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Foto: Shutterstock
Edição 197

2023: a glória do bitcoin

E mais: os impostos de Haddad e a dívida dos brasileiros

Carlo Cauti
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Para o bitcoin, 2023 será um ano de glória. A principal criptomoeda do mundo saiu de uma cotação de US$ 16 mil no começo do ano para perto de US$ 45 mil no final de dezembro. Quem comprou a moeda digital naquela época já quase triplicou o investimento. 

Não há um fator específico que explique essa alta. Muitos especialistas apontam a possível aprovação iminente dos fundos de índice (ETF), com exposição direta ao bitcoin nos Estados Unidos. 

A Securities and Exchange Commission (SEC), equivalente nos Estados Unidos à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) brasileira, também estaria reduzindo a intensidade da investida contra o bitcoin e as criptomoedas. O que tem levado muitos analistas a cogitarem uma normalização desse mercado. 

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O preço da desconfiança no governo Lula

A dívida pública federal não para de crescer: chegou aos R$ 6,325 trilhões em novembro. Na comparação com o mês de outubro, a alta foi de 2,48%. 

O custo médio do estoque da dívida pública federal acumulada em 12 meses foi de 10,65% no mês passado. Mas para as novas emissões os compradores exigem juros mais altos, de 11,7% ao ano. Evidente sinal de desconfiança com o governo Lula. Errados não estão, já que o governo aumentou em 20% os gastos no último mês, enquanto a receita só subiu 2%. 

Outro sinal dessa desconfiança é o recuo no prazo médio de vencimento dos títulos brasileiros para 4,04 anos. Em outubro esse prazo era de 4,09 anos. 

O Tesouro Nacional se prepara para eventuais turbulências dos mercados, que aumentariam o colchão de liquidez para pagamento da dívida pública, elevado para 11,43% em novembro, a R$ 908,9 bilhões. O montante é suficiente para quitar 8,34 meses de vencimentos de títulos — em outubro, estava em 8,7 meses.

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Haddad encontra sindicatos e tira férias

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, estará de férias de 2 a 12 de janeiro. A autorização para o descanso do ministro foi publicada no Diário Oficial da União (DOU). 

Não antes de ter uma última reunião com os sindicatos. Desta vez Haddad encontrou o presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Sindifisco Nacional), Isac Moreno Falcão Santos.

Participaram do encontro Thales Freitas Alves, representante do Sindicato Nacional dos Analistas Tributários da Receita Federal do Brasil (Sindireceita); Anderson Akahoshi Novaes, presidente da Mesa Diretora do Conselho de Delegados Sindicais e representante do Sindifisco Nacional; e Fabiano Gonçalves Rebelo, diretor de Estudos Técnicos e representante do Sindireceita.

A reunião só foi anunciada pelo Ministério da Fazenda depois de feita.

Fernando Haddad
Em coletiva de imprensa, Fernando Haddad anunciou medidas para aumentar a arrecadação e compensar gastos em 2024 | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
E aumenta os impostos

Mas o ministro da Fazenda não poderia deixar Brasília sem desejar um “próspero ano-novo” aos brasileiros, com um novo aumento de impostos. 

Em coletiva realizada na manhã da última quinta-feira, 28, Haddad anunciou a reoneração da folha de pagamentos, que vai custar aos bolsos de empresários e trabalhadores brasileiros entre R$ 6 bilhões e R$ 12 bilhões.

Outros R$ 6 bilhões vão entrar nos cofres públicos via revisão do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse). O programa foi criado em 2021 para socorrer o setor em meio à paralisação causada pela pandemia de covid-19. 

Por último, uma limitação de 30% para os créditos tributários das empresas. Agora, quem tiver R$ 100 para receber do governo só poderá obter R$ 30 a cada ano. São mais R$ 45 bilhões saindo da economia real e indo direto para a máquina estatal.

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Mesmo com a guerra, Intel investe em Israel

A Intel confirmou um investimento de US$ 25 bilhões (R$ 122,29 bilhões) em Israel, mesmo em um momento de forte tensão geopolítica no país e com um conflito em andamento em Gaza. 

O governo israelense garantiu para a fabricante de processadores US$ 3,2 bilhões (cerca de R$ 15,65 bilhões) em incentivos. O investimento servirá para expandir a fabricação de wafers para chips da companhia no seu parque em Kiryat Gat, ao sul de Tel Aviv. 

As obras de ampliação da empresa, que tem 11,7 mil funcionários em Israel, estão em andamento. O Ministério das Finanças de Israel disse que o investimento é o maior já feito por qualquer empresa no país.

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A Petrobras voltou?

Em mensagem de fim de ano aos funcionários, o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, usou tons enfáticos. “A Petrobras voltou”, disse o ex-senador petista. Segundo ele, a estatal seguirá avançando em 2024 “com equilíbrio” em seu planejamento. 

