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A defesa das virtudes vitorianas

Os vitorianos nem sempre conseguiam cumprir aquele código moral, mas nem por isso eles desdenhavam ou desprezavam tais princípios como metas desejáveis

Em 1995, Gertrude Himmelfarb publicou The De-Moralization of Society, um livro que tentava resgatar a importância dos valores morais da era vitoriana. A historiadora norte-americana começa lembrando que o debate sobre valores morais pode parecer antigo, mas foi Margaret Thatcher quem o trouxe à tona para a política recentemente.

Em sua campanha de 1983, um entrevistador perguntou se ela aprovava os “valores vitorianos”, e Thatcher disse que sim, que foram exatamente esses valores que fizeram da Inglaterra uma grande nação. Em outra ocasião, ela alegou ter sido criada por uma avó que lhe incutiu justamente tais valores.

A ideia britânica de “valores vitorianos” é similar à ideia norte-americana de “valores familiares”, mas mais abrangente, pois inclui a noção de trabalho duro, parcimônia, respeito próprio, boa vizinhança e patriotismo. Nos Estados Unidos, o debate sobre “valores familiares” acabou mais limitado por girar em torno de questões como aborto, ilegitimidade e homossexualidade.

No Reino Unido, antes mesmo de a rainha Vitória chegar ao poder, a “reforma moral” estava em vigor, em boa parte pelo evangelicalismo, com o auxílio do metodismo. Foram esses grupos religiosos que lutaram pelo fim do tráfico de escravos e, depois, da escravidão. E os avanços na dignidade humana não pararam por aí.

Virtudes aristotélicas adaptadas não só para a saúde do indivíduo, mas para o bem-estar de toda a sociedade

Grupos seculares também participaram do esforço que levou à aprovação de medidas para limitar horas de trabalho nas minas, reformas sanitárias, educação pública, reformas penais e amenidades cívicas, como iluminação de vias, bibliotecas, parques etc. Foi esse arcabouço que produziu o que ficou conhecido depois como “valores vitorianos”, que se estendiam às classes média e operária.

À medida que a religiosidade foi se arrefecendo, tais valores acabaram absorvidos pelos seculares, adquirindo uma santidade independente de sua origem religiosa. Essa “reforma moral” iniciada no fim do século 18 atingiria seu ápice frutífero no fim do século 19. A avó de Thatcher já não falaria dessas coisas como “valores”, mas apenas como “virtudes”.

Tais virtudes englobavam aquelas clássicas, destacadas já por Aristóteles, como a sabedoria, a justiça, a temperança e a coragem, associadas a prudência, magnanimidade e gentileza. Os vitorianos, na era da burguesia, adaptaram tais virtudes e insistiram em sua relevância não só para a saúde do indivíduo, mas para o bem-estar da sociedade como um todo.

No decorrer do século 20, porém, como aponta Himmelfarb, as virtudes passaram a ser relativizadas e deixaram de ser virtudes, passando a “valores”, cada vez mais subjetivos. Essa transmutação, para a historiadora, foi a grande revolução filosófica da modernidade. Para ela, foi o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) o grande responsável por essa revolução, degradando as virtudes e, assim, desvalorizando-as, para criar um código de valores para o seu “homem novo”.

Valores, como entendemos hoje, não precisam ser virtudes; podem ser crenças pessoais, opiniões

Ao falar em valores, ressalta-se a ideia de que são relativos e subjetivos, que são como meras convenções e costumes, puramente instrumentais, com fins utilitários. Para Himmelfarb, quando a moralidade era alicerçada pela linguagem da “virtude” ela era mais firme, tinha um caráter mais resoluto. Falar em virtude já trazia um senso de gravidade e de autoridade, algo que “valor” não é capaz de fazer. Valores, como entendemos hoje, não precisam ser virtudes; afinal, podem ser crenças pessoais, opiniões, atitudes ou sentimentos.

Atualmente, estão tão enraizadas no vocabulário popular ideias como “livre de valor”, “não julgamento” ou “imparcial” que fica clara a transfiguração de virtude em algo bem mais elástico e neutro, uma espécie de “vale-tudo” moral. As virtudes vitorianas não eram isso, tampouco eram as virtudes clássicas ou cristãs: elas eram mais domesticadas e mais seculares, mas eram virtudes.

