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Edição 281

O exorcista no Céu

Guzzo tinha como propósito dar o inferno aos demônios que possuíam e possuem o seu amado Brasil. Esse é, afinal, o propósito de todo jornalista verdadeiro

Um exorcista foi ao Pai: neste mundo dominado pelo Direito, ele estaria, ainda, no purgatório. Está, agora, no plano celestial, onde não existe Direito, mas a verdadeira Justiça.

Contudo, nos últimos 6 anos (seis: número tão estimado pela Besta e por bestas), esse exorcista residia no Inferno, espaço tropical conhecidíssimo pela propaganda enganosa sobre Direito e Justiça, mas sem o direito ao Direito nem à Justiça. Sorte dele que está no Céu. 

Repetindo uma das famigeradas frases dos marqueteiros desse plano quente, desse regime que engorda glutões e emagrece quem passa fome, eu apenas posso lamentar e dizer: “Ainda estou aqui!”.

E você também. Todos nós estamos aqui; inclusive os analfabetos insensíveis, as prostitutas que nunca fizeram amor e todos os incautos que acreditam cegamente na cegonha, que, aniquilada a soberania gramatical e amaldiçoada a semântica (em falimentar dívida histórica pelo pecado original “pedofilológico”), torna-se sinônimo de cegante.

Sentirei falta do nosso exorcista, que ainda não apresentei ao leitor, embora ele dispense apresentações. Nenhum desconhecido pode apresentar o conhecido, afinal. 

Exorcista? Ora, um exorcista é um homem de fé; é um homem de Deus. Um exorcista sabe reconhecer, como ninguém, o diabo; é soldado de uma espécie de infantaria solitária no exército do Bem, pois, por instinto, esse “sommelier” do enxofre contribui para evitar a carnificina do exército rival: ele, a quem não interessam nem joio, nem joias, tem o intrigante interesse de libertar soldados possuídos pelo Inimigo. O exorcista, em suma, aos demônios dá o Inferno.

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Aos 82 anos de idade recém-completados, José Roberto Dias Guzzo, nosso J. R. Guzzo, tão nosso quanto a jabuticaba, morreu na madrugada do último sábado, 2 de agosto. Sim! O exorcista em tela é o maior jornalista do Brasil; meu chefe em Oeste; meu amigo nestes últimos anos; meu ídolo. 

Guzzo transformou a criança Tiago no leitor Tiago, que se tornaria o escritor Pavinatto. Ninguém, em nosso tempo, é capaz de escrever de forma tão sublime; o que prova vivermos no dantesco Reino da Mentira: enquanto a melhor pena do nosso tempo é criativamente perseguida, temos uma Academia de Letras tão sem sentido quanto a sigla LGBTQIAPN+ e, ainda, um sujeito “patético e medíocre” finalista do Jabuti — particularmente, penso que premiar um autor com problemas de concordância, crase, vírgula e confusão entre “mas” e “mais”, equivale a expor os quadrinhos toscos do pintor Hitler ao lado da Monalisa.

Não tenho dúvida: Guzzo, o exorcista da política nacional, foi dessa pra melhor. 

Guzzo tinha como propósito dar o inferno aos demônios que possuíam e possuem o seu amado Brasil. Esse é, afinal, o propósito de todo jornalista verdadeiro… mas sabem como funciona no Estado da Mentira, não? Ainda mais onde “verdadeiro” rima com “dinheiro”.

Keep giving them hell, my friend.” (Em português: “Continue lhes dando inferno, meu amigo.”)

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Essa era, assim mesmo em inglês, a mensagem que Guzzo sempre me escrevia quando eu fazia as minhas críticas mais ferozes e as estripulias mais impensáveis para criticar alguém ao vivo no Faroeste à Brasileira. “Give them hell”, ele me dizia em aprovação a cada artigo que submeti à publicação na Revista Oeste.

Nunca perguntei ao Guzzo sobre o motivo da frase em inglês. Imagino que sua predileção vinha de Give ‘em Hell, Harry!, que chegou às telas do cinema em 1975.

Escrito pelo dramaturgo Samuel Gallu, trata-se de um monólogo fictício do 33º presidente dos Estados Unidos (1945-1953), Harry Truman (interpretação que rendeu ao ator James Whitmore a sua segunda indicação ao Oscar e outra ao Globo de Ouro), no qual ele relembra e ri de fatos da sua vida pública e pessoal. “Give ‘em Hell”, pois, afinal, o presidente Truman era conhecido como o único político de seu tempo com culhão para dizer, sem filtro, tudo o que pensava diretamente ao povo americano.

Truman implementou o Plano Marshall depois da Segunda Guerra Mundial e estabeleceu, além da Otan para conter a expansão do comunismo soviético, uma doutrina que leva seu nome: a Doutrina Truman. Enfim: Truman deu inferno aos demônios comunistas.

Guzzo, o exorcista da política brasileira, deu aos demônios da República o inferno que lhes compete (o inferno que mereciam e ainda merecem). A este aprendiz de exorcista ensinou e cravou, com sucesso, a doutrina do bom combate jornalístico nestes tempos insanos e hipócritas em que a mentira vence pelo poder de compra: aos demônios da República, o inferno.

Mestre Guzzo, prometo engolir a minha tristeza e continuar a cumprir sua ordem… não importa se o tinhoso é careca ou dama emergente e vulgar: darei a ele, enquanto puder, o círculo mais quente do Inferno.

Leia todos os artigos de J. R. Guzzo na Oeste

6 comentários
  1. João Carlos Pinto Oliveira
    João Carlos Pinto Oliveira

    Caro amigo, Pavinatto. Espero que possa chamá-lo assim pelos anos que venho te acompanhando.
    Esta edição especial da Revista Oeste está maravilhosa. Uma justa homenagem a um homem íntegro, no sentido completo da palavra.
    Lendo teu artigo, me recordei dos tempos que assinava a Revista Veja e a minha primeira leitura era invariavelmente a página amarela do final da revista. Vamos sentir saudade. Mas agora temos alguém a interceder por nós junto ao Criador. Grande Abraço

    1. Maria Thereza Andres Costa
      Maria Thereza Andres Costa

      Também acompanho o Guzzo desde a página amarela no final da revista VEJA. Vai fazer muita falta, o Brasil ficou mais pobre!.

  2. JOSE ROBERTO CARRARA
    JOSE ROBERTO CARRARA

    Era leitura obrigatória toda sexta feira os artigos do Sr. Guzzo, sempre esperando a edição, era o primeiro artigo a ser lido, que Deus o receba em seu reino.

  3. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Obrigada pelo texto Tiago Pavinatto vamos sim exorcizar os falsos, os corruptos e os que ficam na contra mão da história. Bjo.

    1. Tiago Pavinatto
      Tiago Pavinatto

      Assim que eu parar de chorar. Acredita que tive uma crise de choro lendo essa edição especial? Eu é que tenho que agradecer a vocês.

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