O movimento político conhecido como Revolução Americana nunca me pareceu ter sido realmente uma revolução; pelo menos não quando comparado a outras revoluções como a Gloriosa (na Inglaterra), a Francesa, de 1789, ou a Russa, de 1917. A Revolução Americana sempre pareceu mais um movimento de independência. Joseph Ellis, em seu livro A Causa [1], deixa claro que nem isso ela era — pelo menos no início.
No começo, tratava-se apenas de uma rebelião, motivada pela recusa das 13 colônias inglesas, espalhadas pelo litoral nordeste da América do Norte, em obedecer a determinações da Inglaterra que os colonos consideravam abusivas. A primeira foi a proclamação da Coroa britânica de 1763, que anunciou a criação de uma fronteira invisível a oeste da cordilheira dos montes Apalaches. Nenhum assentamento seria permitido além daquele ponto, com o objetivo de proteger as tribos nativas. A essa proclamação seguiram-se três atos do Parlamento: a Lei do Açúcar, de 1764, a Lei do Selo, de 1765, e as Leis de Townshend, de 1767. Essas determinações respondiam à necessidade de aumentar a arrecadação da Coroa para equilibrar as finanças, afetadas pelos gastos com a Guerra dos Sete Anos, na qual a Inglaterra enfrentara a França. Algumas das batalhas dessa guerra haviam sido travadas em solo norte-americano, onde colonos e soldados ingleses enfrentaram os franceses e seus aliados índios. Ironicamente, um dos oficiais americanos que se destacou na guerra por sua inteligência e bravura chamava-se George Washington.
Essas medidas de cobrança de impostos tinham origem em decisões do Parlamento Britânico. Depois de idas e vindas, decidiu-se pela criação de um imposto sobre as importações de chá da Inglaterra, feitas pelas colônias. A crescente insatisfação entre a liderança local levou um grupo de colonos, mal disfarçados de índios, a invadir três navios britânicos ancorados no porto de Boston e jogar no mar uma carga milionária de chá. O episódio ficou conhecido como a Festa do Chá de Boston (“Boston Tea Party“). O Parlamento britânico reagiu aprovando uma série de medidas conhecidas como Atos Coercitivos e determinando a ocupação militar do estado de Massachusetts, principalmente da cidade de Boston.

Essa ocupação foi considerada inaceitável pelas outras 12 colônias, que se mobilizaram em defesa da colônia ocupada. Foi convocada uma assembleia que ficou conhecida como Congresso Continental, formada por representantes das colônias, com o objetivo de coordenar uma resposta. Ao mesmo tempo, foram criados centenas de comitês de segurança e correspondência em todas as colônias, os quais formaram uma rede de comunicação e mobilização. A primeira decisão das colônias foi a declaração de um boicote aos produtos ingleses. Os comitês de segurança passaram a fiscalizar aqueles que descumpriam as regras do boicote; essas pessoas sofriam pressão social, coerção e até, em muitos casos, expulsão de suas moradias.
A intenção original dos rebeldes não era se separar da Inglaterra, declarar independência ou estabelecer uma forma nova de governo. O objetivo era apenas reafirmar os direitos que eles acreditavam possuir como ingleses, herdeiros da Magna Carta e da Revolução Gloriosa. Essa consciência cívica era fruto de um interesse geral da população pelo debate de ideias, impulsionado pelo consumo de livros e panfletos, que formavam as “redes sociais” da época. O contraste do nível cultural das colônias inglesas com as colônias de outros países da época e até com a situação atual dos próprios Estados Unidos é gritante: a colônia da Nova Inglaterra, por exemplo, tinha uma taxa de alfabetização de mais de 90% da população. Por isso, uma obra seminal como o panfleto Common Sense (“Senso Comum”) de Thomas Paine vendeu mais de 500 mil cópias, o que, em proporção à população, seria hoje equivalente a uma tiragem de dezenas de milhões de exemplares. As ideias de liberdade, autonomia e direitos estavam no ar e faziam parte do zeitgeist das colônias.

Um aspecto curioso desse episódio é que todas as determinações britânicas que afrontaram os colonos — tanto as primeiras, que criaram impostos, quanto as medidas coercitivas que as seguiram — foram aprovadas pelo Parlamento, seguindo todo o devido processo legal. É verdade que o rei George III, movido por uma interpretação equivocada dos acontecimentos e por seu apego à ideia de que a perda das colônias americanas seria desastrosa, assumiu desde o início uma posição intransigente. É verdade também que o rei usava a verba pessoal, à qual tinha direito, para comprar o apoio de parlamentares e assim formar uma maioria, pronta para responder às reivindicações dos colonos americanos com intolerância.

Ao contrário do que frequentemente imaginamos, as colônias britânicas na América do Norte estavam longe de formar um grupo homogêneo. Como explica Friedrich Gentz [2]:
As formas internas de governo dessas colônias eram tão variadas quanto as circunstâncias em que foram fundadas ou formadas. Algumas das mais importantes haviam sido concedidas como propriedade hereditária a pessoas privadas, de modo que essas pessoas e seus herdeiros podiam governá-las inteiramente como quisessem, e mantinham apenas uma dependência nominal da Coroa. Dessa forma, Maryland foi concedida ao lorde Baltimore (1605-1675); Carolina do Norte e do Sul, ao lorde Clarendon (1609-1674); do mesmo modo, a Pensilvânia e Delaware pertenceram à família do célebre Penn. Outras, como New Hampshire, Nova York, Nova Jersey e Virgínia, eram chamadas de províncias reais, e nelas o rei era considerado o soberano imediato. Por fim, havia uma terceira classe de colônias, que eram chamadas de privilegiadas, nas quais o poder do monarca era limitado pelas cartas originais de concessão. Esse era o caso de Massachusetts, Rhode Island e Connecticut.
Essa diversidade de formação explica a diversidade encontrada hoje quando se considera os Estados que formam os Estados Unidos da América. O nome do país não é acidental.
Entre 1774 e 1776, o movimento americano permaneceu apenas uma rebelião. Foi a opção inglesa pelo enfrentamento que não deixou alternativa aos colonos, a não ser declarar independência em 1776.
A partir desse ponto já não poderia mais haver qualquer retorno.
[1] ELLIS, JOSEPH. A Causa: A Revolução Americana e Suas Divergências 1773-1783. LVM, Clube Ludovico, 2024.
[2] GENTZ, FRIEDRICH. Revolução Americana Versus Francesa. LVM, 2025, p.59.
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Ótimo assunto, Motta.
Absolutamente fantástica a história de formação dos Estados Unidos da América. Sinceramente eu me considero um americano de alma, de tanto que eu admiro esse lugar e principalmente esse povo guerreiro.