“Os últimos dias da banana” (The last days of the banana). Não era um filme de cinema e sim o título de um artigo de capa da revista New Scientist de 18 de janeiro de 2003 (Vol. 177, Iss. 2378). Devido a doenças e questões genéticas, o articulista previa o desaparecimento da banana em 10 anos: “The world’s favourite fruit could disappear forever in 10 years’ time.”
Nada aconteceu. Apesar das ameaçadoras profecias de terrorismos verdes e climáticos, a produção de banana e a agricultura têm tudo para crescer no Brasil e no mundo com novas variedades, tecnologias modernas e ganhos de produtividade. Banana e outros produtos só desaparecerão se o agro retornar ao Neolítico, como propõem alguns “especialistas”. Ou se os bananicultores forem extintos, como tentam na Amazônia e alhures.
A banana é a fruta mais consumida no Brasil e no planeta. A produção mundial é de 115 milhões de toneladas, em mais de 130 países. No Brasil, quarto produtor mundial, são quase 7 milhões de toneladas. Só a grande São Paulo consome 2 mil toneladas de banana por dia. Na Amazônia, ela não é apenas uma fruta. É alimento de base na dieta da população.

Para o falecido arcebispo de Teresina, D. Celso José Pinto da Silva, carioca da gema, ela era o fruto perfeito por dez razões: se cair no chão não suja, devido sua casca; é fácil de transportar; para consumir não é preciso lavar; para descascar não requer faca; a casca oferece linhas para retirada; há um pedúnculo para segurar; não solta suco, nem foge da mão; não escorre nos lábios ou entre os dedos, como manga; não tem caroço ou espinhos, nem deixa bagaços, como caju ou laranja e é do tamanho da boca. Era um bispo bem-humorado. Sobre ele, Jô Soares, outro carioca, me sugeriu: “Quando disserem vai se queixar com o bispo. O melhor é ir ter com Dom Celso”.
Exemplo da praticidade e qualidade nutritiva da banana é seu consumo por tenistas. Ela possui açúcares facilmente mobilizáveis; vitaminas A, B e C; minerais (potássio, fósforo, cálcio, magnésio…); antioxidantes; gorduras; proteínas e fibras. Seus benefícios vão da melhora do humor, à saúde cardiovascular e ao combate a câimbras. Um fruto completo, a ser dado a crianças em mingaus ou in natura até no consumo diário por idosos.
A bananeira é uma erva perene de grande porte da família das musáceas. O nome científico do gênero, Musa, vem de mauza (موز) banana em árabe. Foi escolhido por Lineu e publicado no Species plantarum. Por homonímia, homenageou Antonius Musa, médico do imperador Augusto. E evocou musas gregas, as nove divindades mitológicas da criatividade e busca pelo saber. Seu templo era o Museion. Origem de museu, local de cultivar e preservar artes e ciências. O nome científico inicial elevou-a ao Éden, como Árvore da Vida: Musa paradisíaca, hoje associado à banana-da-terra.

Apesar de suas conotações sexuais, sobretudo por seu formato fálico, a banana não faz sexo há quase dez mil anos. A banana cultivada é estéril e vem da hibridação natural de duas bananeiras selvagens (Musa acuminata e Musa balbisiana), lá no Sudeste Asiático. As duas espécies ainda possuem reprodução sexuada. Seus frutos são pequenos, com pouca polpa e grandes sementes. A nova variedade, com fruto maior, estéril, sem sementes, passou a ser cultivada por multiplicação vegetativa (mudas), até hoje.
O centro da domesticação da banana foram as terras altas da Papua-Nova Guiné, há 10 mil anos. O cultivo se espalhou até Índia, Birmânia, China, Taiwan, Austrália, Polinésia, Filipinas e Indonésia. Vestígios arqueológicos do cultivo foram encontrados na Malásia e datados de 3000 a.C., no Paquistão de 2500 a.C. e na Índia Central de 600 a.C.
Ela chegou ao Brasil no século XVI pelos portugueses, responsáveis pela difusão no mundo do nome banana, de origem bantu. Não foi um processo casual. A Coroa Portuguesa já possuía experiência consolidada em seleção e melhoramento de frutas: o processo de “educação” de plantas. A ponto de Luís de Camões evocar o melhoramento obtido no pêssego (Prunus persica L.) em Os Lusíadas, no Canto IX – Estrofe 58:
“O pomo que da pátria Pérsia veio,
Milhor tornado no terreno alheio.“
A introdução seguia etapas. Primeiro, cultivavam e observavam as bananas e outras espécies numa rede de jardins de aclimatação ou de “educação” de plantas em Goa na Índia e nas ilhas do Atlântico: Madeira, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe. As melhores mudas, mais produtivas e sadias, sem pragas e doenças existentes nas terras de origem, foram trazidas ao Brasil.

