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Agentes da polícia patrulham a Favela do Vidigal, em combate a traficantes, no Rio de Janeiro (14/8/2018) | Foto: Antonio Scorza/Shutterstock
Edição 186

O Brasil não está longe da fronteira da Faixa de Gaza

Vi imagens do Hamas sobre camionetas, brandindo fuzis, e desconfiei que fossem imagens do Rio de Janeiro, em mais um bonde

Alexandre Garcia
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No Dia das Crianças, o governo israelense confirmou que houve decapitação de bebês no ataque do Hamas. Aqui no Brasil, bebês que ainda não nasceram também são mortos. Segundo a OMS, há cerca de 1 milhão de abortos por ano no país. A então presidente do Supremo votou por não considerar crime matar quem ainda não tenha 12 semanas desde a concepção. Neste dia 12, também se comemora a Padroeira do Brasil, que, segundo o Novo Testamento, foi fecundada por Deus e protegeu seu ventre até o nascimento, em Belém. Segundo as escrituras, o rei Herodes, temeroso pelo nascimento desse futuro rei, mandou degolar todos os bebês da região, como o Hamas fez no Shabat. Quando vi as primeiras imagens do ataque do Hamas a Israel, com corpos de pessoas mortas na calçada, na parada de ônibus, pensei que fossem de um quiosque da Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca. Muito semelhantes às imagens que havia visto dos corpos dos médicos baleados no chão — um ainda na cadeira onde estava sentado enquanto vivia. Depois vi imagens do Hamas sobre camionetas, brandindo fuzis, e desconfiei que fossem imagens do Rio de Janeiro, em mais um bonde. Os fuzis são dos mesmos fabricantes, os mesmos modelos. Chegam ao Rio e à Faixa de Gaza com a mesma facilidade. Lá e cá, a morte chegou pelo mesmo motivo: “foram mortos porque estavam ali”. No Rio, a bala perdida agora é acrescida de outra causa: “foi por engano”.

O objetivo do Hamas é a eliminação de Israel. É um extremismo que gerou muita violência nos últimos 70 anos. No Rio de Janeiro, no mesmo período, o crime foi avançando sem reação das autoridades e da população. Hoje, o bandido está armado e tem santuários — territórios que não reconhecem o Estado brasileiro. 

Acompanhei isso pelos últimos 50 anos e foi fácil prever que os traficantes acabariam por manter a população refém. Os meios de informação de massa nunca fizeram campanha contra o consumo de drogas que sustenta o crime

A favela do Alemão é vista através de um buraco nos blocos de cimento que cercam uma instalação policial, usados como proteção contra as balas dos traficantes, no Rio de Janeiro (8/3/2018) | Foto: Antonio Scorza/Shutterstock

Israel tentou mais de uma vez neutralizar o Hamas — e o Hezbollah ao norte —, mas encontrou barreira nos políticos e em movimentos internacionais apoiados por Irã, Rússia, China e semelhantes. No Rio, políticos também contribuíram para o crescimento das facções; a população em geral não apoia a polícia, e a mídia não se mobiliza contra o crime e a favor da lei. O Rio assistiu passivamente ao crescimento das organizações criminosas. Acompanhei isso pelos últimos 50 anos e foi fácil prever que os traficantes acabariam por manter a população refém. Os meios de informação de massa nunca fizeram campanha contra o consumo de drogas que sustenta o crime.

Israel mobilizou todas as suas forças para que o Hamas não tenha condições de atacar de novo. No Brasil, o governo federal mostra hoje que tem potencial de agir, com poderoso equipamento repressivo, na Amazônia. Contra brasileiros da Vila Renascer, assentados pelo Incra há mais de 30 anos. Pequenos criadores e plantadores de cacau, eles são enxotados, feridos em sua dignidade, porque estariam na “reserva” Apyterewa, em São Félix do Xingu, no Pará, onde não havia índio até que criassem o território para abrigar os indígenas desalojados pela hidrelétrica de Belo Monte.

