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Fernando Haddad, ministro da Fazenda e o presidente Lula | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Fernando Haddad, ministro da Fazenda, e presidente Lula | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Edição 275

O Congresso humilha o governo

Lula sofre derrota devastadora ao tentar aumentar impostos para cobrir o descontrole nas contas e vê o abandono dos deputados, que estão pensando nas eleições de 2026

Na quarta-feira, 25, por volta das 20 horas, um comentário uniu praticamente todos os deputados que estavam no plenário da Câmara, sobretudo o chamado centrão: “O governo Lula acabou”. Minutos antes, os parlamentares impediram mais uma tentativa de aumentar os impostos para sanar a gastança desenfreada da gestão Lula da Silva. O placar marcou 383 votos contra 98, a derrota mais humilhante desde que o PT voltou ao poder.

O placar marcou 383 votos contra 98, a derrota mais humilhante desde que o PT voltou ao poder | Foto: Reprodução/TV Câmara

Não é preciso ser analista político, porque a aritmética básica mostra a dimensão do terremoto: o governo Lula não conseguiu juntar cem votos, o que retrata o desamparo dentro das próprias bancadas de esquerda, que somam 130. A maioria dos integrantes das bancadas do PSB e do PDT votou contra o governo; o restante não apareceu para votar, ainda que isso significasse simplesmente apertar um botão no celular de onde estivesse — a votação pode ser remota. No caso do PDT, a mágoa com Lula está escancarada por causa da demissão do dono do partido, Carlos Lupi, no escândalo do INSS.

Resumindo o que aconteceu no plenário: o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que buscava um socorro de R$ 10 bilhões do IOF, foi rifado ao vivo. O Senado referendou a decisão na sequência em votação simbólica.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobe a estimativa de gastos para R$ 20,7 bilhões | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Fernando Haddad, ministro da Fazenda | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O problema da gestão Lula 3 está longe do campo ideológico. O chamado centrão, aquele que assegura argamassa para qualquer votação e elege o presidente da Casa há uma década, não topou o pacote de taxas de Haddad — o ministro ainda tirou férias em meio ao caos, o que irritou vários congressistas que abriram mão da semana de festas de São João. O centrão deixou de ser um apelido pejorativo em Brasília, sinônimo de fisiologismo. De fato, é um amontoado de partidos que dá as cartas no Congresso, portanto, abocanha ministérios e estatais. Ocorre que essa equação política sempre foi uma moeda de troca do governo por votos. Mas algo mudou — e isso é comentado em todos os corredores e nos grupos de parlamentares no WhatsApp. Nem os bilhões em emendas parlamentares seduzem mais os gabinetes. Por quê?

Os deputados afirmam que a insatisfação com Lula é visível nos festejos juninos de São João, no Nordeste, em todos os eventos no centro-sul e agora até no cancelamento de um evento do MST por “falta de povo”, como o próprio petista definiu. Além de não ter um único tijolo para inaugurar pelo país, Lula não tem mais palanque aliado para discursar depois das eleições municipais: o PT elegeu 252 prefeitos num universo de 5.570 municípios, sendo um único em capital (Fortaleza); o Psol não ganhou em nenhum lugar. Quem fará campanha para Lula se ele optar pela reeleição no ano que vem? Nessa fase do calendário, um ano antes do início da campanha eleitoral, o instinto de sobrevivência pesa para os políticos que vão às urnas.

Não é mais novidade em Brasília que pelo menos dois partidos, o PP e o União Brasil, estão prontos para desembarcar da Esplanada dos Ministérios. Essa decisão já foi dita publicamente pelo presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e pelo vice-presidente do União, ACM Neto (BA), em entrevistas recentes. É provável que o PSD, de Gilberto Kassab, e o Republicanos, liderado pela Igreja Universal do Reino de Deus, sigam a mesma trilha até abril, a primeira grande data eleitoral de 2026 — para filiações e afastamento de cargos públicos.