Em 1563, o médico de D. João III, Garcia d’Orta, amigo de Martim Afonso de Souza e Luís de Camões, após trinta anos de observações, experimentos em seu horto botânico em Goa e de viagens de coleta no Oriente, publicou uma ampla revisão científica dos compêndios de botânica da Antiguidade e Idade Média. Seu livro Colóquio dos simples, drogas e coisas medicinais da Índia e assim de algumas frutas achadas nela…, indicava espécies selecionadas e introduzidas no Brasil (Revista Oeste, Edição 99).
Esse procedimento evitou introduzir no Brasil muitas pragas e doenças. A doença da Sigatoka Amarela surgiu em Java em 1902; chegou a Fidji em 1923 no distrito de Sigatoka, de onde seu nome; no Suriname em 1932; no Brasil em 1935 em São Paulo e na Amazônia em 1944. A Sigatoka Negra é pior: além de atacar folhas jovens da bananeira, como a Sigatoka Amarela, atinge também as velhas. Surgiu em Fidji em 1963; chegou a Honduras em 1972; no Amazonas (Tabatinga) em 1998. O Mal-do-Panamá surgiu no Havaí em 1904. Em 1930, chegou em Piracicaba (SP). Está em todo o Brasil. Da enorme bioadversidade tropical americana surgiu a bactéria Ralstonia solanacearum, responsável pelo Moko da bananeira, presente na Amazônia, com exceção do Acre, e em Pernambuco e Sergipe.
O caminho para enfrentar as doenças é manejo da cultura, defensivos e criação de variedades resistentes. Problema: a maioria das variedades de banana é estéril. Não há como usar a reprodução sexuada, o cruzamento de espécies, para obter variedades resistentes a pragas e doenças, com produtividade e qualidade dos frutos. A genética da banana é complexa (triploide). Seu melhoramento é diferente da seleção de feijão, milho, soja ou laranja. Nesses casos, a reprodução sexuada permite cruzamento e novas genéticas. Na banana, obter novas variedades é bem mais caro e difícil.
Os pesquisadores fecundam manualmente, com um pequeníssimo grão de pólen de uma espécie com alguma característica de interesse, cada ovário da banana cultivada. De cada 1.000 grãos polinizados, um trabalho enorme, obtém-se apenas uma ou duas sementes. São plantadas e observadas para avaliar se as plantas obtidas (genótipos) têm as características desejadas.
A pesquisa agropecuária brasileira já produziu dezenas de variedades resistentes a pragas e doenças, utilizadas pelos bananicultores. Em muitos casos, ainda é necessário erradicar pomares e recorrer ao uso de fungicidas. Na Costa Rica chegam a 50 aplicações e no Equador a 30, num ciclo. Em São Paulo e Santa Catarina, são cerca de 15 aplicações. Muitas vezes realizadas por aviação agrícola, drones, sensores multiespectrais e equipamentos motorizados. Pequenos agricultores não têm condição de utilizar essas opções. A Embrapa desenvolveu uma técnica de aplicação manual de fungicida na axila da segunda folha da bananeira, adequada aos pequenos produtores, capaz de controlar a doença com três aplicações.
Sobre possíveis doenças futuras, vindas de outros países, a Embrapa realiza programas de melhoramento preventivo: seleciona variedades resistentes a doenças aqui inexistentes. Plantas obtidas são enviadas a África ou Ásia e cultivadas onde existe a doença para ver se resistem. O Brasil passa a ter alternativas para enfrentar eventuais problemas futuros.
Outra forma de evitar enfermidades e pragas é produzir mudas de banana por micropropagação ou cultura de tecidos. Empresas no Sul, Sudeste e Centro Oeste produzem mudas sadias de novos híbridos, com alto potencial produtivo, homogêneas e com características desejadas pelo agricultor.
A banana não se vende mais “a preço de banana”? No passado, a população era menor e a produção próxima do consumo. Hoje, há demanda por banana em todo o país. O custo de produção cresceu, sobretudo com mão de obra. Também onera a questão sanitária, adubos, defensivos e transporte, numa cadeia com muitos intermediários. As margens dos produtores são pequenas. Ainda é uma das frutas mais acessíveis e baratas.

A produção de banana precisa crescer. Muito. Todos estados produzem bananas. A produtividade média é baixa: 15 ton/ha. Poderia ser o dobro. O Amazonas importa 70% da banana consumida de São Paulo, Mato Grosso, Roraima e Acre. A logística é cara. Sua população é penalizada e paga um custo maior por um alimento básico. Não bastassem pragas e doenças, o eugenismo ambientalista armado desantropiza as poucas áreas rurais produtivas do Amazonas, como em Apuí (Revista Oeste, Edição 277). São Paulo, o maior produtor, com um milhão de toneladas, 46 mil hectares e rendimento médio de 22 ton/ha, fatura dois bilhões de reais/ano.
A extinção da banana, prevista pela New Scientist, era exagero. Como é o terrorismo verde, climático e midiático com profecias apocalípticas sobre o fim da agricultura e do planeta. Não ocorreu o vaticinado à banana, apesar das dificuldades genéticas do melhoramento. O setor avança, com variedades resistentes criadas pela pesquisa e a proatividade de produtores e empresas. Investem em tecnologia e inovam nos sistemas de produção e pós-colheita. Para lá da COP30, com seus ares de república das bananas, os pequenos bananicultores na Amazônia, sem apoio, ameaçados de extinção pela sanha estatal e ambientalista antropofóbica… re-existem. Yes! Ainda temos bananas.
Leia também “Eugenismo ambientalista”
Banana é um alimento único. Ótimo artigo, mestre Evaristo.
Que artigo maravilhoso e extremamente explicativo, Muiiiiito bom.
Parabéns, Evaristo de Miranda. Sempre surpreende com seus ensinamentos. Leitura obrigatória.
Yes !! Temos bananas e resistencia para continuar produzindo apesar de todas as intemperies, Incrivel como o povo brasileiro é resistente e persistente. A banana deve permanecer apesar da torcida contra, apesar do abandono desses produtores pelo governo federal, Deus salve o Brasil !!!
Quanta informação história, agronômica, econômica e até política no artigo do professor Evaristo sobre a banana. Dizer que nos últimos anos o Brasil está se tornando uma República de Banana é uma verdade assustadora, mas ofende a banana 🍌.