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Operação de retomada da terra indígena Apyterewa, em São Félix do Xingu, no Pará | Foto: Montagem Revista Oeste/Fernando Martinho/Repórter Brasil/Shutterstock
Edição 187

Passivos e omissos

Tragédia humanitária acontece aqui, onde ONGs estrangeiras pressionam o governo federal a desocupar a Amazônia dos brasileiros

Alexandre Garcia
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Nesta semana houve confrontos entre brasileiros radicados há décadas na Amazônia e agentes da Força Nacional, Ibama, Funai, no Estado do Pará. Um produtor rural de 37 anos, Oseias dos Santos Ribeiro, foi morto a tiro. A nota oficial diz que ele tentou tirar a arma de um policial da Força Nacional. O advogado da comunidade, Vinícius Borba, diz que foi numa discussão com um tenente-coronel. Aconteceu na Vila Renascer, reserva Apyterewa. Em outro local, Ituna-Itatá, reserva criada para índios desabrigados pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte, a semana terminou com mais conflitos entre produtores rurais e a Força Nacional, com spray de pimenta e tiros com balas de borracha versus paus e pedras. O ex-ministro da Defesa, Aldo Rebelo, chama a atenção dos brasileiros que só recebem notícias do Oriente Médio, lembrando que tragédia humanitária é aqui, onde, segundo ele, ONGs estrangeiras pressionam o governo federal a desocupar a Amazônia dos brasileiros. Amazônia vazia é mais fácil de ser aproveitada pelo poder mundial.

Operação policial na Vila Renascer, em outubro de 2023 | Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil

São Félix do Xingu, no Pará, está a 1,6 mil quilômetros ao norte de Brasília. Gaza está a leste mais de 10 mil quilômetros. Para os brasileiros em geral, Gaza é vizinha e São Félix do Xingu é no outro mundo. Não sei se é a tal síndrome de vira-lata, diagnosticada por Nelson Rodrigues, em que a vida brasileira vale menos que as outras, ou se é um mecanismo de fuga, identificado por Freud, que faz a gente se interessar menos por pesadelos no próprio país e viver algum sonho d’além-mar. Fatos gravíssimos estão acontecendo ao norte de Brasília, mas há um silêncio ensurdecedor da maior parte da mídia, inclusive na capital do Pará. Faz semanas que fervem os espíritos de brasileiros da Vila Renascer, resultado de um assentamento do Incra em 1994, “indevido”, segundo a Funai, na reserva Apyterewa, de 980 mil hectares, onde em 1998 viviam 218 índios Parakanã. Faz décadas que o governo federal sabe o que se passa na Terra do Meio. 

Vamos fingir que está tudo muito bem porque, afinal, a mais de 10 mil quilômetros de distância, o Hamas quer eliminar Israel, e Israel quer antes eliminar o Hamas

Veio ordem para desalojar os colonos, que plantam de tudo e criam gado de subsistência, e demolir o povoado, inclusive a escola. Vivem da agricultura familiar e, como não têm aonde ir, resistem. A Força Nacional foi para lá, helicópteros, Ibama, Funai — e o que acontece tem sido considerado irrelevante pelo país à sua volta. O que acontece em Israel serve para disfarçar o silêncio em relação a brasileiros expulsos de território brasileiro. Todos esquecemos como, em 500 anos, saímos do litoral; passamos por cima da linha de Tordesilhas, fomos além de Brasília. Uma parte do país ainda espera que tomemos posse. Nesta semana, previsível, tivemos o primeiro sangue derramado. E a tensão aumenta. Enquanto a população recebia a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, noticiava-se que o ministro da Justiça, Flávio Dino, mandava suspender a operação. Mas ela continuou com mais força na Vila Renascer e foi ampliada para Ituna-Itatá.

Moradores resistem a sair da Vila Renascer e se concentram em um churrasco, com bois abatidos ofertados por pecuaristas | Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil

Enquanto isso, em Mato Grosso do Sul, a mil quilômetros de Brasília, dois ônibus desembarcaram 80 índios em Rio Brilhante e invadiram uma fazenda de 400 hectares, com 7 mil sacos de soja recém-colhidos e milho por semear. Foi o que contou, na tribuna da Assembleia Legislativa, o ex-governador Zeca do PT, hoje deputado estadual. Ele garantiu o que Lula pensa também: garantir os direitos dos indígenas mas nunca concordar com invasões de terras produtivas. Zeca do PT foi quem abriu as porteiras da agropecuária do Estado para o candidato Lula se eleger pela primeira vez presidente. Esses episódios mostram uma insegurança básica que afeta o território nacional: a insegurança fundiária, agravada após a interpretação do Supremo do marco temporal deixado pelos constituintes. Ela se junta às inseguranças pessoal, patrimonial e jurídica, que nos afetam, que tornam o futuro imprevisível. Quem poderia fazer alguma coisa, o presidente do Senado, declarou em Paris que não vai pautar medidas populares, “porque qualquer instabilidade é muito ruim para o país”. Manter o atual estado de coisas, para ele, é melhor. Significa manter o status quo. Vamos fingir que está tudo muito bem porque, afinal, a mais de 10 mil quilômetros de distância, o Hamas quer eliminar Israel, e Israel quer antes eliminar o Hamas. Quando e se houver paz por lá, estaremos de volta por aqui, desfrutando a paz dos passivos e omissos.

Leia também “O Brasil não está longe da fronteira da Faixa de Gaza”

7 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    A velha mídia é vendida, Globo, Folha de São Paulo, UOL, e outras. Estão a serviço da quadrilha petista em troca de verba ”publicitária”.

  2. JHONATAN SURDINI
    JHONATAN SURDINI

    RODRIGO PACHECO, confiamos no Sr., sei que logo menos em 2089 o Sr vai pautar isso!

  3. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Está acontecendo outra covardia no nosso territorio como foi a Guerra de Canudos e a mídia vendida não solta uma notinha sequer.

  4. Ana Kazan
    Ana Kazan

    Maravilhoso Alexandre Garcia. Uma vergonha, não novidade, nessa triste pátria.

  5. JOAN
    JOAN

    Show de jornalismo!

  6. Silas Veloso
    Silas Veloso

    O Brasilão andando d novo em marcha-ré acelerada…

  7. Robson Oliveira Aires
    Robson Oliveira Aires

    Excelente artigo. Parabéns Alexandre Garcia por trazer essas notícias para nós leitores da Revista Oeste já que a carcomida e velha imprensa não divulga esses fatos.

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