PP e União, aliás, estão prestes a formar uma federação — espécie de casamento para cumprir cláusulas eleitorais, com duração de quatro anos. Quando isso for oficializado, será a maior força política do país: 20% do atual Congresso, seis governadores, 1,4 mil prefeitos e 12 mil vereadores. Detalhe: terão R$ 1 bilhão de fundo eleitoral para gastar na campanha. 

“Eu defenderei que nenhum membro ocupe cargos no governo Lula”, disse ACM Neto. “Com o passar do tempo e com a aproximação da eleição de 2026, não faz sentido, tendo em vista que nós não estaremos na aliança do PT e da provável candidatura à reeleição de Lula. Não faz sentido ocupar cargos no governo se o projeto político é oposto a esse.” Ciro Nogueira segue a mesma linha: “Podem vir com 50 ministérios, que não estaremos com Lula no palanque”.

O União chefia as pastas do Turismo e das Comunicações e, informalmente, a de Integração Nacional — o ministro Waldez Góes está em processo de filiação e foi indicado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (AP). Já o PP deve retirar André Fufuquinha do Ministério do Esporte.

É verdade que o Congresso até aceitou as pautas econômicas de Haddad nos dois primeiros anos de mandato. Como o vento virou, nos próximos meses Lula ainda terá o revés da Medida Provisória para taxar as Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA) a partir de 2026. A MP vai caducar e perder a validade até o prazo máximo de 120 dias, sem o aval da Câmara.

A responsável pela articulação política de Lula é a ministra Gleisi Hoffmann, que a exemplo do antecessor, Alexandre Padilha, não consegue negociar. Os deputados com perfil mais técnico afirmam que a petista não resiste a dez minutos de conversa sem esbravejar. Tanto ela quanto Fernando Haddad optam por se comunicar pelas redes sociais. Na quarta-feira, em vez de tentar sentar à mesa com os líderes, ela fez uma longa postagem sobre o IOF, que foi recebida em tom de ameaça: “As emendas parlamentares também serão afetadas pela derrubada do decreto”.

Gleisi Hoffmann, ministra de Relações Institucionais, e presidente Lula | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

No dia seguinte à surra no plenário, Fernando Haddad afirmou em entrevista à Folha de S. Paulo que “não sabe o que aconteceu” e que pretende acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) contra o Congresso. Ele disse que “acordou na quarta-feira com uma ligação da Gleisi, com o tuíte [da ministra]” avisando do risco de derrota. Os repórteres do jornal perguntam se ele tentou telefonar para o presidente da Câmara. Haddad responde: Não, ué. Ele falou com a ministra da Secretaria de Relações Institucionais e disse que aquela decisão era irreversível. Eu respeitei, falei ‘tá bem’”. Em seguida, os jornalistas insistem sobre “a impressão de que ele está isolado e fala sozinho”. O petista responde: “Eu estou com Lindbergh Farias [líder do PT] do meu lado, estou com a Gleisi do meu lado”.

A votação desta semana expôs a incapacidade de Lula de governar sem a interferência dos amigos de toga no jogo político.

Em Brasília, há décadas uma coleção de frases históricas é usada para descrever o Congresso Nacional. Ulysses Guimarães dizia: “Se você criticar o atual Congresso, o próximo será pior”. O ex-senador Darcy Ribeiro afirmava que o Senado “é como o céu [em alusão ao carpete azul], mas a diferença é que não é preciso morrer para chegar a ele”. Hoje em dia, o país tem Hugo Motta comandando a Câmara dos Deputados, e nem uma linha seria necessária para explicar a imagem abaixo.

Motta é o terceiro na linha sucessória da República — depois do presidente e do vice. Ele deixou-se fotografar bebendo uísque no gargalo, como jovens se exibem em baladas noturnas, durante festejos de São João na cidade de Patos, no sertão da Paraíba, seu reduto eleitoral. O município fica a 300 quilômetros de João Pessoa, tem 100 mil habitantes e é administrado pela sua família. O pai, Nabor Wanderley, é o prefeito. Os avós maternos e paternos são políticos, numa espécie de dinastia que manda na cidade — como em novelas de TV, quando duas famílias se revezam no poder, algo típico no Nordeste brasileiro.

