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Palestinos se concentram próximos à fronteira com o Egito em meio ao conflito em Gaza | Foto: Montagem Revista Oeste/REUTERS/Reprodução
Edição 287

A grande hipocrisia

Nações árabes e ocidentais esperneiam, mas viram as costas para os palestinos enquanto pressionam Israel por uma solução impossível

Conta o norte-americano John Spencer, especialista na área militar e em segurança nacional, que “nunca um país em guerra forneceu alimentos, vacinas, água e remédios para uma população sob controle do inimigo. Isso não aconteceu na Segunda Guerra Mundial, na Guerra do Vietnã e em qualquer outro conflito. Além disso, a lei internacional obriga a fornecer apenas acesso e facilitar a entrada de ajuda humanitária. No entanto, é Israel quem está pagando a conta, com os Estados Unidos, para fazê-lo por meio da Gaza Humanitarian Foundation, para impedir que o Hamas desvie os alimentos antes que eles cheguem à população”.

Nada disso tem impedido a condenação mundial de Israel e as acusações de genocídio, campanha intencional de fome ou assassinatos premeditados de crianças e mulheres. Apesar de as imputações nunca terem sido provadas, além de usarem imagens falsas (como a da campanha da fome, que exibe crianças com doenças genéticas) ou informações fabricadas (como a de que um diretor da ONU afirmou que 14 mil bebês morreriam em Gaza nas 48 horas seguintes), Israel sofre com a degradação de sua imagem. Já a população palestina paga o preço do prolongamento da guerra.

Notícia publicada na BBC (20/5/2025) | Foto: Reprodução/BBC

Ironicamente, o mundo, com suas portas fechadas para refugiados palestinos e a pressão permanente focada em Israel — e nunca no Hamas —, colabora diretamente com a estratégia do grupo terrorista. “Não houve outra situação na História em que os civis foram impedidos de fugir do país, com exceção, talvez, de algum cerco específico em alguma guerra distante. Civis deslocavam-se o tempo inteiro durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo”, explica o historiador e jornalista Haviv Rettig Gur em seu podcast Ask Haviv Anything. Dois casos recentes: 5,2 milhões de ucranianos deixaram o país desde o início da guerra contra a Rússia e, na guerra civil na Síria, 6 milhões de civis encontraram refúgio em países como Turquia, Líbano, Jordânia e Iraque.

Haviv explica como a “prisão” dos palestinos em Gaza garante o sucesso da estratégia do Hamas. “Os terroristas se escondem em 500 quilômetros de túneis e, acima deles, oferecem a população palestina em sacrifício — e a condenação internacional a Israel gira justamente em torno da perda de vidas.”

Há, aparentemente, uma dificuldade global, ou talvez uma clara demonstração de hipocrisia, em compreender que toda a estratégia do Hamas foi construída para que o grupo terrorista sobreviva às custas do sofrimento dos civis. Afinal, o grupo entende a diferença de sua força em relação ao exército israelense e, portanto, não luta para vencer a guerra no campo de batalha, mas, sim, no campo da narrativa e da consequente pressão internacional sobre Israel.

Mundo fecha portas para refugiados palestinos enquanto pressiona Israel e ignora o papel do Hamas | Foto: REUTERS/Ramadan Abed

O muro intransponível do Egito

Ao informar que não permitiria a entrada de nenhum palestino por sua fronteira já no início da guerra, o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, agiu contra a lei internacional. O país é signatário de diferentes convenções e compromissos que o obrigam a oferecer asilo aos vizinhos. Com Gaza, ele compartilha uma fronteira de 14 quilômetros de extensão, algo que é desconsiderado na campanha de demonização de Israel.

O fechamento completo da única porta de saída de um país nunca havia acontecido antes. “Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, 5 milhões de ucranianos fugiram pelas fronteiras com a Polônia, Romênia e outros países”, relata John Spencer. “Devido à guerra civil na Síria, 6 milhões de pessoas fugiram desde 2011, a maioria para a Turquia, o Líbano e a Jordânia, mas muitos milhares também para países europeus. Os palestinos, no entanto, estão presos sob o controle do Hamas”.

