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J.R. Guzzo e um trecho do seu último artigo para a Revista Oeste sobre "Monumento à Cegueira", publicado no dia 1º de agosto de 2025, edição 280 | Foto: Montagem Revista Oeste/Arquivo Pessoal
Edição 282

Imortalidade é isso

Os artigos de J. R. Guzzo impedirão o assassinato da verdade

A seriedade do semblante da figura de terno e gravata que avançava pelo corredor do prédio na Marginal do Tietê era acentuada pelos óculos de aros grossos. Os cabelos já ensaiavam no alto da cabeça o começo da debandada, mas os fios ainda abundantes nas partes laterais garantiriam longa vida às costeletas. Os botões da camisa social lutavam para resistir à pressão do ventre. E pendia do ombro esquerdo uma bolsa capanga que não rimava com aquele homem cuja idade oscilava em torno dos 30 anos. Era assim o José Roberto Guzzo que vi pela primeira vez naquela tarde de 1973. Ali estava um homem de poucos amigos, poucas palavras e pouca paciência. Com alguns quilos a mais, concluí.

Muitos anos, centenas de jantares e incontáveis cálices depois, contei a J. R. Guzzo que o alvo do exame visual não se saíra bem naquele diagnóstico.

Ricardo Fisher, Victor Civita e J. R. Guzzo em 1982 | Foto: Paulo Salomão/Editora Abril

— É assim mesmo — sorriu o já meu amigo havia muito tempo. — Todos erram na primeira avaliação. O problema é que jornalista brasileiro detesta acertar. Erra também na segunda, na terceira, na quarta… Na última também.

Ao menos dessa escapei, penso grávido de alívio. Durante 50 anos, acompanhei atentamente (ou resgatei o quanto antes) as etapas e façanhas que marcaram a trajetória profissional de Guzzo. O correspondente internacional lutou bravamente para impedir a eternização da frase nascida com a primeira batalha: quando começa um conflito, a primeira vítima é a verdade. O editor da Veja ensinou meio mundo a escrever direito. O diretor de redação conduziu a revista por altitudes sequer sonhadas por concorrentes brasileiras. O diretor da empresa salvou veículos da Editora Abril da condenação à morte decretada por extremistas de esquerda fantasiados de dirigentes. O ultraesquerdista Rui Falcão, por exemplo, infiltrara-se na cúpula da Exame para liquidar a maior revista do Brasil capitalista. Escalado pela Abril para impedir o crime, Guzzo foi mais rápido no gatilho. E Falcão foi brincar de revolucionário no PT. Ainda brinca.

Rui Falcão, Presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), durante entrevista coletiva na reunião da Executiva do PT, em Brasília, DF (26/1/2016) | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

A vida é a soma das nossas escolhas, sabe-se desde Adão e Eva. Portanto, é o resultado dos convívios em que embarcamos que melhora ou piora o ato de existir. Escolha direito, porque tem gente que confirma que a vida vale a pena e a dor de ser vivida, mas também tem gente que é melhor perder do que achar. Já neste século 21, o amigo Jairo Leal sugeriu que Guzzo ocupasse duas vezes por mês a última página da Veja. Poucas semanas depois, ele já era o mais lido dos colunistas. Nem por isso o comando da revista, tempos mais tarde, deixaria de vetar um artigo que dizia verdades sobre o Supremo Tribunal Federal.

Avesso a gestos espetaculosos, o maior dos jornalistas caiu fora da estalagem agora hostil. E se juntou a Jairo na criação da Oeste. O que Guzzo não podia adivinhar é que chegara a hora de materializar o sonho perseguido desde a mocidade: escrever, apenas escrever, livre de temores e injunções que orientam as decisões dos patrões convencionais. Jairo é desde o começo o número 1, o publisher, o chefe. Nunca lhe passou pela cabeça encarnar um patrão à moda antiga. Essa coisa jurássica morreu. Caprichos e vontades de patrão foram substituídos por pactos com os leitores. Oeste vem cumprindo o que prometeu desde o parto da primeira edição. Os donos, no fim das contas, são os assinantes. Nós lhes garantimos o apego aos fatos, à verdade, à informação exata.

