Num futuro não muito distante, o momento atual será conhecido como o da democracia desossada. Vamos deixar logo aqui a dica para os historiadores: assim como se aprende sobre a Antiguidade, a Idade Média, a Inconfidência Mineira, a Revolução Industrial, a Guerra Fria etc., o período atual estará nos livros como a era da Democracia Invertebrada.
O fenômeno se concretizou através de uma espécie de engenharia genética operada pela imprensa. A partir da virada do século 21, foi crescendo o interesse em diversos setores da sociedade por uma democracia diferente. Por uma democracia seletiva. Diferenciada. Retocada. Aprimorada em laboratório. Uma espécie de democracia VIP. Uma democracia para poucos.
O problema é que a base da democracia é o povo. E o povo é muita gente. Como fazer uma democracia VIP, geneticamente melhorada, com esse monte de cabeça querendo entrar na festa? Festa cheia demais fica ruim, por melhor que seja a bebida. Aí surgiu a ideia genial de deixar o povo do lado de fora.

Ufa. Agora, sim. Um jazz baixinho, uma bossa nova, só gente culta falando várias línguas e usando grifes caras. Nada de muvuca barulhenta e suada. A democracia moderna é para poucos. Quem quiser entrar na festa que vá se refinar e fazer as amizades certas.
É por isso que, segundo os códigos atualmente observados pela imprensa tradicional, manifestações gigantescas como a do último 7 de Setembro não têm mais a menor importância. Os democratas de grife aboliram a significância do povo na rua. O que antes era a materialização mais evidente da ideia de democracia, hoje é um detalhe incômodo, uma aglomeração indesejável, algo que as manchetes ensaiadas precisam diminuir, maldizer ou negar.
Ou não tinha tanta gente, ou tinha, mas foi menor que alguma anterior, ou foi uma expressão preocupante do novo fascismo. Manifestação de rua hoje só pode ser considerada democrática se for um punhado de marmanjos treinados para quebrar tudo e incendiar geral. Aí são “ativistas” contra o fascismo e pela paz.
O povo pode se cansar de lotar a Avenida Paulista sem arregimentação de partido ou sindicato, pedindo liberdade de forma pacífica e vestindo as cores da bandeira nacional, que os democratas de laboratório não reconhecem. Os corregedores de passeata vão sempre dizer que eram 18 pessoas e meia, mais um cachorro vira-lata e três moscas-varejeiras — todos mal-encarados e com visíveis propensões autoritárias. A USP, o DataFolha, o Jornal Nacional, o UOL, a BBC e cia. vão jurar de pés juntos que aquilo não é o povo expressando a sua vontade.

E se estiverem em apuros, os negacionistas passam a chamar o povo de “direita”. É mais um truque bom, porque “direita” pode ser o que eles quiserem — inclusive os que decretaram o AI-5. Aí já dá pra chamar o povo de autoritário, quem sabe de fascista.
Você não pode mais ir para as ruas protestar contra corruptos e abusadores de poder. Alguém sempre irá dizer, em seu nome, sem te pedir procuração para tal, que você é um direitista, um bolsonarista ou um conservador. E se você não for pertencente a nenhum grupo ou facção e estiver apenas buscando liberdade, esquece. Saiba que agora liberdade tem sobrenome ideológico. E com esse sobrenome, os democratas transgênicos embaralham a mensagem — e te transformam em ovelha de um rebanho qualquer. Você é tudo, menos povo.
Assim surgiu a Democracia Invertebrada — que os historiadores do futuro próximo vão identificar facilmente como a sujeição da sociedade à vontade dos espertalhões. Sem ossatura dá para moldar a massa ao gosto do freguês. O importante é continuar chamando de democracia. Antidemocráticos são os outros.
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Excelente artigo. De fato, corresponde à realidade do atual estado de coisas e, possivelmente, ao do porvir — se nada for feito.
Sou bolsonarista. Enquanto os canhotos acham que incomoda nos chamar assim.
Muito bom! O Fiuza não consegue deixar a ironia! Kkkkk E esta certíssimo!
Adoro G. FIUZA , me lembra da minha infância e bota anos nisso GUILHERME TEL , MELHORADO E COM DISCURSO QUE ACREDITO TODOS ENTENDAM. A DEMOCRACIA INVERTEBRADA SERÃO POUCOS A ENTENDER E OUTROS JÁ SE FORAM. MAIS É ISSO,POR ISSO NAO VEJO OUTRO MOMENTO DE TRUMP COM SEUS INTERESSES ( CELEIROS E PULMÃO DO MUNDO) E DEPOIS DO XINGAMENTO DO LULA O CHAMANDO DE FACISTA E A TAL 1° DesgrAMA MOSTRAR A ELON MUSK O 3° DEDO, NOS AJUDAR.
EU NÃO TENHO TANTOS BENS , MAIS SE OS TIVESSE E VALE MEU SALARIO, DEIXARIA PRO FIUZA, JA QUE A REVISTA OESTE que tenho arregimentar amigos desde 2022 PODE OSCILAR COM ESSES NOVOS MEMBROS QUE NAO SABEM O QUE E UM CEP. NÉ NÃO DELTAN e não tem PLANO B.
Fiuza representa muito bem , genialmente , o que Lacan disse : a função do xiste na psicanálise .
Fiuza é jornalismo na vêia
Fiúza, como sempre, um artigo inteligente, mordaz é único! Muito triste e verdadeira, a descrição do que se tornou a nossa Democracia!
Fiuza você é brilhante. Em poucas linhas escritas percorreu a história, o tempo do passado ao futuro, com seu jeito, um estilo original e inteligente. Obrigada
Fiúza escreve com precisao cirúrgica. O que faz de seu texto uma mensagem desoladora…
Brilhante
Seria muito mais engraçado se não fosse a mais pura tradução da verdade abominável que toma conta deste país, mas acaba sendo uma constatação da tristeza naqueles brasileiros que prestam.