No mesmo dia da mensagem de Prates, a Petrobras iniciou a perfuração de um poço na Bacia Potiguar, no litoral do Rio Grande do Norte. Esse será o primeiro de 16 poços que a petrolífera planeja perfurar na margem equatorial até 2026. 

Prates chegou a postar em suas redes sociais fotos submarinas do momento da perfuração. 

Voltou para a África 

Com certeza, se a Petrobras voltou a algum lugar, foi à África. 

O conselho de administração aprovou nova atuação da empresa em São Tomé e Príncipe, a primeira no continente após a Operação Lava Jato. Está prevista a aquisição de poços petrolíferos junto com a Shell, para a exploração de novas fronteiras. 

A Petrobras voltou também ao modus operandi dos velhos tempos, já que o valor da operação não foi divulgado. 

Logo da Petrobras | Foto: Daniel Marenco/ GPC
Petrobras | Foto: Daniel Marenco/GPC
Marina não gostou

No dia seguinte, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, concedeu uma longa entrevista ao Financial Times em que salientou a necessidade de o Brasil criar um teto para a exploração e produção de petróleo. 

O Ministério de Minas e Energia estabeleceu a meta de aumentar a produção de 3 milhões de barris por dia, registrada no ano passado, para 5,4 milhões até o final da década. Isso tornaria o Brasil o quarto maior produtor mundial do combustível. A exploração da margem equatorial, por sinal, será fundamental para alcançar esse resultado.

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Ano-novo cheio de dívidas

Para muitos brasileiros, 2024 será mais um ano de luta contra o endividamento. 

A cada dez cidadãos, quatro vão chegar ao Réveillon em meio a dívidas. O mesmo dado do ano passado, segundo a pesquisa “Expectativas 2024”, conduzida pela Hibou, empresa de pesquisa e insights de mercado, comportamento e consumo. 

O tamanho dos débitos varia muito. Cerca de 22% dos endividados têm no vermelho uma conta superior a R$ 15 mil; 27% devem entre R$ 5 mil e R$ 15 mil; e 30% têm dívidas de R$ 2 mil a R$ 5 mil. 

Apesar disso, o brasileiro se mostra otimista para 2024, prevendo um ano melhor, com esperança, prosperidade, conquistas e realizações. 

Para outros 50% da população, o novo ano começa com as contas em dia. E somente 9% dos brasileiros vão comemorar com dinheiro sobrando.

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Latam voa alto

A Latam lidera os céus brasileiros: dominou 40% do mercado doméstico e 24% do mercado internacional em 2023. 

Os dados foram divulgados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e mostram que a empresa opera a maior malha aérea da sua história no Brasil, com voos para mais de 50 aeroportos do país. 

Além disso, a companhia aérea é a que mais transporta turistas ao Brasil, com voos próprios a partir de 90 aeroportos no exterior. Para 2024, a previsão é de crescimento de 7% a 9%.

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Geração flocos de neve

Uma pesquisa da Vittude, empresa healthtech referência no desenvolvimento de programas de saúde mental para empresas, confirmou: a chamada geração Z, que engloba os nascidos entre 1998 e 2010, é a mais ansiosa, estressada e deprimida entre as gerações hoje atuantes no mercado de trabalho. 

O estudo, que coletou respostas de mais de 24 mil pessoas, mostrou que, entre os jovens da geração Z, cerca de 27% afirmaram ter ansiedade, 36% têm estresse, e outros 27% têm depressão.

No caso dos baby boomers (nascidos entre 1943 e 1962), a ansiedade é de apenas 5% e o estresse é de 7,5%. Na geração X (nascidos entre 1963 e 1982), a depressão chega a 9%.

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Foto: Reprodução/Pixabay
Brasileiro inova na mineração ‘sustentável’ de bitcoin 

Em momentos de alta da cotação do bitcoin, como o atual, muita gente pensa em entrar na indústria da “mineração”. Minerar bitcoin significa criar novas criptomoedas através da resolução de algoritmos cada vez mais complexos, dentro da rede blockchain do criptoativo, elaborados pelo inventor do bitcoin, o misterioso Satoshi Nakamoto. É uma mineração virtual: os computadores resolvem os problemas matemáticos e os investidores recebem um bitcoin. O problema é que “minerar” bitcoin se tornou uma atividade muito criticada, pois necessita de quantidades de energia cada vez maiores.

O empresário brasileiro Rudá Pellini, de 30 anos, afirma que, no caso da sua empresa, isso não é verdade. Há quase sete anos, ele fundou com seus sócios, nos Estados Unidos, a Arthur Inc. É uma mineradora de criptomoedas que usa energia de fontes alternativas. “Procuramos locais onde há um excesso de produção energética que seria desperdiçada, jogada fora, e instalamos nossas plantas de mineração”, explica Pellini. “Geramos valor daquilo que seria desperdiçado. Isso aumenta a eficiência energética do planeta como um todo.” 