Os padrões eram rigorosos, mesmo que nem sempre atendidos. Havia hipocrisia, sem dúvida, mas todos entendiam o que deveria ser seguido, qual era a régua moral. Essas virtudes eram aquilo a que os vitorianos aspiravam, mesmo sabendo que não seriam capazes de atingi-las em sua plenitude.

Os vitorianos não consideravam uma virtude insignificante manter as aparências, as maneiras e a boa conduta mesmo quando violavam algum princípio moral, pois dessa forma ao menos estavam afirmando a legitimidade do mesmo princípio. Isso já é algo bem diferente do que fazem os modernos, ao rejeitar os princípios em si. Ou seja, os vitorianos nem sempre conseguiam cumprir aquele código de princípios, mas nem por isso eles desdenhavam ou desprezavam tais princípios como metas desejáveis.

O efeito prático da aplicação das virtudes vitorianas: o surgimento de uma “sociedade respeitável”

Os adversários de tais virtudes e princípios passaram a atacá-los com base no argumento de que não passavam de formas de “controle social”, especialmente porque a classe média se tornou o grande sustentáculo dessas virtudes burguesas. Até porque essas virtudes incluíam, além dos valores já mencionados, aspectos mais práticos, como pontualidade, regularidade e conformidade, consideradas como “ética de trabalho”. Essa “ética de trabalho” é que foi fundamental para o advento e o sucesso do capitalismo.

Os “valores vitorianos”, como já disse, englobavam não só a classe média como a classe operária. Perto do final do século, esta era mais puritana do que aquela, que passou a se tornar mais relaxada e permissiva. Mas esses valores influenciaram a todos. Para os homens, significava ter um emprego, por mais baixo que fosse o salário, e não viver bêbado; para as mulheres, significava administrar um lar limpo, ordenado e organizado; para as crianças, era sinal de obediência na casa e na escola, e necessidade de contribuir para as tarefas domésticas e para a renda familiar, quando possível.

É nesse ponto que os “valores vitorianos” e os “valores familiares” se cruzam e se fundem. E seu efeito para a sociedade era evidente: o surgimento de uma “sociedade respeitável” pode ser medido pela queda da criminalidade, da violência, da taxa de alcoolismo, e também pela redução da ilegitimidade paternal e da crescente estabilidade da família. Um dos grandes problemas sociais da era moderna, a família monoparental, com mãe divorciada ou nunca casada, não era um problema sério na Inglaterra vitoriana.

E, mesmo com divisões mais claras de classes, a Inglaterra daquela época tinha como denominador comum, que unia todas as classes, essa ideia de respeitabilidade, uma virtude comum a que todos pagavam tributo. As classes trabalhadoras aspiravam às mesmas virtudes das demais classes, e isso dava um senso de que todos compartilhavam da mesma natureza humana e de um mesmo direito político e civil.

Ao “moralizar” a ideia do gentleman, a era vitoriana a democratizou, estendendo-a às classes média e operária

Um cavalheiro poderia estar em qualquer classe, revelado por sua postura mais do que por seus títulos. O filósofo e teórico político irlandês Edmund Burke (1729-1797) disse que um rei pode criar um nobre, mas não um cavalheiro. Eis uma definição boa do perfil: um verdadeiro cavalheiro é um homem verdadeiramente nobre, um homem digno de comando, um homem desinteressado e íntegro, capaz de se expor, até mesmo se sacrificar por aqueles que lidera; não apenas um homem de honra, mas um homem consciencioso, em quem os instintos generosos foram confirmados pelo pensamento correto e que, agindo corretamente por natureza, age ainda mais corretamente a partir de bons princípios.

O gentleman inglês, portanto, pode ser identificado por suas virtudes morais: integridade, honestidade, generosidade, coragem, graça, educação, consideração pelos outros. Ao “moralizar” a ideia do gentleman, a era vitoriana também a democratizou, estendendo-a às classes média e, eventualmente, até mesmo operária.

Ao atribuir a todos as mesmas virtudes, pelo menos potencialmente, já que temos a mesma natureza humana, os vitorianos permitiram que se falasse em “virtudes democráticas”, num ambiente de maior igualdade. São virtudes apropriadas a uma sociedade liberal também, ao enaltecer o ordinário, o homem comum capaz de agir como um cavalheiro, produzindo assim um ethos que transferia a responsabilidade ao indivíduo. Burke era capaz de entender a importância disso:

As boas maneiras são mais importantes do que as leis. Delas, em grande medida, dependem as leis. A lei nos toca, mas aqui e ali, e de vez em quando. Os modos são o que irrita ou acalma, corrompe ou purifica, exalta ou rebaixa, barbariza ou nos refina, por uma operação constante, firme, uniforme, insensível, como a do ar que inspiramos. Elas dão toda a sua forma e cor à nossa vida.

