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Lula posa como defensor da soberania, mas entrega dados à China, foge do Congresso e recorre ao STF para impor sua agenda — patriotismo seletivo com alto custo ao Brasil | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Lula posa como defensor da soberania, mas entrega dados à China, foge do Congresso e recorre ao STF para impor sua agenda — patriotismo seletivo com alto custo ao Brasil | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Edição 278

Patriotismo de ocasião

O discurso petista desmorona diante do histórico do partido

Em 2018, o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro crescia com discursos patrióticos e críticas ao Partido dos Trabalhadores (PT). Chamava Fernando Haddad de “poste” de Lula, que estava preso à época. Do outro lado, os ataques contra Bolsonaro seguiam o padrão: “machista”, “homofóbico”, “fascista”. Na reta final do segundo turno, o PT tomou uma decisão curiosa. Conhecido historicamente pelo vermelho, o partido começou a mudar a identidade visual da campanha de Haddad. O verde, o amarelo e o azul da bandeira brasileira foram incorporados de última hora, numa tentativa de explorar símbolos nacionais que até então o partido desprezara.

Campanha presidencial de 2018 da chapa Fernando Haddad (PT) e Manuela D’Ávila (PCdoB) | Foto: Reprodução

Agora o PT repete o script. Durante todo o governo Bolsonaro, o patriotismo foi ridicularizado. O slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” foi comparado ao integralismo e até ao fascismo italiano. O uso da bandeira nacional e da camisa da seleção passou a ser tratado como sinal de “bolsonarismo”. Chegou-se a cogitar uma camisa vermelha da seleção — que ainda circula pela internet.

Bastou uma crise diplomática com os Estados Unidos para que a esquerda redescobrisse a palavra “soberania”. Tudo começou no embate entre o governo Lula e Elon Musk, depois de o empresário criticar decisões do STF e denunciar a censura no Brasil. Parlamentares americanos reagiram, acusando o país de reprimir opositores e controlar plataformas digitais. A resposta do governo foi a campanha “O Brasil é dos brasileiros”, criada pelo marqueteiro Sidônio Palmeira — que virou meme antes de convencer alguém.

O estopim foram as ameaças tarifárias feitas por Donald Trump, que depois se concretizaram em uma taxa de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos EUA. A partir disso, o PT se sentiu à vontade para acusar o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) de conspirar em solo americano contra o governo Lula, atuando em nome dos interesses da própria família. A narrativa foi endossada pelo próprio presidente em um discurso em Linhares (ES), no dia 11 de julho.

O discurso petista de “soberania” desmorona diante do histórico do partido. Lula e seus aliados já ignoraram — ou violaram — esse princípio em várias ocasiões. Desde parcerias tecnológicas com a China que envolviam a entrega de dados sensíveis até o financiamento bilionário de obras em países ditatoriais que deram calote no Brasil, o que se vê é uma longa trajetória de submissão externa disfarçada de diplomacia.

O discurso petista de ‘soberania’ perde força diante do histórico do partido, marcado por concessões estratégicas à China e financiamento a ditaduras inadimplentes sob o pretexto de diplomacia | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Amnésia por conveniência

A esquerda acusa Eduardo Bolsonaro de articular um “lobby” político internacional para proteger o pai de uma eventual prisão. Porém, parece ter convenientemente esquecido de sua própria trajetória, marcada por intensa campanha internacional em defesa de Lula durante o período em que ele esteve preso. Desde a condenação, o partido construiu a ideia de que Lula era vítima de lawfare — perseguição judicial com viés político. O objetivo era claro: tirá-lo da posição de réu e colocá-lo no papel de mártir da democracia. Para isso, o PT mobilizou ONGs internacionais, juristas aliados, entidades multilaterais e lideranças estrangeiras, num esforço coordenado de alcance global.

