No dia em que Miguel Uribe Turbay, senador e pré-candidato à presidência da Colômbia, foi baleado, ele discursou contra o governo esquerdista do presidente Gustavo Petro. Além da inflação e do déficit público, a violência voltava a ser tema dominante, menos de dez anos depois dos acordos entre o governo e o crime organizado, encabeçado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Turbay, do Centro Democrático, de direita, sabia que o clima no país havia se deteriorado. Em agosto de 2023, apresentou, na Comissão de Acusações da Câmara dos Representantes, denúncia penal que acusava Petro, do partido Colombia Humana, de receber aportes financeiros de narcotraficantes na campanha presidencial de 2022, quando foi eleito.
Dois anos depois, em agosto de 2025, Turbay estava morto. Assassinado, aos 39 anos, com três tiros, por um adolescente que, segundo a polícia nacional, foi pago por grupos ligados a narcotraficantes. Até o momento, não há indícios da participação do governo no crime. Petro chegou a declarar que os autores eram mesmo narcotraficantes “dissidentes” das Farc.
Ele tentou, em vão, desviar a responsabilidade de sua política, ao ressaltar que mandaria tropas para combater os guerrilheiros nas regiões que, sob seu mandato, eles haviam retomado.
Em Cauca, Valle del Cauca, Huila, Caquetá e Nariño, a presença do Estado é limitada. Assim como era nos mais de 50 anos de conflitos, que deveriam ter sido encerrados com o acordo de paz de 2016, no governo de Juan Manuel Santos, do Partido Social de Unidade Nacional, de direita.
As palavras de Turbay, naquele comício improvisado no Parque El Golfito, em Bogotá, não eram apenas proféticas. Denunciavam o que já se tornara evidente: o narcotráfico retornou com força, enquanto Petro insiste na ideia ilusória de Paz Total, com vistas às eleições de 8 de março de 2026.
Por essa política, ele sonha inserir os guerrilheiros e colocar o acordo finalmente em prática. No entanto, muitos deles já estão reorganizados em células criminosas no interior do país.
Enquanto Turbay agonizava no hospital, depois de ter sido baleado em junho, essa nova guerrilha criminosa voltava a semear terror. Em 21 de agosto de 2025, ações coordenadas deixaram um rastro de destruição: um helicóptero da polícia foi derrubado por um drone em Amalfi, Antioquia, matando 12 policiais e ferindo outros quatro; e, em Cali, um carro-bomba explodiu em frente a uma base militar, deixando dezenas de mortos e feridos.
Ilusão total
Os grupos armados ilegais, dissidências das Farc, como o Estado Mayor Central (EMC) e a Segunda Marquetalia, além do Exército de Libertação Nacional (ELN) e do Clan del Golfo, formado por paramilitares, somam hoje quase 22 mil integrantes.
O Clan del Golfo chegou até a negociar uma aproximação com o governo Petro, mas as conversas estão paralisadas.
Iván Márquez, que foi chefe negociador da paz, é o líder da Segunda Marquetalia. Ele já foi o número 2 das Farc, e hoje está em guerra contra antigos aliados.
O acordo, além disso, não alcançou o ELN. A insuficiente repressão ao crime apenas fortaleceu o grupo, que consolidou seu poder na Venezuela e nas regiões de fronteira da Colômbia, relata a ONG Insight Crime, dos EUA.
Neste momento, a situação piorou. O grupo encontra resistência da Frente 33 (outra dissidência das Farc), que começa a ampliar sua influência. A violência, com isso, aumentou também entre os próprios narcotraficantes.
Os números atuais de criminosos superam os das Farc nos anos 1990. No auge, antes do acordo de paz de 2016, elas tinham cerca de 7 mil combatentes, segundo o Country Reports on Terrorism.

