurenha por 1 a 0. Uma semana depois, em San Salvador, a torcida local respondeu com ainda mais hostilidade aos visitantes, e El Salvador venceu por 3 a 0. Como cada seleção havia conquistado uma vitória, foi necessária uma terceira partida, realizada em campo neutro, na Cidade do México, em 27 de junho. El Salvador venceu por 3 a 2 na prorrogação e garantiu a classificação para a fase seguinte das eliminatórias.

No mesmo dia da classificação, El Salvador rompeu relações diplomáticas com Honduras, alegando que o governo daquele país havia falhado em proteger milhares de imigrantes salvadorenhos que sofriam perseguições, expulsões e ataques, intensificados pela implementação da reforma agrária. Por outro lado, em Honduras, muitos viam esses imigrantes como responsáveis pela pressão sobre as terras e pelo aumento da pobreza rural. A tensão entre os dois países atingiu um ponto sem retorno.

Na manhã de 14 de julho de 1969, tropas salvadorenhas cruzaram a fronteira; ataques aéreos e combates terrestres se seguiram, levando a uma guerra que durou cerca de cem horas — daí o apelido “Guerra das Cem Horas”. Estimativas de vítimas variam, mas calcula-se entre 2 mil a 3 mil mortos (majoritariamente civis), além de dezenas de milhares de pessoas deslocadas.

Jornal El Diario de Hoy, de El Salvador, sobre a Guerra do Futebol | Foto: Reprodução
Mapa ilustrando os territórios tomados por El Salvador no auge do conflito, antes de sua devolução. | Foto: Wikimedia Commons
Declaração feita pelo presidente salvadorenho Fidel Sánchez Hernández a respeito da guerra | Foto: Wikimedia Commons

A Organização dos Estados Americanos (OEA) interveio diplomaticamente. Pressionados, os dois países concordaram com um cessar‑fogo em 18 de julho de 1969. A retirada salvadorenha foi concluída no início de agosto sob intensa pressão diplomática. As disputas fronteiriças, porém, permaneceram sem solução por décadas e só foram definidas pela Corte Internacional de Justiça em 1992.

O futebol não criou a guerra — apenas revelou uma crise que já estava prestes a explodir na América Central. Por trás de 90 minutos em campo existiam décadas de disputas por terra, tensões migratórias, desigualdades e ressentimentos nacionais. 

Livro The 100 Hour War: The Conflict Between Honduras and El Salvador in July 1969, de Mario Overall e Dan Hagedorn | Foto: Reprodução Amazon

Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante da semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas

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2 comentários
  1. João Luiz Bosso
    João Luiz Bosso

    O futebol foi o estopim da guerra política, que apesar de durar apenas 100 horas, só mais de duas décadas depois é que a situação foi resolvida pela Corte Internacional de Justiça.
    90 minutos de futebol: ignição;
    100 horas de guerra: mortes e tomada de território;
    23 anos: espera para a resolução externa.
    Que história!

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