Forças policiais ocupam o território da Terra Indígena Apyterewa, no Pará (28/9/2023) | Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil

O governo restringe o direito de defesa das pessoas que possuem armas legais. Todos constatamos a incapacidade do Estado de cumprir o que está no artigo 144 da Constituição: “A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio”. O Estado brasileiro convive com territórios liberados pelo crime, não há campanhas sólidas, baseadas no fato de que drogas destroem os cérebros, os corpos e as famílias e enfraquecem a nação, além de sustentarem as facções criminosas. 

Recém comemoramos o aniversário da Constituição e das palavras do doutor Ulysses: “O documento da liberdade, da dignidade, da democracia, da justiça social”. Impossível liberdade, dignidade, democracia, justiça social com medo e sem garantia de direitos básicos, como a vida, a incolumidade pessoal e patrimonial. O Brasil não está longe da fronteira da Faixa de Gaza.

Leia também “A toga de César”

8 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Alexandre Garcia, estamos tão próximos da Faixa de Gaza que em muitas cidades brasileiras médias e grandes existem comunidades com essa denominação.
    Me atrevo a dizer que a situação atual do Rio de Janeiro começou a ser alavancada com a eleição de Leonel Brizola para o governo do Estado em 1982, depois de anistiado em 1979.
    Apoiado pelos bicheiros da época, Capitão Guimarães, Castor de Andrade, etc, evoluiu para o estágio atual graças à inércia do poder público possibilitando ao crime organizado ser detentor de um Estado paralelo.
    A disputa foi com Moreira Franco (o Angorá da Operação Lava Jato) que gerou o escândalo Proconsult durante a apuração do pleito.
    Esperar alguma ação do Estado onde a “justiça” liberta traficantes e devolve bens como helicópteros, lanchas, mansões, carros de luxo, etc é o mesmo que acreditar que Alexandre de Moraes é defensor da democracia.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Irã, Russia e China passam pano para terroristas como o Hamas, assim como aqui no Brasil, Edson Fachin passa pano para criminosos em favelas, como fez na pandemia proibindo operações policiais.

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    O povo brasileiro deve arranjar um jeito pra se livre desse terrorismo à brasileira

  4. Omar Fernandes Aly
    Omar Fernandes Aly

    Isso que está acontecendo em São Félix do Xingu é um escândalo, uma crueldade e uma injustiça contra o povo brasileiro.

  5. Idílio Mariani Júnior
    Idílio Mariani Júnior

    Infelizmente a questão dessa região, extrapola todo o racional, o ódio impera. Para um lado morrer é prêmio. Para esse mesmo lado, exterminar o outro é parte de seu estatuto e motivo para o qual vivem e para isso não há limites, viraram animais irracionais a ponto de degolar bebês. Isso é prova do ódio e da irracionalidade. Infelizmente para acabar com isso um terá que exterminar o outro, infelizmente. No Brasil, sem a real vontade do estado, que mais protege o criminoso que a população de bem, tudo tende a piorar como piorou em décadas. Ou o estado parte de fato para o confronto, sabendo dos riscos aos inocentes feitos de escudos humanos, ou a escalada de destruição moral e social só aumentará. Estamos reféns de um estado inoperante! Tudo parece proposital, para implantar o caos pois, no caos os maus se criam.

  6. MNJM
    MNJM

    Perfeito Alexandre. Com a política de insegurança pública do desgoverno a tendência é piorar.

    1. Alcione Magalhães Ferreira
      Alcione Magalhães Ferreira

      Parabéns Alexandre Garcia.Aqui também parabenizo a todos os jornalistas da Oeste ,com os quais me identifico,comungo o mesmo pensamento e degusto com grande satisfação seus artigos.Vcs são o oasis em meio a um jornalismo que o deixou de ser.Nossa gratidão (creio que posso usar no plural) por nos informar,alentar e vivenciar conosco tanta desolação.

  7. Ulisses Sampaio Colares
    Ulisses Sampaio Colares

    O Brasil não parece com a faixa de Gaza. Já somos a faixa de Gaza há muito tempo e segue piorando. Moro em Ubajara distante 320 km de Fortaleza, mais de 3000 km de Brasilia. Mês passado uma gangue de traficantes de drogas fez um arrastão no distrito de Jaburuna e obrigou todos os comerciantes a fecharem as portas. Detahe: o prefeito é do PT

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