Reunião de pauta na Revista Oeste | Foto: Arquivo Pessoal

Inteiramente à vontade para expressar-se, J. R. Guzzo nunca foi tão feliz. Quem lê seus textos tem a sensação de que escrever não é tão complicado assim. Culto, inventivo, brilhante, dono de um repertório vocabular admirável, ele poderia ter escrito nestes cinco anos três romances, dois ensaios, dezenas de poesias e uma tese de doutorado. Preferiu mostrar com esplêndida clareza quais são os problemas do país e como resolvê-los, quem é o bandido e quem é o mocinho, quem é ladrão e quem é honesto.

Daqui a muitíssimos anos, quem quiser compreender estes tempos estranhos terá de buscar a verdade nesta revista. E terá de ler o que Guzzo escreveu. Imortalidade é isso.

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39 comentários
  1. Alceu Dambros Spido
    Alceu Dambros Spido

    Obrigado Augusto Nunes!
    Excelsa homenagem ao gigante Guzzo!

  2. Osvaldo Fraga Guimarães Junior
    Osvaldo Fraga Guimarães Junior

    Seria muito importante a revista OESTE editar um livro com todos os artigos deste jornalista J. R Guzzo que muito honra este imortal do jornalismo conteporanio.

  3. ADRIANO RODRIGUES DOS SANTOS
    ADRIANO RODRIGUES DOS SANTOS

    Eu conheci o gigante J.R.Guzzo através da revista OESTE. Uma pena que eu tive a oportunidade de conviver com este gigante por um período curto. Descanse em paz J.R.Guzzo.

    1. Osvaldo Fraga Guimarães Junior
      Osvaldo Fraga Guimarães Junior

      E dever da revista Oeste fazer um livro com todos os artigos de J R Guzzo

  4. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Sorte a nossa de termos, dentre outros. J R Guzzo e Augusto Nunes, que nos brindaram com um jornalismo sério. Que o legado permaneça. Siga firme, Augusto.
    Obs: me abri com a camisa de botão no ventre kkk

  5. SERGIO RODRIGUES MARTINS
    SERGIO RODRIGUES MARTINS

    Que perda para o jornalismo sério do País!
    J.R. Guzzo vai para a galeria daqueles que nunca se venderam ao sistema!

  6. Luiz Americo Lisboa Junior
    Luiz Americo Lisboa Junior

    A Oeste deveria reunir todos os artigos de Guzzo em ordem cronológica e fazer uma bela edição. Além de uma grande homenagem e respeito a sua obra, esses textos representam a melhor radiografia desses anos de chumbo que estamos vivendo. Guzzo foi inquestionavelmente o maior cronista deste período. Insuperável. Obs., em outros volumes poderiam reunir seus textos na Gazeta do Povo, no Estadão, e os mais antigos da Veja. Que tal esse mote? “Quer conhecer o Brasil dos últimos 50 anos? Está tudo aqui, leia Guzzo”.

  7. Oswaldo Galvão Carvalho
    Oswaldo Galvão Carvalho

    um verdadeiro jornalista (no sentido lato da palavra).
    seus textos sempre foram brilhantes. (fruto de uma cabeça que pensa)
    escrevia com muita facilidade. (hábil com as palavras, além do vasto e notável vocabulário)
    J.R. Guzzo marcou seu tempo.
    teremos, agora, a continuidade com outro não menos capaz e não menos inteligente, Augusto Nunes que levará a Revista Oeste para onde precisar estar. VERDADE PARA CIMA DOS COVARDES E VERDADEIROS GOLPISTAS.
    tô contigo Augusto Nunes.

  8. Elielton Bezerra Pupo
    Elielton Bezerra Pupo

    Parabéns Augusto!!! J.R.Guzzo deixou vários legados, e um deles é você!!!! Ainda bem que temos Augusto Nunes!!!

  9. Jarlan Barroso Botelho
    Jarlan Barroso Botelho

    O mestre J.R. Guzzo será eternamente lembrado. Ainda mais porque ele deixou milhares de fãs, incontáveis admiradores, um bom número de seguidores, alguns fieis discípulos e poucos, mas excelentes amigos, como o Mestre Augusto Nunes. Quem possui um patrimônio desses, jamis será esquecido.

  10. Edmar Simplício da Silva
    Edmar Simplício da Silva

    Perfeito Augusto! GUZZO se foi, vida longa ao GUZZO.

  11. Daniel BG
    Daniel BG

    Lindo testemunho, Augusto. J.R. Guzzo estará com aqueles que o acompanharam em seus artigos. Ele estará presente pelos princípios que defendeu. Homem íntegro e amigo.

