Em 1990, seu Decio, meu pai, aposentou-se aos 60 anos no antigo regime do INSS. “Agora vou viver de verdade”, dizia ele, depois de décadas trabalhando como um escravo em longas jornadas numa empresa de válvulas industriais.
Seus sonhos eram modestos. Não ter que acordar às 6h da manhã para vestir o terno. Não ser obrigado a cruzar dezenas de quilômetros todos os dias no seu Fusquinha para chegar à “firma”. Com a aposentadoria, havia o desejo de toda uma vida a ser realizado: passar férias com dona Dirce, minha mãe, em Acapulco, no México.
Antes disso, ele tinha que passar por uma cirurgia. Durante a operação, um “acidente de coagulação” fez com que sangrasse até morrer. Aos 62 anos, seu sonho de férias em Acapulco virou o enterro mais triste da minha vida.
De certa forma, seu Decio já estava “morto”, descartado por um sistema produtivo que considerava velho demais quem chegasse aos 60. Como toda a sua geração, ele estava destinado a passar o resto de seus dias de bermuda e chinelo em frente à televisão e ajudando minha mãe nas tarefas de casa.

A economia prateada
No mês passado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) lançou um relatório afirmando que “os 70 são os novos 50”. Segundo o estudo, “uma pessoa com 70 anos em 2022 tem a mesma função cognitiva que uma pessoa de 53 anos em 2000”.
O relatório do FMI, chamado Rise of the silver economy (“Ascensão da economia prateada”) teve como base uma pesquisa com um milhão de pessoas com 50 anos ou mais em 41 países. Algumas das suas conclusões:
- A melhora das habilidades cognitivas permitiu o aumento de 20% na probabilidade de pessoas idosas permanecerem engajadas no mercado de trabalho — trabalhando ou buscando emprego.
- Os maiores de 50 anos tiveram um aumento de seis horas na média semanal de horas trabalhadas e um aumento de 30% nos rendimentos do trabalho.
- Indivíduos mais velhos hoje são fisicamente mais fortes e mais capazes cognitivamente do que pessoas da mesma idade em gerações passadas. Alguém com 70 anos em 2022 tem a mesma capacidade cognitiva do que uma pessoa de 53 anos em 2000.
- Não só a capacidade cognitiva. Testes de força e funções pulmonares também mostraram que os setentões estão com o mesmo fitness de uma pessoa de 56 anos de 25 anos atrás.
Um filme de 2015 soube captar essa realidade uma década antes do relatório do FMI: O Estagiário. No filme, a dona de uma startup em ascensão (Anne Hathaway) resolve contratar um idoso (Robert De Niro) para preencher uma das cotas de caridade e correção política.
O “velhinho” começa seu trabalho como objeto de curiosidade na empresa. Mas logo vai mostrando o valor de sua experiência, disciplina e capacidade de diplomacia. Tudo o que os jovens da empresa não possuem.
1,6 bilhão de idosos
Voltando ao relatório do FMI: “Um envelhecimento mais saudável poderia continuar a impulsionar a oferta de mão de obra, prolongando a vida útil e melhorando a produtividade dos trabalhadores mais velhos, oferecendo um ponto positivo em meio à ascensão da economia prateada.”
Existe um senão nessa nova realidade: “A máxima ‘70 são os novos 50’ se aplica principalmente a indivíduos com maior escolaridade”, lembra o economista holandês Charles Kalshoven. Ele acrescenta: “[Aplica-se] mais a países ricos do que a países emergentes e mais a áreas urbanas do que rurais. É importante ter isso em mente. Mas para aqueles que podem e querem, sim, é bom, e a economia e a sociedade se beneficiarão disso. Certamente não custa nada tornar o trabalho o mais atraente possível por mais tempo”.
Em outras palavras: para países de economia estagnada e população pobre, essa constatação do FMI não faz muita diferença. O objetivo do estudo é colocar a questão do envelhecimento numa perspectiva positiva. Fazer com que as sociedades aproveitem esse novo fenômeno para enriquecer seus países e tornar a vida de todos — jovens e idosos — melhor.
Segundo o FMI, indivíduos acima de 60 anos compunham 15% da população mundial em 2023. Essa proporção pode quase dobrar até 2100 — alcançando 28%. Até 2050, a população mundial acima dos 65 anos deve atingir 1,6 bilhão. Uma em cada seis pessoas vai estar nesse grupo “prateado”.

