No dia 28 de janeiro de 2014, José Roberto Guzzo ministrou sua tradicional palestra no Curso Abril de Jornalismo, no auditório do icônico prédio da Marginal Pinheiros. Sentado na última fileira, eu era um dos 66 alunos. Recém-chegado da Itália, abstêmio das dinâmicas brasileiras, sem noção do monumento que estava no púlpito, ouvi um diagnóstico cristalino sobre as turbulências do país. O único que me parecia fazer algum sentido.
“Dilma está trabalhando duro para transformar seu governo no pior da história. Vai afundar na incompetência e corrupção”, disse do palco. A Lava Jato sequer tinha começado, a velha mídia acobertava as atrocidades semânticas da presidente e o impeachment era inimaginável. Guzzo já percebia o desfecho. E tentou transmiti-lo para nós, futuras levas da empresa que ele tinha feito grande, com sua retórica direta e definitiva.
A mensagem que Guzzo deixou no final da conversa foi: “Não tenham medo de fazer o certo. De escrever o certo. Mesmo em minoria. Mesmo sozinhos. O certo é o certo, o errado continua errado. Mesmo se a maioria concordar. E lembrem-se, nosso único patrão é o leitor. Se traído, não perdoa”.
Quem, como ele, enfrentou a censura do regime militar, as tentativas de estrangulamento financeiro dos primeiros governos petistas e as pressões dos grupos de poder de Brasília, transpirava coragem e exaltava a liberdade jornalística. Tudo que faltava, e ainda falta, na mídia brasileira.
Mas não foi sua fala que me deu a certeza de estar em frente ao maior jornalista do Brasil. Foi o debate que ocorreu naqueles mesmos minutos no grupo de WhatsApp dos alunos do curso. Meus colegas, quase todos recém-formados em faculdades públicas, estavam enfurecidos. Começaram a compartilhar matérias antigas do Guzzo e a criticá-lo com uma animosidade que me deixou perplexo.
A mais citada foi a coluna “Parada gay, cabra e espinafre”, do final de 2012. Leitura excelente, para variar. Onde Guzzo contestava o ativismo judicial de um Supremo Tribunal Federal que, caso único do mundo, decidiu atropelar o Legislativo e decretar que casamentos entre pessoas do mesmo sexo eram legalizados. Mais uma vez, antecipou os tempos.
Guzzo era assim: não tinha problemas em desafiar a impopularidade para se manter íntegro.
Pela tempestade que provocou, percebi que era lido até mesmo por quem discordava. Provavelmente até mais do que por seus admiradores. E com uma atenção redobrada, reservada a alguém considerado muito seriamente.
De todos os meus colegas histéricos do Curso Abril, apenas meia dúzia ainda atua no jornalismo. Nenhum com papel maior. Guzzo escreveu sua última coluna aos 82 anos de idade, poucas horas antes de falecer. E foi um sucesso como sempre.
A partir do dia de sua palestra, Guzzo se tornou minha leitura obrigatória. Quando chegavam as novas edições de Veja ou Exame, o gesto automático era pular diretamente para a última página, onde estava seu texto. Acompanhado da inconfundível foto de perfil, com aquele olhar que transmitia uma mensagem clara ao leitor: “Somos governados por um bando de cretinos. E eu vou explicar por quê”.
Jamais imaginaria que, poucas semanas depois daquela palestra, acabaria contratado pela revista que ele contribuiu para fundar, assumiu no vermelho e transformou na terceira maior do mundo. Um sucesso editorial único no planeta.
Cruzei com Guzzo poucas vezes na redação de Veja. Obviamente, nunca tive coragem de abordá-lo para conversar. Falar do que com um gigante como esse? Com alguém que cobriu a guerra do Vietnã, foi correspondente em Paris e nos EUA, e foi o único brasileiro presente no encontro entre Nixon e Mao, em 1972, que mudou a história do mundo. Eu, que tinha apenas vinte anos — Domine, non sum dignus — no máximo, poderia ler avidamente suas colunas e tentar aprender o máximo.
O destino acabou me levando para outras redações. Mas se mostrou benévolo. De novo, nunca imaginaria que voltaria a trabalhar com Guzzo quase dez anos depois. Desta vez, em Oeste.
A primeira vez que entrei em uma reunião de pauta com ele, no dia 14 de agosto de 2023, estava na modalidade jovem-aprendiz. Fiquei calado ouvindo os debates entre os colegas, até que Guzzo me encarou dizendo: “Qual sua proposta para essa semana?”. Acabei saindo da sala com a encomenda da matéria de capa daquela edição: “A Petrobras, de novo”. Na reunião seguinte, ganhei um elogio do Guzzo. E uma bronca. “Não escreva como um contador”, disse, reclamando do excesso de números.
Foi esse primor pelo texto que propiciou o sucesso de todos os veículos que ele dirigiu. E com Oeste não foi diferente. Fundou a revista em 2020, aos 77 anos, com Jairo Leal e Augusto Nunes. Em uma idade em que a maioria dos jornalistas dificilmente escreve uma linha. Em cinco anos, a levou a ser a maior publicação semanal do Brasil.
Seus textos continuaram viralizando nas redes sociais. Sempre lidos tanto pelos inimigos quanto pelos apoiadores. Até seus tweets pautavam a internet. Bastavam-lhe 140 caracteres para acabar com a prosopopeia de qualquer poderoso. Tapas de realidade na cara dos hipócritas. Sempre com a lucidez e a clareza que o caracterizaram.
Quando conheci Guzzo, em 2014, o maior problema do Brasil era a corrupção. Na época, poucos jornalistas falavam disso. Eram coniventes ou apenas medíocres. Ele foi uma voz solitária por muito tempo. A história lhe deu razão.
Em 2025, o maior problema do Brasil é o arbítrio do STF. Por anos ninguém quis enxergar. Guzzo nunca se omitiu de denunciar. Estava certo também desta vez. A história lhe dará razão novamente.
Guzzo nunca escolheu o caminho fácil. Jamais se contentou em repetir o discurso da maioria. Sempre foi voz que rompeu o silêncio covarde do conformismo cúmplice. Seu pensamento desafiou dogmas, mostrando caminhos além da cortina da conveniência.
Em tempos de histeria ideológica, de censura disfarçada, de militância travestida de jornalismo, Guzzo manteve a coluna reta. Não se intimidou. Não fez concessões. E por isso incomodou tanto — porque quem fala a verdade com firmeza inevitavelmente abala os falsos confortos da mentira.
Guzzo deixa um legado imenso para a nova geração de Oeste, da qual me orgulho imensamente de fazer parte. Um jornalismo sério, direto, incômodo. Como deve ser todo o ofício que se preze. Mais do que isso, um exemplo de como manter a cabeça erguida. E de escrever para contribuir com o futuro do Brasil. Castigando as mazelas e tentando indicar o caminho da prosperidade.
José Roberto Guzzo foi um exemplo para todos nós. Um modelo de escrita, de bravura e de liberdade. A resistência contra o arbítrio que vivemos. A prova de que o jornalismo pode ser grande. Deixou um caminho que continuaremos seguindo com dedicação. Honraremos sua coragem.
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Carlo Cauti , Guzzo nunca ficou tão a vontade com as palavras como na Revista Oeste. Com suas palavras, ficar sempre do lado certo como você citou, foi seu caminho de vida.A missão agora é de vocês.