Entre 2018 e 2021, o PT levou o caso de Lula para instâncias como o Comitê de Direitos Humanos da ONU, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, a Anistia Internacional e o Parlamento Europeu. As peças repetiam o argumento de que Lula havia sido condenado sem provas, de que houve parcialidade do juiz Sergio Moro e de que sua prisão violava tratados internacionais. O partido queria transformar a imagem de Lula em um ícone global da resistência à “onda conservadora” na América Latina.

Figuras do partido, como Gleisi Hoffmann, fizeram discursos no exterior denunciando o sistema de Justiça brasileiro. Em 2018, Gleisi chegou a gravar um vídeo para a emissora de TV Al Jazeera pedindo apoio do mundo árabe à libertação de Lula e dizendo que ele era um preso político. A fala gerou forte repercussão e foi criticada até por parlamentares brasileiros, que acusaram o PT de “internacionalizar uma crise interna” e expor o país.

Além das denúncias formais, houve forte mobilização política e simbólica: caravanas internacionais, manifestos assinados por artistas e políticos estrangeiros, e campanhas com slogans como “Lula livre” em vários idiomas. A prisão de Lula virou produto de exportação política — usado como ferramenta de coesão interna do partido e de ataque à legitimidade das instituições brasileiras no exterior.

Quando o STF anulou as condenações da Lava Jato, em 2021, por motivos processuais — sem julgar o mérito dos casos —, o PT tratou a decisão como se fosse absolvição plena. A narrativa foi vendida como uma “vitória histórica da democracia”, mesmo sem nenhuma declaração de inocência nos autos.

Hoje, o contraste é evidente: o grupo que passou anos denunciando perseguição judicial agora usa o sistema para silenciar opositores, pressiona por regulação das redes sociais e mantém articulação direta com ministros do STF e do TSE. A retórica virou estratégia — e quem se dizia perseguido hoje ocupa o centro do jogo político e institucional.

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Depois de tratar a anulação das condenações da Lava Jato como absolvição, o PT agora atua no centro do sistema que antes criticava, pressionando por controle das redes e mantendo laços estreitos com STF e TSE | Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF

Negócio da China

Desde que voltou ao poder, Lula reforçou os laços com a China sob o discurso de soberania e cooperação entre países do Sul Global. Mas os bastidores revelam outra realidade: o Brasil aprofundou sua dependência econômica, tecnológica e digital de uma potência que age — o que é lógico e natural — conforme seus próprios interesses estratégicos. Entre 2023 e 2025, foram assinados mais de 90 acordos abrangendo desde agronegócio e energia até inteligência artificial, infraestrutura digital e moeda.

No setor industrial, empresas chinesas como BYD e GWM tomaram conta do mercado de carros elétricos no Brasil. Em paralelo, vieram fábricas de painéis solares, baterias, semicondutores — quase sempre com isenções fiscais, incentivos públicos e pouca exigência de produção nacional. O discurso de reindustrialização ficou subordinado à entrada do capital estrangeiro.

O ponto mais sensível está na área de dados. O governo brasileiro entregou à Huawei — alvo de alertas globais por risco de espionagem — a parceria para construir a infraestrutura nacional de inteligência artificial, por meio da estatal Dataprev. Isso inclui data centers públicos, sistemas de análise e plataformas de integração de dados estatais. 

Parte significativa das informações dos brasileiros, do CPF ao prontuário médico, ficará armazenada e será operada com tecnologia estrangeira. Além disso, Brasil e China firmaram um acordo de swap cambial direto que ultrapassa US$ 150 bilhões, fortalecendo a presença do yuan na região e ampliando a influência monetária de Pequim. O mesmo governo que fala em “desdolarização” está, na prática, transferindo dependência de uma potência para outra.

