Em 2020, uma frase dita nas redes sociais mudou para sempre a vida da publicitária e ativista feminista Isabella Cêpa, de 32 anos. Ao comentar o resultado das eleições municipais de São Paulo, em que Erika Hilton (Psol-SP) se tornou a primeira “mulher trans” eleita vereadora, a ativista afirmou: “A mulher mais votada é homem”. O comentário — correto do ponto de vista biológico e aceito nos círculos do feminismo radical, que não reconhece a identidade de gênero como critério para definir o que é ser mulher — rapidamente furou a bolha feminista e virou alvo de um processo que ainda hoje tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).
Cinco anos depois, Isabella se tornou a primeira pessoa no mundo a obter asilo político por perseguição ligada a críticas à ideologia de gênero. Hoje, vivendo sob sigilo em um país do Leste Europeu, a publicitária reflete sobre a trajetória que a levou do ativismo on-line à condição de refugiada reconhecida pela Agência da União Europeia para o Asilo (AUEA) e pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Uma saída forçada
A decisão de deixar o Brasil, em 2022, não tinha relação direta com o processo movido por Erika Hilton. “Saí do país em meio a um trauma pessoal: fui estuprada por meu ex-namorado”, revelou, ao lembrar que o processo ainda tramita em primeira instância. “Mas já era alvo de perseguição da deputada. Minha saúde mental estava em frangalhos.” Isabella, na época dona de uma livraria especializada em teoria feminista, fechou a empresa e usou as últimas economias para viajar para diversos países. Morou na Argentina, na Indonésia e na Tailândia, onde conseguiu se afastar dos problemas que a atormentavam na terra natal.
O período de tranquilidade durou até 2024, quando a ativista voltou ao Brasil para visitar amigas. No Aeroporto de Salvador, antes de embarcar novamente para o exterior, Isabella foi surpreendida pela Polícia Federal. “Dois anos depois de a frase sobre Erika Hilton circular na mídia, fui informada de que havia um processo contra mim”, contou. “Os próprios agentes disseram que era um caso de perseguição política. Eles me aconselharam a não voltar ao Brasil.” Sem visto de residência, Isabella adotou a rotina de visa run — saídas rápidas para países europeus vizinhos, como Espanha e Portugal, para renovar o visto de turista.

As reviravoltas
O processo teve início com uma denúncia do Ministério Público de São Paulo (MPSP), com base na Lei nº 7.716/1989. A legislação equipara aos crimes de racismo a discriminação contra pessoas LGBTQ+, conforme a decisão do STF na Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) 26, de 2019. O caso foi transferido à Justiça Federal e posteriormente arquivado. O motivo: a conduta de Isabella não configura crime.
Erika Hilton recorreu, mas o procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi favorável ao arquivamento definitivo do processo. Na decisão, afirmou que as declarações “não ultrapassaram os limites legítimos da manifestação de pensamento e opinião”. O caso está sob relatoria do ministro Gilmar Mendes e ainda aguarda decisão final.

Entre o feminismo radical e o conflito político
Isabella se define como feminista radical — corrente que busca uma transformação da sociedade para eliminar o “patriarcado”, considerado pelas ativistas a raiz da opressão das mulheres. “Nós feministas radicais sempre fomos contra o sequestro das nossas pautas pelo transativismo”, afirmou. “O comentário que me tornou alvo de perseguição é absolutamente comum nos círculos feministas. Mas, naquele dia, furou a bolha.”
Ela também criticou a esquerda progressista, que abandonou pautas históricas do feminismo em nome de alianças ideológicas. “Quando Lula foi eleito, falei que seria especialmente perigoso para as mulheres”, lembrou. “Hoje, feministas sofrem perseguição pelo movimento trans em um governo de esquerda.”
Apesar de não nutrir simpatia pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, Isabella reconhece méritos em medidas adotadas em sua gestão — especialmente em benefício das mulheres. A lista inclui a sanção da Lei Mariana Ferrer, que prevê punição para atos que atentem contra a dignidade de vítimas de violência sexual durante julgamentos, e da Lei Sinal Vermelho, que trata como crime a violência psicológica contra mulheres. “Não é questão de direita ou esquerda”, observou. “É reconhecer o que é justo.”

A escalada das ameaças
A exposição do caso que envolve Erika Hilton atraiu ataques da esquerda e do movimento woke. “Recebi ameaças, e-mails com supostos endereços da minha casa, até nomes falsos dos meus pais”, contou. “Ameaçaram me agredir.”
O episódio mais doloroso, segundo a ativista, foi o abandono por parte de mulheres que antes se diziam aliadas. “Deixaram de acreditar em mim, quando fui vítima de estupro, por causa da denúncia de transfobia”, lamentou.
Parte dos liberais e dos conservadores acolheu Isabella, incluindo veículos de imprensa. “A direita está cancelada pelo mainstream, não tem medo de dizer a verdade”, observou a ativista, ao explicar o apoio inesperado. “Já a esquerda tem algo a perder. Não querem alguém ‘aliado’ criando desconforto.”

