publicidade
Dr. Friedrich Ritter (à esquerda) e Dore Strauch (à direita) sentados em sua casa ao ar livre "Friedo", na Ilha Floreana (também conhecida como Ilha de Santa Maria ou Ilha Charles), nas Ilhas Galápagos, Equador, 1932 | Foto: Reprodução
Edição 280

Imagem da Semana: o mistério de Galápagos

Em 1934, a inóspita Floreana foi palco de um escândalo internacional de sexo, ganância e morte

Em 1934, um grande mistério aconteceu nas Ilhas Galápagos, muito antes de se tornarem sinônimo de ecoturismo. Conspiração e morte perseguiram três famílias de imigrantes que tentaram se estabelecer no selvagem e vulcânico arquipélago.

Inicialmente, de um lado estava o médico berlinense Friedrich Ritter e sua amante Dore Strauch. Atraídos por uma Galápagos agreste e, em grande parte inabitável, o casal deixou tudo para trás e construiu seu singelo acampamento em Floreana, em 1929. Antes disso a ilha havia abrigado uma colônia penal de curta duração apenas. Na Alemanha, Doutor Ritter havia se apaixonado pela sua paciente, Dore Strauch, professora com esclerose múltipla que compartilhava seu ceticismo em relação aos valores modernos, seu anseio por algo mais simples e o amor pelo filósofo Nietzsche. Ritter, preocupado com a possibilidade de emergências odontológicas arruinarem seu exílio autoimposto, extraiu todos os dentes antes de deixar a Alemanha e os substituiu por uma dentadura de aço inoxidável. Dore, que não tinha condições financeiras para fazer o mesmo, teria compartilhado as dentaduras.

Dore Strauch e Friedrich Ritter rejeitaram a civilização capitalista ocidental em favor de uma vida mais simples nas Ilhas Galápagos | Foto: Reprodução
Dr. Friedrich Ritter (à esquerda) e Dore Strauch (à direita) sentados em sua casa ao ar livre “Friedo”, na Ilha Floreana (também conhecida como Ilha de Santa Maria ou Ilha Charles), nas Ilhas Galápagos, Equador, 1932 | Foto: Reprodução

Durante aqueles primeiros meses, eram apenas os dois, sobrevivendo no meio de uma fauna peculiar à base de Nietzsche, vegetais e areia vulcânica. Estavam completamente sozinhos. Sem vizinhos. Sem turistas. Seu estilo de vida incomum e sua perspectiva filosófica — documentados em cartas para casa e transmitidos por marinheiros curiosos — atraíram a atenção global, e logo foram apelidados de “Adão e Eva de Galápagos” pela imprensa na época. 

Três anos depois, para desgosto de Ritter, Heinz e Margret Wittmer chegaram à ilha com o filho adolescente Harry e construíram sua casa próxima do acampamento de Ritter e Strauch. Diferente dos Ritter, os Wittmers foram para a ilha movidos por preocupações práticas, como saúde, segurança e autossuficiência. Embora os dois grupos nunca tenham se tornado amigos íntimos, compartilhavam respeito mútuo, mas, em geral, mantinham suas próprias rotinas e filosofias. Margret deu à luz na ilha. Seu filho, Rolf, veio ao mundo em condições primitivas, sem qualquer suporte médico. Acredita-se que ele seja a primeira criança a nascer na inóspita Floreana.

Heinz e Margret Wittmer com seu filho mais velho, Harry, e o bebê, Rolf Hans, 1934 | Foto: Reprodução
A casa de pedra dos Wittmer, a mais elaborada da Ilha, em 1934 | Foto: Reprodução

No final de 1932, quando tudo parecia ir bem, uma austríaca chamada Eloise Wehrborn de Wagner-Bosquet desembarcou na ilha. Teatral e excêntrica, chegou acompanhada não por um, mas por dois amantes: Rudolf Lorenz e Robert Philippson. Ela logo se apresentou como “baronesa” Wagner-Bosquet, embora não existam registros que sustentem a ideia de que ela detivesse qualquer título ou nobreza. Seu jeito ardiloso e atitude imperial perturbaram a frágil paz em Floreana. Ela tentou dominar os recursos limitados de água doce na ilha, interceptou a correspondência destinada aos Ritters e Wittmers, acumulou suprimentos entregues por navios que passavam por ali e espalhou histórias falsas sobre os outros colonos aos visitantes. Ameaçou assumir formalmente o controle da ilha e dizia que o governo equatoriano lhe dera permissão para desenvolver a terra como bem entendesse — outra alegação duvidosa. Seu plano era construir um hotel de luxo chamado Hacienda Paradiso para viajantes abastados que passassem por ali.

A baronesa com seus amantes, Rudolf Lorenz e Robert Philippson | Foto: Reprodução
Eloise Wehrborn de Wagner-Bosquet, com o amante Robert Philippson | Foto: Reprodução

A baronesa trouxe consigo o caos e o paraíso começou a ficar sombrio. Com o passar dos meses, o amante Lorenz passou a se sentir cada vez mais escravizado e humilhado no triangulo amoroso. Era frequentemente sujeito a abusos verbais e a agressões físicas tanto por parte da baronesa quanto do outro amante, o Philippson.

Eloise Wehrborn de Wagner-Bosquet, se apresentou como “baronesa” Wagner-Bosquet, embora não existam registros que sustentem a ideia de que ela detivesse qualquer título ou nobreza | Foto: Reprodução

Na manhã de 27 de março de 1934, a vida em Floreana mudaria para sempre — e entraria no reino do mistério. De acordo com relatos posteriores dos Wittmers, a baronesa Eloise Wagner de Bosquet e seu amante favorito, Robert Philippson, anunciaram repentinamente que estavam deixando a ilha. Disseram ter conseguido passagem a bordo de um iate particular com destino ao Taiti. Ainda segundo os Wittmers, o casal teria pedido que cuidassem de sua casa e pertences e, então, sem alarde, desapareceram.

