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Donald Trump e os jogadores do Chelsea, com o troféu de campeão mundial | Foto: Reuters/Amanda Perobelli
Edição 278

A Copa de Trump

Com o sucesso do Mundial de Clubes, o presidente dos EUA busca tornar a Copa do Mundo de 2026 a mais rentável de todos os tempos e mostrar seu desejo de integração

Donald Trump colocou-se ao lado dos jogadores do Chelsea no momento em que eles ergueram o troféu de campeão mundial. O presidente estava radiante. Lembrou os tempos da New York Military Academy, quando mostrava seus dotes esportivos e já apreciava o futebol, em uma época em que esse esporte ainda era pouco conhecido pelos norte-americanos.

O gesto de permanecer no palco, segurando o troféu, ao lado do capitão Reece James, chamou atenção por quebrar o protocolo. Mas também mostrou uma grande dose de envolvimento. No palco, Trump quis participar porque, ao seu estilo, sentia-se no direito de comemorar aquele feito.

Donald Trump quebra o protocolo ao subir no palco com o Chelsea e segurar o troféu ao lado do capitão Reece James, mostrando envolvimento direto com o sucesso do mundial | Foto: Reuters/Hannah Mckay

Se não foi campeão dentro de campo, o presidente teve papel fundamental ao contribuir para o sucesso do primeiro Mundial de Clubes da Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa), realizado nos Estados Unidos (EUA) entre junho e julho de 2025. 

Gianni Infantino, presidente da Fifa, até que tentou tirá-lo do palco. Mas logo percebeu que Trump tinha suas razões. Com seu entusiasmo, ele ajuda a garantir que a Copa do Mundo de 2026, entre 11 de junho e 19 de julho, será um evento ainda maior.

A escolha dos EUA como uma das sedes, junto com México e Canadá, ocorreu no primeiro mandato de Trump, em junho de 2018. O Mundial de Clubes foi um aperitivo do que está por vir. A próxima Copa do Mundo deverá quebrar todos os recordes de receita.

Pela primeira vez, o torneio terá três sedes e 48 seleções. Os EUA receberão 78 das 104 partidas, em 12 arenas espalhadas por 11 cidades. Cinco dessas arenas já foram usadas na Copa de Clubes. Para o Mundial, porém, as cifras serão muito maiores.

O Mundial de Clubes gerou US$ 2 bilhões em receita. A Copa do Mundo de seleções deve gerar pelo menos US$ 10,4 bilhões, um aumento de mais de 65% em relação à Copa do Catar, em 2022. No ciclo entre 2022 e 2026, somando Copa do Mundo feminina, Mundial de Futsal e outros eventos, a Fifa projeta receita de US$ 13 bilhões, vindos de direitos de transmissão, marketing, licenciamento, bilheteria e hospedagens, entre outros.

A Copa de 2026 deve gerar até US$ 30,5 bilhões para a economia norte-americana, com a criação de 185 mil empregos e a chegada de cerca de 6,5 milhões de torcedores aos EUA. Tudo indica que será o maior evento turístico já registrado no país.

Notícias sobre desentendimentos entre Trump e a Fifa foram desmentidas. O governo dos EUA e a entidade do futebol estão mais alinhados do que nunca. Muito mais, por exemplo, do que na ocasião em que agentes do FBI prenderam dirigentes da entidade, no escândalo chamado Fifagate. 

Agora o panorama é outro. A Fifa abriu um escritório em Nova York, dentro da Trump Tower, o que é simbólico e importante para os preparativos da Copa. Tem na Flórida, também, um escritório de representação jurídica.

Em março, Trump instalou uma força-tarefa presidencial para coordenar a organização da Copa. Ele, na verdade, fará o papel de presidente do que se entende por Comitê Organizador, já que, desta vez, não haverá um centralizado. 

Cada cidade-sede conta com seus próprios comitês organizadores, encarregados da gestão do estádio, da infraestrutura, da mobilidade urbana e da hospedagem. Os comitês trabalham em coordenação com o governo federal e a Fifa, como entidades independentes e descentralizadas.

Fã de Pelé

Um humilde Trump aceitou todas as condições colocadas pela Fifa, incluindo a garantia de entrada irrestrita para seleções, delegações técnicas, oficiais e torcedores. Restrições migratórias, como as contra cidadãos do Irã, da Venezuela e do Sudão, não serão aplicadas durante o evento, segundo a Casa Branca.

As paralisações de jogos por questões climáticas, como as que ocorreram no Mundial de Clubes, serão revistas. A Fifa já negocia mudanças nos protocolos, especialmente para as regiões mais quentes do leste e do sul dos EUA.

Disputas comerciais entre os EUA e os outros anfitriões, México e Canadá, também não devem afetar a participação de fãs e seleções. 