Em visita ao país asiático, Lula pediu ao líder do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, para enviar ao Brasil uma ‘pessoa de confiança’ para discutir a questão digital; parlamentares temem a censura | Foto: Ricardo Stuckert/PR
Enquanto prega ‘soberania’ e ‘desdolarização’, o governo entrega dados sensíveis à tecnologia chinesa e fortalece o yuan com acordos bilionários, trocando uma dependência por outra | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Na saúde, os centros de produção de vacinas e insulina firmados com a China também dependem de tecnologia 100% chinesa, com promessas de transferência que seguem vagas. No campo cultural, houve alinhamento entre as estatais de comunicação dos dois países — e, em visita oficial à China, o governo Lula chegou a cogitar que um agente chinês viesse ao Brasil para “ajudar” no monitoramento de redes sociais, alegando que a direita ocupa espaço demais nesses ambientes.

O que se vê não é apenas cooperação: é uma entrega silenciosa de soberania à China em áreas-chave. Dados, moeda, comunicação e até o debate público estão sendo moldados aos poucos por um parceiro com histórico marcado por controle estatal, censura e vigilância.

O Brasil só perde

Nos governos petistas, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) virou instrumento de política externa. Sob o pretexto de “internacionalizar empresas brasileiras”, o banco financiou obras bilionárias em países ideologicamente alinhados ao Planalto, enquanto o Brasil enfrentava gargalos estruturais em casa. O resultado foi um rastro de calotes, obras inacabadas e prejuízo direto ao contribuinte.

Entre 2003 e 2016, mais de R$ 10 bilhões foram liberados para financiar infraestrutura em Cuba, Venezuela, Moçambique, Angola, Equador e outros. Os contratos foram feitos com juros subsidiados e, em muitos casos, cláusulas sigilosas. A obra mais conhecida foi o Porto de Mariel, em Cuba, bancado com recursos do BNDES e executado pela Odebrecht. Cuba deu o calote: até hoje não pagou o que deve. A dívida entrou na conta do Tesouro Nacional, que precisou cobrir o prejuízo.

Entre 2003 e 2016, o governo brasileiro financiou mais de R$ 10 bilhões em obras no exterior, como o Porto de Mariel, em Cuba, que deu calote e deixou o prejuízo para o Tesouro Nacional | Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Na Venezuela, a história se repetiu. O metrô de Caracas recebeu um financiamento bilionário, mas, em 2018, o regime chavista deu calote e deixou uma dívida de mais de R$ 3 bilhões. Em Moçambique, os projetos da hidrelétrica de Moamba Major estão paralisados, e o Aeroporto de Nacala é considerado “fantasma”. Os pagamentos ao governo brasileiro foram suspensos. No Equador, a usina San Francisco virou crise diplomática: depois de falhas estruturais, o governo acusou a Odebrecht de irregularidades e se recusou a pagar a dívida.

Além dos projetos beneficiarem países com governos aliados ao PT, com baixa ou nenhuma garantia de retorno, as empreiteiras envolvidas — Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez — estavam no centro do escândalo da Lava Jato. O financiamento externo serviu tanto para alimentar laços políticos quanto para sustentar o esquema de corrupção que marcaria uma era.

Enquanto o Brasil acumulava obras públicas abandonadas, estradas precárias e falta de saneamento básico em regiões inteiras, bilhões eram enviados para fora. Parte desse dinheiro simplesmente não voltará. A diplomacia petista apostou alto com o dinheiro dos outros, e quem perdeu foi o Brasil.

O desespero do governo

Em abril, com o acirramento da crise diplomática com os Estados Unidos e as ameaças de sanções ao Judiciário brasileiro, o governo Lula ressuscitou um velho artifício: o apelo patriótico. Sob o slogan “o Brasil é dos brasileiros”, vídeos institucionais passaram a exibir bandeiras tremulando, frases de efeito e uma exaltação emotiva de programas como o Bolsa Família. Na prática, o nacionalismo lulista funciona mais como maquiagem do que como política pública eficaz.

O estopim do patriotismo de palanque veio em julho. Depois que o presidente Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos EUA, a campanha institucional ganhou fôlego — e agressividade. Frases como “no Brasil, quem manda é a gente” tomaram as redes sociais, marcando um tom de confronto direto com Washington.