  12. Osvaldo Pasqual Castanha
    Osvaldo Pasqual Castanha

    Guzzo ficará para a história como o melhor jornalista brasileiro.

  13. José Leonardo Dias Duarte
    José Leonardo Dias Duarte

    Como não podia deixar de ser, mais um EXCELENTE texto do Augusto Nunes. Eu sempre gostei muito de ler os textos do Guzzo. Desde o final da década de 1980 os lia e sempre terminava a leitura com um sentimento de admiração pelo autor. Aquele sentimento de “eu gostaria de ter escrito isso” que nos despertam os belos e bons textos, escritos por autores fora do comum. Guzzo fará muita falta ao Brasil e pelo texto do Augusto, já está fazendo muita falta aos amigos. Nós que o lemos durante tantos anos, jamais o esqueceremos e que ele descanse em paz na eternidade com a raça de Deus.

  14. SUZANE SILVA MATOS
    SUZANE SILVA MATOS

    Que lindo texto Augusto Nunes, emocionante.
    J.R. Guzzo, verdadeiro imortal. Obrigada por nos presentear com seus textos

  15. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Guzzo com seus excelentes artigos no Estadão, conseguia contrariar a linha editorial desse decadente jornal que fora conservador um dia. Nesses artigos, Guzzo indicava seu e-mail que eu gostava de elogiar e comentar, sempre recebendo seu retorno às minhas mensagens.
    Até que certo dia, Guzzo convidou-me a visitar a Revista Oeste e dela nunca mais me afastei e em 2024 assinei o plano de 10 anos.
    Confesso que fui tucano até 2019, ano que as celebridades do PSDB se revelaram sem caráter e contaminaram a velha imprensa para ressuscitar Lula e criar esse SISTEMA que nos vem destruindo.
    Guzzo, nos deu excelente contribuição que com certeza a Revista Oeste dará continuidade e ajudará a voltarmos a verdadeira democracia.

  16. Jurandir
    Jurandir

    Já chorei quando da sua passagem e me emociono com este brilhante texto extremamente profundo. Uma bela homenagem de um mestre para outro. Guzzo vai nos fazer muita falta, mas cumpriu sua missão, por isso tragam sempre as citações dele nos textos que forem escrever, vamos mantê-lo vivo com suas ideias.

  17. Maria Cristina Padula
    Maria Cristina Padula

    Sempre li os artigos impecáveis do J.R., que ele esteja em paz 🙏
    Perdemos mais um Diógenes com sua lanterna …

  18. Nilson Abrao Porto
    Nilson Abrao Porto

    Os melhores também descansam e vão em paz mas, sentimos ainda confortados tendo jornalistas do calibre de Augusto Nunes.

  19. Ricardo Luiz Vilarinho
    Ricardo Luiz Vilarinho

    Parabéns pelo texto sobre esse ícone do jornalismo brasileiro. Eu adorava ler semanalmente os artigos do Guzzo na Revista Oeste. Vou sentir muita saudade.

  20. Ricardo Luiz Vilarinho
    Ricardo Luiz Vilarinho

    Parabéns pelo texto sobre esse ícone do jornalismo brasileiro. Eu adorava ler semanalmente os artigos do Guzzo na Revista Oeste. Vou sentir muita saudade.

  21. Carlos Albeto Pittaluga Niederauer
    Carlos Albeto Pittaluga Niederauer

    Excelente! Um texto à altura de Guzzo.E parabéns por liberar todos os artigios do mestre à população. Creio que Oeste já deve estar preparando um livro com os artigos de Guzzo.Que o faça, em ambos os meios, impresso e digital.

  22. Cátia Deon Dall’Agno
    Cátia Deon Dall’Agno

    O Brasil perdeu um grande jornalista . Sentiremos sua falta

  23. Alberto Junior
    Alberto Junior

    Toda homenagem a José Roberto Guzzo é mais do que merecida. A Revista Oeste manterá o legado desse grande jornalista (o maior de todos) sempre a um click daqueles que desejarem aprender com o mestre. Parabéns Augusto Nunes e toda equipe da revista. Nós, leitores, que tivemos o privilégio de sorver os textos de J. R. Guzzo aqui, só temos agradecimentos por tudo.