São essas as lições vitorianas que Himmelfarb tentou resgatar numa era de imoralidade e “revolução sexual”, que ameaçava a família e, assim, o indivíduo. Para ela, a lição final que devemos aprender com os vitorianos é que o ethos da sociedade, seu caráter moral e espiritual, não pode ser reduzido à economia, ao material, aos aspectos políticos. E que os valores — ou melhor, as virtudes — são um fator determinante. Não são um reflexo da classe econômica, como queriam os marxistas, mas os agentes cruciais que vão moldar essas realidades.

Hoje, confrontando-nos com uma sociedade “desmoralizada”, necessitamos de uma nova reforma para restaurar não tanto os valores vitorianos, mas um senso mais abrangente de virtudes cívicas e morais.

Leia também “Conservadorismo contra os radicalismos” e “O suicídio da Europa”, artigos de Bruno Garschagen

 

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53 comments

  1. Belo relato, Constantino.

    Esta é a visão do conservadorismo: as virtudes. Aquilo que se mostrou eficaz, prático, edificante, comprovadamente importante para todos, não importando classe social, poder econômico ou qualquer outra classificação, sendo preservado e aperfeiçoado, geração após geração.

    Como cristão, de uma família tradicional que valoriza estas virtudes, me emociona ver, que aquilo que Jesus Cristo veio trazer à humanidade, se concretizou na sociedade ocidental, produzindo tantos bons frutos.

    É importante trazer, ao conhecimento dos que vivem os dias de hoje, a verdade daquilo que traz o verdadeiro progresso, paz social, desenvolvimento.

    A falácia dos invejosos, teóricos do caos, que geração após geração, ao por em prática suas teorias, contradizendo tais virtudes, deturpando-as e destruindo-as, se mostram anti-humanidade, anti-verdade, anti-vida, ao serem comparadas, na prática, com tais virtudes, mostrando quão ineficazes, incapazes, inócuas e destrutivas são.

    Nesta luta constante contra a destruição da família, dos princípios cristãos, daquilo que verdadeiramente responde aos mais profundos anseios do ser humano, ou seja, liberdade, paz, tranquilidade, segurança, a lembrança de tais fatos históricos precisam ser contados, ensinados, praticados e vividos, mesmo que sejam muitas vezes mal exemplificados pela nossa incapacidade e limitações humanas.

    Parabéns, Constantino.

    Bem-vindo à “tropa”!

    Grande abraço.

      1. Rodrigo Constantino , mais um bom motivo para ler e assinar a Oeste

      2. Parabéns Constantino, ótimo vê-lo na Revista Oeste.Faz uma reflexão profunda dos valores morais em nossa sociedade carente de princípios reais .A família hoje é estigmatizada e criticada,o vale tudo tomou conta,valores invertidos.Triste realidade.Obrigada pela aula e conhecimento histórico.Seja bem vindo!!!

      1. Bem-vindo, RC. Feliz por ampliar as possibilidades de ler seus textos!

      1. Parabéns Constantino, obrigada pela excelente aula!!!

      1. Lendo seu artigo fiquei refletindo: será que a civilização chegou ao seu apogeu e agora vivemos sua queda? Quero estar enganada.
        Bem vindo Constantino.
        Excelente estréia.

      2. Rodrigo Constantino veio para somar neste timaço da Revista Oeste.

      1. Realmente me surpreendeu . Conhecia o Constantino dos textos curtos do Twitter , dos comentários de rádio .
        Não conhecia seus dotes como estudioso , filósofo , professor .
        Parabéns

      2. ???? Concordo com sua posição e conceitos sobre o Constantino!

  2. Fantástico este texto para vermos o quão importante é a luta pelo Conservadorismo.
    Que alegria ter Constantino agora também comonparte da Revista Oeste.
    Bem vindo.

  3. A revista nos brinda com mais um jornalista cuja leitura agrega valor aos assinantes. Acompanho Constantino há algum tempo e estou relendo “A esquerda caviar” que é um ótimo livro. Muito bom tê-ló agora na revista.