Hoje, a Arthur Inc tem capacidade de mineração de 28 megawatts e opera nos estados norte-americanos de Wyoming e Ohio. Com a tecnologia que vem desenvolvendo, a empresa consegue diminuir drasticamente a emissão de carbono em 94%. 

O próximo passo é vir para o Brasil, que Pellini considera “um potencial paraíso para os mineradores de criptoativos”. Entretanto, o país ainda apresenta desafios a serem superados. Confira os melhores trechos da entrevista:

Como surgiu a ideia?

O maior problema para a mineração de criptoativos sempre foi a questão energética. No passado, vimos mineradoras de cripto indo a locais remotos da China à procura de energia barata, advinda de centrais a carvão. Acabaram expulsas de lá. Depois foram para a Rússia, de onde também saíram por causa de tensões geopolíticas. Foram até o Cazaquistão, mas a instabilidade do país em 2022 interrompeu o negócio. Teve gente também que foi para o Paraguai, mas descobriu que a corrupção por lá é um problema muito mais sério do que imaginava. Era preciso encontrar uma solução.

Como vocês conseguiram operacionalizar o negócio?

Nos Estados Unidos a energia se tornou muito mais barata do que no passado, graças a uma série de inovações tecnológicas e mudanças regulatórias. Há cidades e povoados onde sobra energia, e eles não sabem literalmente o que fazer com ela. Por isso, acabam jogando fora. Nossa ideia sempre foi deixar o ecossistema de criptoativos mais eficiente. Criamos uma sociedade em 2017 e levantamos US$ 200 mil na época. O negócio começou a crescer e, em 2021, levantamos US$ 2 milhões. Em 2023, conseguimos outros US$ 4,7 milhões. Hoje, a empresa tem um valor centenas de vezes superior.

Como funciona a operação da Arthur Inc?

Utilizamos data centers em contêineres equipados com supercomputadores próprios, chamados ASICs. Cada um consome cerca de 2 megawatts. Para se ter uma ideia, é o mesmo consumo de um shopping center. Posicionamos esses data centers nos locais onde a energia está sobrando. Ou também em campos de petróleo, onde o gás metano que sobra do processo de extração é desperdiçado. Em vez disso, usamos esse gás como fonte energética, evitando que seja lançado ao meio ambiente. Geramos valor, que depois é repassado em parte para as comunidades locais ou para as empresas parceiras. 

Você é brasileiro. Pensa em trazer a operação da Arthur Inc para cá?

Estamos pensando em vir para o Brasil. A maior dificuldade é o imposto de importação para os supercomputadores. Mas estamos encontrando o caminho para nacionalizar o produto em escala. Um segundo ponto é a questão da energia. No Brasil, a energia sempre foi muito mais cara do que em outros países. Mas nos últimos dois anos esse preço vem caindo, graças a um excedente de água e a grandes investimentos em geração de energia renovável. Agora estamos abrindo as comportas dos reservatórios e jogando água fora. Nós poderíamos evitar esse desperdício. Além disso, durante o governo Bolsonaro, a base de produção de energias renováveis foi ampliada graças a uma série de incentivos. Sem contar o biometano de aterros sanitários, que está crescendo muito. Hoje temos uma abundância de energia no Brasil, mas desperdiçamos cerca de 36% da produção energética total do país. O custo do megawatt passou de R$ 500 há três anos para R$ 69 agora. O Brasil pode se tornar um paraíso para os mineradores de criptoativos. 

O Nordeste brasileiro seria atrativo, com a possibilidade de gerar renda e emprego na Região?

Sim. O Nordeste tem um excedente grande de energia, mas também outros problemas: insegurança jurídica, baixa capacitação da mão de obra e presença do crime organizado. São desafios diferentes dos que estamos acostumados a encontrar nos Estados Unidos. 

Vocês iniciaram as operações com o bitcoin em baixa. Depois vivenciaram a valorização durante a pandemia. Em seguida veio uma nova queda abrupta e agora uma nova alta. Como lidam com essa elevada volatilidade?

Mantendo baixo nosso custo operacional. Mesmo quando o bitcoin estava nas cotações mínimas, a gente conseguia obter lucro. Não é fácil, mas até quando as cotações estavam em US$ 16 mil conseguimos nos manter e ampliar o time, que hoje é de cerca de 45 funcionários. É uma luta pela eficiência, e estamos ganhando a batalha.

Leia também “A batalha do cigarro eletrônico”

4 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Interessante o investimento da Intel em Israel.

  2. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Geração Z é a de.mente fraca, dependente de.psicotrópicos. não é a toa que estámos no século.da decadência moral, afetiva, familiar, espiritual e científica.

  3. Carlos Eduardo F. Rezende
    Carlos Eduardo F. Rezende

    Ótima entrevista sobre o Bitcoin Carlo, parabéns.

  4. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Não acredito em nenhum percentual de aumento da economia em 2023 no Brasil, só acredito em trevas

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