Enquanto Petro fala em Paz Total, a violência avança com indicadores alarmantes. Entre janeiro e junho de 2025, foram registrados 6,6 mil homicídios (alta de 3% em relação ao mesmo período de 2024) e 121 casos de sequestro (aumento de 12% no número de eventos e de 53% no número de vítimas, que passou de 129 para 198 pessoas, segundo a mídia local).
Os impactos humanitários também são devastadores. No primeiro semestre de 2025, mais de 130 mil pessoas foram deslocadas ou confinadas. Destas, 83 mil foram deslocamentos e mais de 50 mil confinamentos, de acordo com o relatório da Defensoría del Pueblo.
Para completar, cerca de 1,4 milhão de pessoas foram afetadas diretamente pela violência, aumento de mais de 300% em relação ao mesmo período de 2024, revelam dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha).
A morte de Turbay teve ainda componentes psicológicos. Episódios como este, ao longo da história do país, eram sinais do descontrole das forças de segurança. A Colômbia revive fantasmas. Entre os anos 1980 e 1990, auge da atuação do Cartel de Medellín e de seu líder, Pablo Escobar, milhares de políticos foram assassinados pelos narcotraficantes.

Entre os candidatos à presidência assassinados estão Jaime Pardo Leal (esquerda, Unión Patriótica – UP), em 1987; Luis Carlos Galán (centro-direita, Nuevo Liberalismo), em 1989; Bernardo Jaramillo Ossa (esquerda, Unión Patriótica – UP); e Carlos Pizarro Leongómez (esquerda, Alianza Democrática M-19), ambos em 1990.
Eles foram vítimas de uma violência sistemática contra candidatos. A morte de Turbay mostrou que o terror político retorna com brutalidade.
“A violência armada mudou: já não é uma guerra por poder, mas uma luta por rendas ilegais, territórios e populações… a Paz Total parece uma ilusão, os grupos armados aprenderam a atacar o Estado em suas vulnerabilidades mais visíveis, como a opinião pública e o calendário eleitoral”, declarou o analista político León Valencia, ex-guerrilheiro, no jornal El País.

De filho para pai
O analista político Alejandro Villanueva Bustos, da Universidade Pedagógica Nacional da Colômbia, reforça o impacto na sociedade: “O pulso político e a atenção estão centrados na segurança. O país percebeu que a segurança foi deixada de lado, e esse debate será central nas eleições presidenciais.”
Ele acrescenta: “A morte de Miguel Uribe Turbay foi um golpe que sacudiu o país. Existe uma tradição sombria na Colômbia de assassinatos de candidatos; esse assassinato certamente vai retomar as bandeiras da direita nas próximas eleições.”
Bustos também responsabilizou governos anteriores, como o de Iván Duque, do Centro Democrático, por, segundo ele, não cumprirem as promessas de colaborar com a reinserção dos narcotraficantes que deixassem a guerrilha.
“Mais de 300 ex-combatentes das Farc foram mortos nos anos seguintes à assinatura do acordo de paz”, ressalta o analista. “Isso fez alguns ex-guerrilheiros, que tinham assinado os acordos, voltarem a pegar em armas nas montanhas, no campo e na selva colombiana. A esse movimento se chamou dissidências das Farc, que voltaram a ocupar territórios e a construir uma hegemonia militar em certas províncias e periferias.”
O próprio Turbay carregava a memória de uma família marcada por política e tragédia. Sua mãe, Diana Turbay, jornalista, foi sequestrada e assassinada em 1991.
Agora, o parque onde ele morreu é local de homenagens. O ex-presidente Álvaro Uribe Vélez visitou o local do atentado para prestar solidariedade e reforçar sua crítica à atual administração. O pai de Turbay, Miguel Uribe Londoño, ex-senador e ex-líder do partido, decidiu assumir a candidatura presidencial em lugar do filho.
O objetivo é dar continuidade à agenda de Turbay e transformar a indignação popular em força política. A poucos meses das eleições, os colombianos olham para o futuro com desconfiança. Temem que o pesadelo do passado se repita.

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O articulista insiste em chamar o Uribe de Turbay. Por que? E o mesmo que chamar o Bolsonaro de Messias ou o Mula de Inácio.