Enquanto isso, o governo seguia tentando empurrar medidas impopulares ao cidadão comum. Como se a carga tributária brasileira já não fosse suficiente, em junho Lula tentou aprovar o aumento do IOF sobre compras internacionais, uso de cartões no exterior e outras operações financeiras. A proposta que visava a arrecadar R$ 61,5 bilhões foi rejeitada pelo Congresso, inclusive com resistência de partidos da base. O episódio marcou uma das derrotas políticas mais explícitas da atual gestão. Porém, o aumento do imposto foi mantido pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Depois de o aumento do IOF ser barrado pelo Congresso, o governo Lula arregou e correu para o STF na tentativa de ressuscitar a proposta, empurrando para o Judiciário o que não conseguiu aprovar na política | Foto: Antonio Augusto/STF

No mesmo período, veio o golpe silencioso: o Bolsa Família passou a ser incluído no cálculo da renda familiar para acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC). Na prática, milhares de idosos e pessoas com deficiência correm o risco de perder o benefício ou ter o valor reduzido. Um ajuste fiscal travestido de “reestruturação”, que atinge justamente os mais vulneráveis — e a base social do próprio governo.

Outro exemplo é a isenção na conta de luz para beneficiários do CadÚnico, apresentada como medida de “justiça social”. Mas a decisão pode gerar desequilíbrios no sistema tarifário, pressionar o setor elétrico e alimentar a inflação, penalizando, mais uma vez, quem vive na ponta.

O discurso patriótico, nesse contexto, não passa de cortina de fumaça. Trata-se de um nacionalismo de conveniência, embalado em peças publicitárias grandiosas, mas sustentado por decisões que pesam no bolso do brasileiro. Lula pode discursar sobre um “Brasil soberano” em rede nacional, mas segue entregando vantagens estratégicas à China por alinhamento ideológico, sem exigir, em contrapartida, o pagamento das dívidas bilionárias que regimes aliados deixaram nos cofres públicos.

Qualquer cidadão que conheça minimamente a trajetória do PT sabe que a “defesa da soberania” é seletiva. O incômodo só aparece quando a interferência vem de quem o partido não gosta. Não há protesto contra a presença crescente de interesses chineses no país, nem preocupação real com os impactos de um agravamento na relação com os Estados Unidos.

Entre bravatas nacionalistas e acordos ideológicos, sobra a conta para o povo brasileiro pagar, seja na política, seja na economia.

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4 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Bota esses dois no xadrez, Lula e Alexandre

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Não sabia dessa história da Huawei já ter autorização para essas implantações. Perigoso isso. Cabe até um artigo somente sobre.

  3. Sandra A. Hipolito
    Sandra A. Hipolito

    É quando vejo RATINHO, num corte ou reportagem dizer que votou 2x no LLADRÃO, vejo que o poder de falcatrua convencimento tô do Lula foi grande e, hoje reduzido, não mais consegue convencer tanto a ponto de mudar as cores vermelha e , arrumar mais dinheiro e pagar órgão de pesquisa pra que possam dizer que Lula está a frente. Ainda temos a FARIA LIMA , que ainda não 4ntendeu ou já acordou além claro a massa de manobra( índio , pobre , negro de cota , gay e agora qual será a narrativa 20 anos tirando o tal pobre da miséria e ainda continuamos sem saneamento básico e próximo comer pele de frango . Achatado a tal classe média SOBRA O TAL RICO ( onde na narrativa do Lula 4ke se enquadra) e os miseráveis , só sobreviverão ou sai os que as milícias ( lideradas pelo stf) permitem , poucos saíram distraído com futebol, show na praia , Carnaval e a briga das BET’s, antigo jogo do bicho entre a droga e as apostas.

O ministro do STF, Alexandre de Moraes, e o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, em Brasília Anterior:
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