Como o presidente egípcio al-Sisi explicou sua decisão ao mundo árabe? Afirmando que a permissão de passagem “acabaria com a causa palestina”. “Este é um exemplo de moral dúbia. Não há uma única razão para que a recepção desses refugiados não seja uma demanda do mundo. Já deveria ter sido tema de discussões na ONU há tempos”, comenta Spencer. “Somente palestinos endinheirados conseguiram passar pela fronteira do Egito, por ‘taxas’ entre US$ 2 mil e US$ 10 mil por pessoa. Cem mil conseguiram fazê-lo. É uma enorme hipocrisia”.

“Onde estão os árabes? Não é possível encontrá-los em lugar nenhum. Seus líderes enfiaram suas cabeças na areia”, afirmou Fawaz Gerges — ativista abertamente anti-Israel —, professor de relações internacionais na London School of Economics, em entrevista à CNN.

Na Jordânia, o reinado hachemita enfrenta dificuldades frente à sua volumosa população palestina migrada entre 1947 e 1967. Além disso, em 1970, milícias palestinas tentaram derrubar a monarquia do rei Hussein, gerando um conflito que resultou em 3,4 mil palestinos mortos e dezenas de milhares expulsos.

No Líbano, a presença palestina levou à guerra civil, que durou 15 anos. Na Síria, são tolerados, mas não integrados à sociedade. “Mantê-los segregados e sem um Estado tornou-se uma estratégia entre os países árabes — e Israel permanece com o problema eterno dos milhões de refugiados que exigem o direito de retorno a cidades israelenses como Haifa ou Jaffa”, afirma Rettig Gur.

Importante frisar que, por outro lado, há diásporas palestinas bem estabelecidas em diferentes países, a exemplo do Chile, da Alemanha e até mesmo do Brasil.

O jogo árabe

Eitan Shamir, diretor do Begin-Sadat Center for Strategic Studies (Besa), afirma que “não há um bloco árabe, cada país tem seus próprios interesses. O que há em comum entre eles é que todos tiveram grande dificuldade em aceitar a existência de um Estado soberano judaico no Oriente Médio. Mesmo que identificados com a causa palestina, eles nunca tiveram interesse em colaborar de nenhuma forma. Ao mesmo tempo, sempre usaram esse tema para desviar a atenção do público de seus próprios problemas internos”.

Segundo Shamir, até mesmo no confronto iniciado pelos países árabes contra Israel após a Partilha da Palestina, o interesse era territorial, não ideológico. “O Egito conquistou Gaza, enquanto a Jordânia anexou a Margem Ocidental. Novos territórios eram também o objetivo do Líbano e da Síria”. Interessante notar que, apesar de o Egito ter governado Gaza até 1967, em nenhum momento aventou criar ali um Estado Palestino — o mesmo que hoje se exige de Israel.

Já a Arábia Saudita coloca o “encaminhamento” para a criação do Estado Palestino como condição para ingressar nos Acordos de Abraão. Novamente, não por ideologia, mas, segundo Shamir, “para não serem acusados de prejudicar a causa, o que poderia gerar revoltas internas”.

No jogo da hipocrisia, poucos vencem as nações árabes. “Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional do ex-presidente americano Joe Biden, disse em uma entrevista à TV que, em reuniões privadas, líderes árabes pediram ao mandatário que não freasse Israel, mas evitasse crises humanitárias em Gaza, temendo que elas desencadeassem a revolta em suas ruas. Ou seja: eles permitem que a mídia local incite a violência contra Israel sempre que conveniente e, por outro lado, entendem perfeitamente o perigo real representado pelo Hamas”, finaliza Shamir.