  4. Parabéns por escolher um veículo de comunicação que tem um time de alto nível. Aliás, só para recuerdos entre um leitor do sertão e um colunista inteligente lembro que tempos atrás, por e-mail, disse que tu não conseguiria ficar muito tempo naquele jornal dominical do sul… eh eh eh… lembra?

  5. Cada dia mais me convenço de que assinar a Revista Oeste foi uma das melhoras coisas que fiz neste ano.
    Ainda mais agora, com a chegada do Rodrigo Constantino, abrilhantando ainda mais o timaço de colunistas.
    Ouço-o diariamente na Jovem Pan e você é quem salva o 3 em 1, que na verdade deveria chamar-se 2 contra 1; você duela estoicamente com aqueles dois lá… . Uma piada…
    Seja muito bem-vindo e parabéns pelo excelente artigo de estreia !

  6. Brilhante texto, enaltecendo os valores reais do conservadorismo. Seja bem vindo, Rodrigo Constantino, a essa grande revista que tanto nos honra com grandes jornalistas e colunistas, que fazem uma analise perfeita sobre a conjuntura política e social.

  7. Bah Constantino, trocar um almanaque de esquerda pela Oeste foi a grande sacada! Estas no lugar que tu mereces e tens os leitores que os leitores que merecem teu brilhantismo e lucidez. Obrigada pela volta triunfal. Belissimo texto.

  8. Gostava do conteúdo da Revista antes de assiná-lo. Ao saber do ingresso do Constantino, vi quem são os que compõem a revista com ele. Meu Deus! Assinei sem pestanejar.

  9. Belo texto Constantino! Parabéns, é muito bom ver tais ideias ganhando cada vez mais espaço para enfrentar o lama moral onde nos encontramos nos últimos tempos.

  10. O Brasil, mais do que nunca, precisa mudar de rumo com urgência. Tem que sair dessa promiscuidade de décadas na economia, na educação, na cultura, na política, na comunicação de massa e em tudo o mais que direciona as pessoas ao convívio em coletividade. Urge-se de exemplos e atitudes virtuosos de seus líderes políticos, religiosos, educadores…de maneira que a família tradicional e conservadora seja reconstruída seguindo uma direção também cristã. O homem sem Deus no coração e sem amor à pátria torna-se uma pedra, não tem sentimentos.

  11. Leio Constantino desde qdo escrevia (ele) n’O Globo. Para mim, ele é aquele cara que escreve o que vc está pensando. Fez-me assinar a Oeste.

  12. Muito bom texto, Rodrigo. Acompanhei você por uma década no Twitter, mas abandonei a plataforma recentemente, depois que surgiu a Oeste. Foi aqui que eu realmente “Encontrei o meu lugar na casa”. Tenho um livro seu, “Esquerda Caviar”, adquirido há seis anos. Sempre fui seu admirador, pois seus posicionamentos confirmam a maior parte de minhas convicções. Seja muito bem-vindo por aqui.

  13. O Hino Riograndense, conhecido e cantado por nós gaúchos, diz: “povo que não tem virtude, acaba por ser escravo”. Teu texto diz tudo, e mais um pouco. Obrigada por fundamentar o conceito de virtude.

  14. Constantino é espetacular, debate com vários opositores no mesmo programa e consegue dar um nó nos argumentos incendiários e provocadores do péssimo jornalismo que infelizmente impera nos meios de comunicação. Demonstra sua imparcialidade na divulgação dos fatos e não inventa. Condena atitudes equivocadas de nossos governantes como também as elogia reconhecendo méritos na equipe e no titular. Ao contrário, seus debatedores continuam com os mesmos comentários usados nas campanhas eleitorais, nitidamente demonstrando que tiveram outra opção de voto. Querem sempre cobrar deste governo aquilo que seus candidatos adversários propunham. Quando dizem que o presidente tem que governar para todos os brasileiros, têm que entender que é para os brasileiros e demais povos que aqui vivem honestamente, e que prezam os costumes civilizados do trabalho e convivência social, pelo respeito às famílias, às religiões, a Lei e a Ordem. Só isto, mas dão um trabalho danado ao grande Constantino.
    Parabéns Constantino por estar nesta excelente equipe da revista oeste, que o mestre Guzzo me proporcionou conhecer.

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