Do isolamento ao reconhecimento internacional
Em junho de 2025, depois de anos vivendo sem estabilidade financeira, Isabella formalizou o pedido de refúgio. Com apoio da ONG Matria Brasil, apresentou documentação e depoimentos que descreviam ameaças, perseguição política e riscos jurídicos. Mais de mil páginas foram entregues às autoridades europeias. Em cerca de um mês, a ativista recebeu o status de refugiada. O caso repercutiu na imprensa internacional. Isabella recebeu apoio até mesmo da escritora britânica J. K. Rowling — autora dos livros da saga Harry Potter —, alvo constante do movimento woke.
Para a Matria, a concessão do asilo é emblemática: é a primeira vez que uma mulher no mundo recebe esse status por perseguição ligada a críticas à ideologia de gênero. “Muitas mulheres estão sendo silenciadas por dizer que sexo importa e que homens não podem se tornar mulheres por um ato de vontade”, constatou a entidade.
Falta de segurança jurídica
Isabella também criticou a falta de clareza legislativa sobre a identidade de gênero e a liberdade de expressão no Brasil. “Enquanto não tivermos uma lei que defina os limites, os riscos vão existir”, observou. “O arquivamento do meu processo não garante nada.”
Ela contestou dados usados para fundamentar a ADO 26, como o número de assassinatos e a baixa expectativa de vida de pessoas trans no Brasil. Afirmou ter produzido relatório com a ONG Matria, entregue à então ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, demonstrando que as estatísticas seriam falsas. “Ela disse que não poderia falar sobre isso, porque o Ministério da Saúde não a autorizaria”, lembrou.
“Não é violência dizer a verdade”
A repercussão do caso levou Isabella à bancarrota. “Era dona de uma livraria, tive de fechar”, contou. “Hoje, faço trabalhos como freelancer para clientes que conhecem minha situação. Mas, em processos seletivos, basta pesquisarem meu nome no Google para desistirem de me contratar.”
Vivendo sob anonimato e restrições, a ativista disse que o reconhecimento como refugiada lhe trouxe um misto de alívio e responsabilidade. “Virei símbolo dessa história”, afirmou. “Meu caso já encorajou outras mulheres a falarem.”
Para Isabella, o atual cenário político brasileiro exige uma reconstrução do espaço para o diálogo. “O Brasil precisa voltar à normalidade”, observou. “É uma insanidade as pessoas não conversarem por questões ideológicas.”
Acusada de violência por uma frase verdadeira, a ativista garantiu que resistirá à pressão. “Não é violência dizer a verdade”, concluiu.
A seguir, confira os principais trechos da entrevista com Isabella Cêpa.
Por que a senhora decidiu ficar fora do Brasil?
Estava realmente à beira de sofrer retaliação da Justiça. Certamente haveria pedido de prisão, uso de tornozeleira eletrônica. Meu processo andou rapidamente, enquanto historicamente as ações tramitam devagar. É impressionante.
A senhora sofreu ataques apenas por conversar com veículos de direita e por criticar a esquerda. Como vê esse cenário?
Sou de esquerda e sou oposição. Qual é o problema? Quando Lula foi eleito, em 2022, falei que seria problemático. Todos achavam que seria benéfico para a esquerda e para o feminismo. Em qual governo as feministas estão sofrendo perseguição pelo movimento trans? Em um governo de esquerda. Precisamos estabelecer diálogo. Isso se perdeu completamente no Brasil. O ambiente está polarizado. Podemos conversar com a direita e com a esquerda. O Brasil precisa voltar à normalidade. É uma insanidade as pessoas não conversarem por questões ideológicas.
O que a senhora pensa sobre o governo Bolsonaro?
No governo Bolsonaro, pelo qual não tenho admiração, houve até a aprovação de pautas que beneficiaram as mulheres. Ele sancionou, por exemplo, a lei que criou o Cadastro Nacional de Pessoas Condenadas por Crime de Estupro. Além disso, sancionou a Lei Mariana Ferrer, que proíbe o uso de linguagem ofensiva à dignidade da vítima durante audiências e julgamentos de crimes sexuais.
Por que a senhora virou alvo de perseguição?
Pegaram-me para exemplo. E agora continuarei até o final. Virei o símbolo dessa história. Será o primeiro e último caso desse tipo. Meu processo será fundamental para milhares de mulheres que sofrem violência. Preciso agir com precisão. É um jogo de xadrez. Cada movimento é importante. Se minha estratégia jurídica falhar, prejudicarei muitas pessoas.

Como a senhora vê o acolhimento da direita?
A direita está cancelada pelo mainstream, não tem medo de dizer a verdade. Já a esquerda tem algo a perder. Uma coisa são os conservadores apontarem os absurdos do movimento trans. A esquerda não os ouve. Outra coisa é uma feminista radical fazer essas observações. É alguém supostamente do lado deles, criando desconforto.
A senhora é contra o movimento trans?
Nunca questionamos o direito de as pessoas se identificarem como quiserem. Embora, sim, cremos que é absolutamente misógino o fato de um homem dizer que se “sente” mulher porque sempre gostou de bolsas e vilãs de novela mexicana — como falou numa entrevista Erika Hilton. O que somos contra é a tentativa de nos forçar a validar seus sentimentos sob a ameaça de encarceramento caso nos recusemos. O comentário que me fez virar alvo de perseguição é absolutamente comum na bolha feminista. Todas as ativistas aprovam as ideias que verbalizei. Mas, naquele dia, o comentário furou a bolha. As pessoas acreditam que somos essas mulheres que saem às ruas peladas, gritando “meu corpo, minhas regras”. Não é assim. Esse tipo de pauta é financiado por bilionários como George Soros.
O assédio judicial de Erika Hilton ajudou a senhora a compreender a crise do sistema judiciário brasileiro?
É evidente que há uma insegurança jurídica no país. Não é questão de direita ou esquerda. Não tenho a menor simpatia pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, mas há inconsistências no seu processo. Grandes juristas já atestaram os problemas de seu julgamento. Estudei Direito, até mesmo para entender meus processos. Reconheço essas injustiças, seja contra quem for.
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Não concordo com o movimento feminista, mas ela foi bem lúcida em alguns momentos na entrevista. Precisamos de mais pessoas lúcidas neste país
Você viver num país onde o presidente forjado numa eleição fraudada e um ladrão analfabeto terrorista narcotraficante terrorista entre outras mazelas, é preferível a terceira guerra mundial