  24. Flavio Figueira Jorge
    Flavio Figueira Jorge

    Lembro-me de poucas vezes ter ficado tão desconsolado pela perda de alguém com quem não convivi ou tive amizade.
    Aprendi cedo que historiadores, com suas ciências afins da econometria e historiografia primária, fazem o corte longitudinal dos fatos no tempo. Os jornalistas, o corte horizontal, imediato.
    J. R. Guzzo passava-me a impressão de construir a cada texto seu, um pedaço do eixo longitudinal.
    Ainda não me recuperei da notícia de sua partida. Sou muito grato a ele, que leio há décadas, por toda imortal obra literária, histórica, humildemente declarada como jornalismo.
    Que D’us o abençoe grandemente.

  25. JOSE GERALDO VIANA
    JOSE GERALDO VIANA

    Leitor contumaz da Veja dos bons tempos, mudei radicalmente a ordem sequenciada de leitura, a patrir das Paginas Amarelas, desde que descobri o J. R. Guzzo ocupando o fundo da publicação como a um latifúndio. Imigrei convicto para lá e passei a ler de trás prá frente a revista. Quando ele saiu em definitivo (e da forma como saiu), abandonei o barco. Até que minha bússola apontou para “Oeste” e redescobri não apenas o prazer da leitura de seus textos preciosos, como a escrita suculenta de outro grande jornalista a quem acompanho de longa data, o mestre Augusto Nunes. Vida longa à Oeste e sua brilhante equipe. Qua Deus os proteja nesta sua caminhada neste turbulento Brasil. Abraços!

    1. Mauricio Raposo de Medeiros
      Mauricio Raposo de Medeiros

      Neste tempo de disponibilidade instantânea da notícia, certa ou errada, a periodicidade semanal de uma publicação é fato que significa confiança , algo que foi conquistado por este time ao longo de várias vidas dedicadas à busca da apuração de cada acontecimento.Nesta semana lamentamos a perda de uma delas ,mas observamos sua eternização na filosofia de toda uma equipe e com a satisfação da cuidadosa incorporação de mais vidas embutidas da mesma missão.Coragem e avante, obrigado pelos serviços prestados.

  26. Geraldo Toledo Moraes
    Geraldo Toledo Moraes

    Existe alguma coletânea dos artigos do Guzzo? Se sim onde posso adquirir. Geraldo Toledo Moraes

  27. Geraldo Toledo Moraes
    Geraldo Toledo Moraes

    Existe alguma coletânea dos artigos do Guzzo? Se sim onde posso adquirir. Geraldo Toledo Moraes

  28. Paulo Ernane Rego Queiroz
    Paulo Ernane Rego Queiroz

    Parabéns Augusto Nunes! J R Guzzo foi um grande, excelente e corajoso jornalista.

  29. Susete França
    Susete França

    Que lindo texto, Augusto! Você faz jus ao grande jornalista e amigo que perdeu.

  30. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Augusto, obrigada novamente pela homenagem a Guzzo. Repito aqui o que já disse em outros momentos, pela primeira vez em sua vida ,realizou seu desejo de arrancar todas as amarras e sentir a plena liberdade de expressar suas ideias. Ficava muito feliz quando os comentários publicados em seus artigos reconheciam essa liberdade.Realmente um homem que não se calou contra os abusos desse governo. Sua coragem o impulsionava sempre a ir em frente,deixa seu legado como jornalista. Oeste segue em frente, nunca conviver com mentiras e arbitrariedades.

  31. Adriana Fossa
    Adriana Fossa

    Há exatamente uma semana, li a última coluna do Mestre Guzzo na Oeste. Com muita tristeza recebi a notícia de sua morte, no dia seguinte. Assinava o Estado de São Paulo somente pelas duas colunas que ele publicava, às quartas e aos domingos e era impiedosamente massacrado por gente paga, sabem muito bem por quem (mas também enormemente aplaudido e apoiado por quem tem compromisso apenas com a verdade). Também lembro das colunas na Revista Veja, nos áureos e não tão longínquos tempos. Sentirei muita falta. Do jornalismo verdadeiro. Meus sentimentos a todos da revista e aos familiares.

  32. João Carlos de Souza Carvalho
    João Carlos de Souza Carvalho

    Concordo e agradeço à Oeste por existir e nos agraciar com esses maravilhosos e elucidativos artigos que sempre leio e difundo ! Meus eternos parabéns !

  33. Paulo Jaconi Saraiva
    Paulo Jaconi Saraiva

    Augusto Nunes brilhante como sempre. Bela matéria sobre o imortal Guzzo.

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