publicidade
Foto: Shutterstock
Edição 284

Chega de culpar os britânicos pelo passado

Um curso da Receita Federal sobre a "culpa de ser britânico" revela que somos uma nação dominada pela autoaversão

Veio à tona que funcionários públicos da Receita e Alfândega de Sua Majestade (HMRC) participaram, na semana passada, de um seminário de uma hora sobre a “culpa de ser britânico”. O evento ofereceu à equipe a oportunidade de explorar “o peso emocional da história colonial”, bem como “a complexidade emocional de ser do Sul da Ásia e britânico”.

Depois de realizar uma primeira sessão on-line que teve repercussão pública negativa, a HMRC decidiu cancelar o seminário. Setores da mídia chamaram isso de “vitória sobre o woke“, mas é pura ilusão. Como disse um porta-voz da HMRC, “este evento foi cancelado em razão de o nosso foco total em atender aos clientes dia após dia”. A HMRC não rejeitou o conteúdo, apenas insinuou que o evento não deveria ter sido realizado durante o horário de trabalho.

Funcionários públicos da Receita e Alfândega de Sua Majestade (HMRC) participaram de um seminário sobre a “culpa de ser britânico” | Foto: Shutterstock

O seminário sobre a culpa britânica não foi algo fora do comum. De fato, nos últimos anos, a administração pública realizou muitos seminários, palestras e sessões de treinamento para funcionários, todos projetados para fazer com que a equipe sinta vergonha de sua própria nação.

Como defendo em [meu livro] The war against the past (“A guerra contra o passado”), essa tentativa de demonizar a história britânica desempenha um papel fundamental na guerra cultural. Vejamos os esforços dos ativistas para “descolonizar” o sistema educacional. Na conferência anual da Associação Nacional de Diretores Sindicais de Mulheres Professoras (NASUWT) em 2021, a ex-presidente Michelle Codrington-Rogers propôs uma moção instando as escolas a descolonizar cada disciplina do currículo escolar. No rescaldo dos protestos do Black Lives Matter, em 2020, ela afirmou que sucessivos governos priorizaram os “clássicos” por tempo demais. Era necessário um esforço crescente para “garantir a visibilidade negra” em todas as matérias, disse.

“Descolonizar o currículo” nunca se trata apenas de ampliar o material de leitura dos jovens. Trata-se de ensiná-los que a história de sua nação é singularmente deplorável. Esse objetivo foi explicitado nas diretrizes antirracismo emitidas pelo governo escocês aos professores em 2021. A introdução declarava: “Se você é socializado como branco, você cresceu em um mundo onde foi consistentemente informado pela cultura ao seu redor de que seu modo de vida é o modo correto, sofisticado e iluminado de ser.” Continua afirmando que essa visão de mundo deve ser desafiada, apesar da “reação defensiva” daqueles que se ressentem do rebaixamento de sua cultura nacional. A mensagem aqui é clara: se você quer ser visto como uma boa pessoa, é obrigado a sentir culpa pela conjuntura em que nasceu.

Michelle Codrington-Rogers | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Para aqueles britânicos que conseguem escapar ilesos do sistema educacional, dos anos de lavagem cerebral “descolonialista”, há um exército de especialistas prontos para “corrigi-los” quando adultos. Kehinde Andrews, professor de estudos negros na Birmingham City University, apareceu recentemente em um vídeo supostamente educativo no YouTube intitulado Britain Is a Colonial, Wicked Nation — Why I Refuse to Call Myself British! (“A Grã-Bretanha é uma nação colonial e perversa — por que me recuso a me chamar de britânico!”). Ele argumenta que muitos britânicos sofrem da “psicose da branquitude” e se recusam a aceitar que a Grã-Bretanha é, de fato, uma “nação perversa”.

Pessoas como Andrews querem nos fazer sentir culpados. Elas tentam retratar o Ocidente e os valores históricos e tradicionais da Grã-Bretanha como irrelevantes, na melhor das hipóteses, e tóxicos na pior. Eles querem nos incutir algo como vergonha nacional.

Mas o que esses “envergonhadores” não entendem é que a culpa perde todo o seu conteúdo moral quando é atribuída a pessoas que não são culpadas. Induzir as pessoas a se sentirem individualmente em falta pelo que aconteceu há várias centenas de anos é um comportamento de transferência freudiana. Na verdade, aqueles mais devotados a instigar um sentimento de culpa nacional evitam lidar com os reais desafios do nosso tempo.

O que precisamos agora é de uma abordagem da história que respeite a distinção entre passado e presente — uma que nem leia a história de trás para frente, nem a transfira para o presente. O povo britânico tem sido alimentado por tempo demais com uma dieta de autoaversão. Agora, a vasta maioria já está farta.


Frank Furedi é diretor-executivo do think tank MCC-Bruxelas.

Leia também “A degradação do Holocausto”

Leia mais sobre:

3 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Queria eu que o Brasil tivesse sido colonizado pelos britânicos lá trás na história.

  2. Alberto Santa Cruz Coimbra
    Alberto Santa Cruz Coimbra

    Artigo bom, mas é uma pena que seja tão curto. Vivemos uma época em que teorias acadêmicas que deveriam ser postas em discussão são tidas como verdade absoluta e, mais do que isso, passam a ser impostas a todos, na tentativa de gerar pensamento hegemônico, que não deixa espaço para contraditório. O mesmo acontece com a “Critical thinking Theory”, que DEVERIA ser a discussão entre duas correntes ou mais de pensamento antagônicos e depois discutidos em ambiente acadêmico. Jamais uma teoria deveria ser tida como absoluta fora do ambiente acadêmico e tornada uma imposição de vida às pessoas. Contraria a definição mesma de universidade, que seria o ponto de encontro da universalidade de idéias. Vai entender.

  3. Jaime Moreira Filho
    Jaime Moreira Filho

    Ótimo artigo. Mostra que tem gente estranha em todos os lugares. A pergunta: os ” envergonhadores “, nasceram, moram no Reino Unido. Deveriam sumir do Reino Unido sé aí e “tão estranho e contrário aos seus pensamentos. Parece que em cada país tem uma turma “para encher a paciência dos outros”. Pessoal vamos melhorar o mundo : tratar bem todas as pessoas e todos os animais. Só isso basta.

Anterior:
70, os novos 50
Próximo:
A nova onda de políticos socialistas vai trazer crise, não mudança
publicidade