Todas essas movimentações mostram que o futebol tem sido uma forma de Trump desmitificar sua imagem de autoritário e desagregador.

O presidente norte-americano valoriza o “soccer“, termo que deseja substituir por “football” nos EUA. Ele é fã de Pelé, a quem chama de “o maior de todos os tempos”. Trata o futebol como um esporte tão importante quanto os que consolidaram o país como potência esportiva.

Nos anos 1970, quando já era conhecido nos meios empresariais, ele acompanhou com admiração a iniciativa dos irmãos Ahmet e Nesuhi Ertegun, da Atlantic Records, e do empresário Steve Ross, da Warner Communications, para popularizar o futebol nos EUA. 

Os investidores combinaram recursos da música e do entretenimento para criar o New York Cosmos, clube icônico que atraiu grandes estrelas internacionais, como Franz Beckenbauer, Carlos Alberto Torres e o próprio Pelé.

Trump nunca se esqueceu daqueles momentos históricos. Em 2011, foi ele quem quase se tornou o novo dono do NY Cosmos. A marca, depois de um tempo afastada, reerguia-se para participar da North American Soccer League (NASL), transformada na segunda divisão da Major League Soccer (MLS).

Ele sentia nostalgia em relação aos anos 1970, quando a NASL era a primeira divisão (1968-1984) de um esporte que tentava mostrar seu encanto em campos ainda demarcados para o futebol americano. Foi um momento confuso, mas aberto a novidades.

No discurso em que anunciou sua intenção de dirigir o Cosmos, Trump fez críticas à gestão da MLS, como a ausência de livros de registros e falta de planejamento.

“Mais de US$ 1 bilhão foram desperdiçados, os estádios construídos fora das áreas urbanas, o dinheiro gasto com marketing que não deu resultado, e regras inventadas para tornar o esporte mais ‘norte-americano’ que afastaram o torcedor tradicional.”

O presidente acabou não adquirindo o Cosmos. E a NASL durou apenas entre 2011 e 2017. Mas, certamente, o peso de suas críticas ajudaram a impulsionar a MLS, que se modernizou e hoje conta com astros como Messi.

Ativo político

Desde então, a paixão do presidente pelo futebol só aumentou. Trump tem uma bola exposta na Casa Branca e recebeu da Fifa o troféu original do Mundial de Clubes como homenagem. No pódio, foi erguida uma réplica.

Por isso ele fez questão de estar na premiação. Mas a presença de autoridades na entrega de prêmios não é nova: em 1966, a rainha Elizabeth II entregou o troféu a Bobby Moore, capitão da Inglaterra. Em 1994, o vice-presidente dos EUA, Al Gore, entregou o título ao capitão do tetra, Dunga. Em 2006, o italiano Fabio Cannavaro recebeu o troféu do presidente da Alemanha, Horst Köhler.

Um entusiasmado Emmanuel Macron, presidente da França, participou da cerimônia de premiação da Copa de 2018, na Rússia, ao lado dos presidentes Vladimir Putin (Rússia) e Kolinda Grabar-Kitarović (Croácia). A França vibrava com o seu segundo título mundial, conquistado em um jogo contra a seleção croata.

A empolgação de Trump, no entanto, tem algo diferente. Ele transformou a próxima Copa do Mundo em um ativo político e pessoal. A meta é deixar seu nome marcado na história do futebol mundial. A parceria com a Fifa, uma entidade que aglutina mais países do que a Organização das Nações Unidas (ONU), só o ajuda nesse objetivo. Infantino afirmou que questões políticas não vão interferir no torneio.

Trump vê a próxima Copa do Mundo como um ativo político e pessoal, buscando marcar seu nome na história do futebol mundial com apoio da Fifa e acima de disputas ideológicas | Foto: Reuters/Nathan Howard

As sanções contra a Rússia, proibida de participar, foram definidas por países e associações e atendidas pela Fifa. Nenhuma nação se opôs à presença de Israel, que lutou por sua sobrevivência e, depois de enfrentar ameaças nucleares do Irã, também contribuiu para a segurança de outros países da região. Até o Irã, que sofre sanções econômicas e não segue as diretrizes da Agência Internacional de Energia Atômica, não será proibido de jogar.

Trump resumiu sua visão em uma entrevista depois da final. “O jogo é sobre união”, ressaltou à plataforma de esportes DAZN. “Pode realmente unir o mundo.” O êxito da Copa de Trump será mais um triunfo do presidente em seu desejo de recolocar os EUA como protagonista no cenário mundial. E ajudar a mudar sua imagem de isolacionista. Quem sabe isso não o leve mesmo a um Nobel da Paz, conforme propôs o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu? Seria outro troféu que Trump ergueria com todo o prazer.

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1 comentário
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Excelente artigo. Obrigado Eugenio.
    Acompanho a MLS e realmente vem se desenvolvendo.

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