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Líderes árabes pediram a Biden que não freasse Israel enquanto usavam a mídia local para incitar contra o país, aponta Shamir | Foto: Reprodução/Twitter/X

Hipocrisia no Leste e no Oeste

“Governos árabes temem turbulências que gerem instabilidade em seus regimes. Para eles, a guerra de Gaza é um tema de política interna, não externa. O conflito é uma dor de cabeça para o Egito e, por isso, eles procuram uma solução para que ele não espirre em seu território. Como não dispõem de uma solução viável para oferecer, criticam os israelenses e escondem seu pavor do Hamas. E tudo isso é muito frustrante para Israel”, afirma Ben-Dror Yemini, autor do livro A Indústria de Mentiras.

Países ocidentais não causam menos frustração a Yemini: “Muitos deles, como a França, importaram os islamistas para seus territórios”, exemplifica. “E enquanto a Alemanha tenta conter seus habitantes árabes, na Inglaterra a população já não aguenta as demonstrações pró-Hamas — e não sei se ainda é possível mudar essa situação”.

Ainda assim, França e Inglaterra, além da Austrália e do Canadá, divulgaram que anunciarão neste mês o reconhecimento do Estado Palestino sem se preocupar com o fato de os palestinos não contarem com uma liderança política unificada. “Pior ainda: a Autoridade Palestina, reconhecida internacionalmente como governante da Cisjordânia, perdeu sua legitimidade junto à população”, escreveu Imad K. Harb, diretor de Pesquisa do Arab Center em Washington e um severo oponente de Israel.

O jogo duplo do Catar

Enquanto todos contam com o Catar para alcançar um acordo em Gaza, jornalistas cataris ligados ao governo clamam pelo sequestro de mais israelenses. “Teremos sucesso se adicionarmos novos ratos à contagem dos heróis das brigadas do Hamas”, escreveu Jaber Salem Al-Harmi, escritor catarense, no jornal Al-Sharq, uma espécie de porta-voz do governo, em 25 de agosto. Os ratos, no caso, são os soldados israelenses. Já a Al Jazeera, conglomerado midiático governamental, é ainda mais feroz em árabe do que em inglês.

“Se o Catar realmente quisesse colaborar para o fim da guerra, ameaçaria os líderes do Hamas que vivem em Doha com prisão, deportação ou apreensão de bens. É preciso ouvir o que os cataris estão dizendo publicamente em árabe, e não o que se ouve em reuniões a portas fechadas em inglês”, escreveu Bassam Tawil, jornalista muçulmano baseado no Oriente Médio.

Apesar de contar com apenas 300 mil cidadãos nativos, o Catar exerce influência desproporcional na geopolítica mundial. Conta com um exército pequeno e, ainda assim, é o terceiro maior comprador de armamentos do mundo, o segundo maior comprador dos EUA e hospeda a base aérea americana de Al Udeid, a maior fora dos Estados Unidos. Nela, o Catar está neste momento investindo US$ 8 bilhões em troca de um contrato que garante sua permanência ali até 2034.

“Em janeiro de 2022, Al Thani tornou-se o primeiro líder do Golfo Árabe a se reunir com o presidente Biden. Juntos, anunciaram um acordo de US$ 20 bilhões com a Boeing. Em seguida, o Catar recebeu o status de Aliado Importante Extra-Otan, garantindo acesso privilegiado à cooperação militar e à tecnologia avançada dos EUA”, descreve Yoel Guzansky, pesquisador sênior e diretor do Gulf Program no Institute for National Security Studies (INSS).

Tudo isso força Jerusalém, que tem plena consciência do contrassenso do Catar, a ter cautela para evitar ferir os interesses americanos, ainda que seus objetivos sejam absolutamente conflitantes com os de Doha: enquanto o primeiro luta para remover o Hamas de Gaza, o Catar — que já destinou a Gaza US$ 1,8 bilhão ao longo dos anos — quer mantê-lo como força governante. Agora, fica fácil imaginar o quanto intriga os israelenses pensarem como o Mossad cumpriria a promessa do governo israelense de eliminar os líderes do Hamas no exterior quando muitos deles vivem abertamente uma vida luxuosa em Doha.

Essa guerra, que está transformando muitos aspectos geopolíticos dentro e fora do Oriente Médio, pode servir, também, para derrubar algumas máscaras. O que, quem sabe, pode ser um ponto de partida para a estabilização da região.

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