Mas houve problemas com a história. Primeiro, ninguém mais na ilha — nem Friedrich Ritter, nem Dore Strauch, nem mesmo os marinheiros que apareciam ocasionalmente — tinha visto ou ouvido qualquer sinal de um iate. As Ilhas Galápagos eram relativamente isoladas e a chegada de qualquer navio — especialmente um grande o suficiente para navegar até o Taiti — teria sido notada. Alguns acreditavam que a história dos Wittmers sobre o iate era apenas um disfarce. Dore Strauch, em particular, expressou profunda desconfiança, questionando por que a baronesa e Philippson não haviam levado nada consigo nem comentado da mudança com ninguém. Para Dore, parecia menos uma partida e mais um desaparecimento. Nunca mais ouviram falar dos dois. Nem no Taiti. Nem em lugar algum. Nenhum porto registrou a chegada da dupla e nenhum corpo surgiu até hoje para explicar o que aconteceu com a baronesa de Floreana e seu amante preferido.

A austríaca Eloise Wehrborn de Wagner-Bosquet: teatral e extravagante | Foto: Reprodução

Movido pela culpa ou pelo medo, Lorenz começou a organizar sua partida. Ele contratou um pescador norueguês chamado Nuggerud — que já operava em Galápagos há algum tempo — que o levaria em um pequeno barco até a Ilha de San Cristobal, a cerca de 150 quilômetros de distância, onde esperava pegar um navio de volta ao Equador continental. A dupla partiu na estação seca, sob um sol quente e um céu limpo. No entanto, eles nunca mais foram vistos depois da partida.

Então, meses depois, seu destino foi revelado de forma bem assustadora. Nas costas áridas e desabitadas da Ilha de Marchena, muito longe da rota pretendida, dois corpos mumificados foram descobertos. Era Lorenz e Nuggerud. Como eles foram parar em Marchena permanece um enigma. A ilha fica bem ao norte de San Cristobal, e teria sido necessário um grave erro de navegação — ou uma série de catástrofes — para desviá-los tanto do curso. A morte de Lorenz aprofundou o mistério do desaparecimento da baronesa.

A morte de Lorenz aprofundou o mistério do desaparecimento da baronesa | Foto: Reprodução

Como se Floreana já não tivesse testemunhado desaparecimentos e mortes estranhas o suficiente, outro mistério aconteceu antes do final do ano, desta vez envolvendo um dos colonos originais da ilha. Em novembro de 1934, apenas oito meses após a baronesa e Philippson terem desaparecido, o Dr. Friedrich Ritter, o mesmo homem que havia idealizado uma vida de exílio voluntário, vegetarianismo rigoroso e resistência inabalável, morreu em circunstâncias que deixaram mais perguntas do que respostas. A causa, oficial, foi intoxicação alimentar. A história conta que uma galinha morreu em condições duvidosas — possivelmente devido a doença, calor ou armazenamento inadequado. Apesar das preocupações de Dore Strauch, ou pelo menos é o que afirma uma versão da história, Ritter insistiu em comê-la. Para um homem que há muito tempo defendia um estilo de vida sem carne e escrevia extensivamente sobre as virtudes dos vegetais crus e da disciplina física, o desejo repentino por frango parecia fora do comum. Mesmo assim, ele se manteve inflexível. Dore afirmou ter comido a mesma refeição e sobrevivido. O que complica ainda mais a questão é o relato dos Wittmers. Eles alegaram que, durante suas últimas horas, Ritter, com dor visível, acusou Dore de envenená-lo. Se isso foi o discurso febril de um moribundo ou uma acusação final genuína, é impossível saber. Nenhuma autópsia foi realizada. Dore negou a acusação pelo resto da vida. Descreveu a morte dele como trágica, mas pacífica, e rejeitou qualquer insinuação de delito. 

Dore viveu o resto de seus dias na Alemanha, longe do calor vulcânico, em relativa obscuridade até sua morte em 2000. Ela nunca deixou de acreditar que algo sombrio havia acontecido em 1934. Escreveu um livro de memórias, “Satan Came to Eden”, no qual detalhou a vida deles na ilha e apresentou sua versão dos acontecimentos.

No final, os Wittmers resistiram. Viveram tranquilamente, criaram os filhos e abriram uma pousada em Floreana que funciona até hoje. Hoje, a ilha recebe turistas, cientistas e marinheiros de passagem, mas suas colinas vulcânicas e trilhas empoeiradas ainda carregam o peso de antigos segredos. 

Margret Wittmer (vista aqui em 1984), viveu em Floreana e morreu em 2000 aos 96 anos | Foto: Reprodução

Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.

Leia também “Imagem da Semana: fim do cangaço”

Leia mais sobre:

5 comentários
  1. RENATO
    RENATO

    Mais uma aula completa de história!
    Um privilégio poder ler essas matérias.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Curiosa história. Ótimo artigo, Daniela.

  3. ANA ROSA SOUSA DA ROCHA
    ANA ROSA SOUSA DA ROCHA

    Sensacional! Riqueza de detalhes e muita adrenalina nessa narrativa curiosa e horripilante. Parabéns, Daniela Giorno

  4. Carlos Alberto Lovatto
    Carlos Alberto Lovatto

    Impressionante como a cultura alemã cultiva utopias. Meu bisavô era vegetariano e foi para o hospital quando no Brasil pois vivia de “pão e bananas” segundo relatos.

Anterior:
Já comeu ou deu uma banana hoje?
Próximo:
O tirano do Brasil
publicidade