As novas regras do jogo
Até algumas décadas atrás, o envelhecimento da população era considerado um fator negativo. “Velhos” seriam uma parcela de desocupados, sangrando o país através da aposentadoria e exigindo recursos médicos cada vez maiores.
A nova realidade mostra os “prateados” trabalhando ativamente, gerando riqueza e aproveitando um fator que os jovens não possuem — experiência e conhecimento acumulado. E a patente melhora da situação de saúde dessa faixa etária, graças aos avanços da ciência e da medicina, indica uma menor necessidade de atendimento médico.
“Melhor saúde significa melhores resultados no mercado de trabalho”, continua o relatório do FMI. “Ao longo de uma década, a melhora cumulativa nas capacidades cognitivas experimentada por alguém com 50 anos ou mais está associada a um aumento de cerca de 20 pontos percentuais na probabilidade de permanecer na força de trabalho. Também está associada a seis horas adicionais de trabalho por semana e a um aumento de 30% nos rendimentos. Tudo isso poderia atenuar o impacto do envelhecimento sobre o crescimento”.
Os economistas Bertrand Gruss e Diaa Noureldin, também do FMI, apresentaram um plano para reverter uma situação que hoje parece insolúvel: as populações estão envelhecendo e os planos nacionais de aposentadoria estão ficando inviáveis porque não há recursos para amparar tantos idosos — que vivem cada vez mais.
A ideia de Gruss e Noureldin: esticar a idade mínima para aposentadoria e preparar melhor os idosos para permanecerem ativos no mercado de trabalho. Seria mais racional para a estrutura econômica. E aumentaria o crescimento da economia global em 0,6% nos próximos 25 anos.
122 anos de idade
Parece cruel com os “velhinhos”: tirar anos de aposentadoria de suas vidas e fazer com que continuem trabalhando sem parar. Tudo depende de se encarar essa nova realidade com equilíbrio e bom senso.
Existe um fato incontestável: estamos vivendo mais. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, em 2020, a idade média era de 72 anos. (Era de 52 anos em 1960; 30 anos no ano 1000).
Hoje está ficando raro encontrar quem morra antes dos 80 anos de idade — a não ser, é claro, que tenha uma doença grave. Chegar aos 100 anos já não é mais uma raridade. A pessoa viva mais velha do mundo é a britânica Ethel Caterham, que hoje tem 115 anos. A francesa Jeanne Calment chegou aos 122. A brasileira Lucile Random morreu com 118, em 2023. Detalhe: as 20 pessoas conhecidas que mais viveram eram mulheres.
E por que vivem mais? Porque a medicina deu saltos, as pessoas se cuidam mais, com recursos melhores, e, ironicamente, trabalham mais. Aquela imagem de idosos em casas de repouso olhando passivamente para um aparelho de TV é um resumo do que a gente fazia de errado. Condenar pessoas a desligar o cérebro esperando a morte chegar é o caminho para o envelhecimento doentio.
Qualquer geriatra pode dizer que os idosos estão vivendo melhor justamente porque se mantêm ativos, de corpo e cérebro. É um círculo virtuoso: quanto mais atividades realizam, mais saudáveis ficam — e podem produzir ainda mais.

O fator tecnológico
Existe outro fator que tende a tornar a vida dos idosos ainda melhor: a tecnologia. Com a inteligência artificial, computadores e celulares viraram um cérebro complementar. Problemas comuns do envelhecimento são solucionados com aplicativos: falhas de memória, desorientação, dificuldade de comunicação e transporte e tantos outros detalhes. Por isso, a intimidade com a tecnologia deve fazer parte da preparação para uma velhice melhor.
Passados 35 anos desde que meu pai se foi, aos 62 anos, eu cheguei aos 72 independente, trabalhando todos os dias na Oeste e tocando mais uma penca de projetos independentes quando volto para casa.
O mundo mudou muito desde aquele dia triste de 1990. Aqui estou eu, cuidando da saúde, agitando a vida e esperando que meus 80 anos sejam os novos 60.
dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi
Leia também “Streaming sem fim”




Ótimo texto Dagomir. Gosto de suas reflexões.
Parabéns!
Meu caro DAGO eu estou com 50 anos, faço atividades físicas de domingo a domingo e se depender de mim, quero chegar aos 100 anos. O importante é não parar, sempre se manter ativo e com algum objetivo em mente.
Então, com 83 posso dizer que estou com 63. . Genial seu texto.