Nesta semana do São João, com exceção da votação de quarta-feira, realizada majoritariamente de forma remota pelos parlamentares, o Congresso permaneceu às moscas: plenários das comissões vazias, assessores em férias e, como sempre ocorre nesse período do ano, é possível notar pequenas obras em azulejos, bancadas e faxina mais pesada. Não é exagero afirmar que os corredores contabilizam mais enceradeiras e aspiradores de pó do que políticos. Essa época do ano sempre foi marcada pelo sumiço dos parlamentares, que emendam as festas juninas com o recesso — que começa oficialmente só em 18 de julho, mas até lá eles votam pelo celular.

No Senado, a coisa ficou pior nos últimos anos: é raro encontrar um parlamentar na Casa. Desde a gestão de Rodrigo Pacheco, foi fechado um acordo que prevê apenas nove sessões de votação mensais, sempre às terças e quartas-feiras, depois das 16 horas, podendo se estender, eventualmente, para a manhã de quinta-feira. E o restante da semana? A presença em Brasília não é mais obrigatória. Mais um detalhe: como alguns senadores que não usam jatos particulares ainda acharam a carga pesada, por causa do deslocamento em aviões de carreira, a última semana do mês também é facultativa — eles podem votar pelo celular.

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9 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    A República precisa ser proclamada porque foi apenas anunciada por Deodoro da Fonseca que não aceitou a indicação de Dom Pedro II para Silveira Martins para ser Primeiro Ministro do Império por terem disputado o amor da mesma mulher quando ambos atuavam no Rio Grande do Sul.
    Em quase 136 anos de República o país produziu uma ópera bufa, com resultados catastróficos em setores importantes como infraestrutura, saúde, educação e tecnologia.
    Em um comparativo simples: Há 60 anos a Coreia do Sul tinha metade da renda per capita brasileira. Hoje ostenta quase 5 vezes a renda per capita dos brasileiros. Milagre? Não, apenas planejamento e decisões que alavancam a economia do país.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Silvio Navarro sempre antenado nos bastidores políticos, do oásis de Brasília. A cidade criada no meio do nada, onde os ”poderosos” consomem nosso dinheiro entre si, e sem contato com o povo real.
    Muito bom ler seus artigos.

  3. INDIOMAR SELAU
    INDIOMAR SELAU

    Oeste, vamos focar mais no que realmente é importante: o que o presidente da câmara coloca ou não coloca em votação. Criticar o cara por ter tomado um gole de bebida em uma festa é o tipo crítica de baixo nível que a esquerda usa. Espero de vocês uma análise que eleve o civismo brasileiro.

    1. Valdy Fernandes da Silva
      Valdy Fernandes da Silva

      Concordo. Também não é preciso valorizar o “cara” por essa votação em caráter de urgência sobre o IOF. Vamos cobrar, por exemplo, o passa moleque sobre a urgência do projeto de anistia, que ele simplesmente ignorou.

    2. Julio José Pinto Eira Velha
      Julio José Pinto Eira Velha

      Uma das exigências à deputados, é decoro, e essa atitude do moleque Hugo Motta não demonstra qualquer seriedade.

  4. Andre mendonça
    Andre mendonça

    Não se iludam. O interesse nacional não foi a causa da derrota dos cupins encastelados na administração do país. A maioria votou em causa própria, e o deles está garantido.

  5. Denis R.
    Denis R.

    O ministro diz que “não sabe o que aconteceu”… o pior é que deve ser VERDADE! rsrs

    1. Fernando Lopes
      Fernando Lopes

      Se o Haddad precisa de R$ 10bilhoes para equilibrar as contas, porque nao judicializa o perdão da multa da JBS? Era exatamente R$ 10bilhões….

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