O empresário Clériston Pereira da Cunha, de 46 anos, morreu na Papuda em 20 de novembro de 2023, depois de sofrer um mal súbito. Preso por causa do 8 de janeiro, faleceu após vários alertas de seus advogados sobre o estado de saúde delicado e de uma série de comorbidades que exigiam tratamento. O Clezão, como era conhecido, virou o maior símbolo do protesto de 2023 e ilustra o descaso do Supremo Tribunal Federal (STF) com os manifestantes nos âmbitos judicial e de direitos humanos.
Outros manifestantes também perderam a vida no decorrer do processo, mas seus casos foram ofuscados pelos sucessivos acontecimentos. É o que mostra o mais recente levantamento da Associação dos Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav). Segundo o trabalho, ao menos dez manifestantes já faleceram. São pessoas que passaram um bom tempo distantes das famílias, em condições “degradantes”, e que, mesmo de volta às suas casas, nunca mais foram as mesmas. Gente que morreu sem um julgamento justo, carregando a marca de uma detenção que lhes impôs dor até o fim de suas vidas.

Vidas interrompidas no 8 de janeiro
Embora Clezão tenha sido o único a vir a óbito nas dependências do sistema penitenciário brasileiro, outros manifestantes também morreram sob custódia do Estado, apesar disso ter ocorrido em prisão domiciliar. É o caso, por exemplo, de Antonio Marques da Silva, operador de máquinas de terraplanagem. O homem de 49 anos faleceu em Barra do Garças (MT), cidade onde vivia, em 29 de outubro de 2023. O estigma de “golpista” e as medidas restritivas, entre elas a tornozeleira eletrônica, levaram Silva a perder o emprego. Por isso, passou a sobreviver de bicos. Em um desses serviços, caiu de um telhado e se feriu gravemente na cabeça. Horas depois, teve um “choque neurogênico e traumatismo cranioencefálico grave”, informou o boletim médico divulgado pelo hospital à época.

Silva deixou uma viúva e sete filhos, sendo duas crianças pequenas, com contas para pagar, que se acumularam ao longo do período em que ficou detido em Brasília. Quando foi preso, ele fazia uso de dois medicamentos para controle de hipertensão arterial: losartana e hidroclorotiazida. Chegou à capital federal em 7 de janeiro, de ônibus, e se fixou nos acampamentos montados nas cercanias do Quartel-General do Exército. Embora não tenha nem sequer ido à Praça dos Três Poderes, como os demais, acabou preso pela polícia no QG, no dia seguinte ao quebra-quebra.
A terceira morte foi a do cuidador de idosos Giovanni Carlos dos Santos, de 46 anos. Assim como Silva, Santos faleceu durante um trabalho temporário, em São José dos Campos (SP), em janeiro de 2024. O homem caiu de uma altura de quase sete metros quando cortava os galhos de uma árvore. Desempregado também por causa de seu envolvimento no protesto, teve de recorrer à informalidade. Antes da manifestação, e posteriormente a ela, Santos cuidava de parentes, entre eles, o pai, que sofrera um acidente vascular cerebral. A enfermidade deixou o idoso com sequelas, necessitando de ajuda até mesmo para executar atividades comuns do dia a dia.

“Ele saiu da Papuda muito abalado emocionalmente, com 20 quilos a menos e sofrendo com problemas de saúde”, contou sua companheira, Maria Vilani Rodrigues. Segundo ela, Santos passava boa parte do tempo triste, tossia muito e fora diagnosticado com a quantidade de glóbulos brancos do sangue abaixo do normal. “Tanto que foi agendado para ele fazer um exame na medula para verificar a possibilidade de anemia ou câncer, mas não deu tempo”, disse, em alusão ao acidente. “O Giovanni não conseguiu mais trabalho como cuidador de idosos por causa das restrições de horário da tornozeleira eletrônica, e começou a fazer bicos para sobreviver”, relatou Maria.
Quando Santos morreu, sua família não tinha nem sequer condições para velá-lo. Dessa forma, um grupo de pessoas intitulado Núcleo Brasil em Evidência, que se formou para prestar assistência aos envolvidos no 8 de janeiro, reuniu doações para dar a Santos um funeral digno.
O caminhoneiro Eder Parecido Jacinto, 58, é outro que figura na lista dos que morreram sem o julgamento e a possibilidade de ver a anistia algum dia. Ele faleceu em março de 2024, em virtude de ferimentos por duas quedas do caminhão com o qual trabalhava. Eder foi acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de associação criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e dano qualificado pela violência e grave ameaça, com emprego de “substância inflamável”, contra o patrimônio da União e com “prejuízo para a vítima”. Desde a morte do homem, a família vem buscando privacidade, sobretudo pelo estigma negativo na cidade onde moram, e procura o “esquecimento”, disse um parente.

A sensação de medo é a mesma da família do técnico em radiologia Kleber Freitas, 44, encontrado morto na casa dos pais, em Borrazópolis (PR), em maio do ano passado. Ele sofreu um infarto. Um familiar, com receio de se identificar, atribui a fatalidade “à sensação de injustiça que ele tinha”, principalmente, por “não ver uma saída”. Freitas passou dois meses preso por ficar no QG. Ele respondia ao processo por incitação ao crime e associação criminosa e recebeu liberdade provisória em 13 de março de 2023 sob a condição de usar tornozeleira eletrônica com recolhimento domiciliar à noite e aos finais de semana. Freitas também cumpria, havia um ano e dois meses, as demais medidas cautelares exigidas por Moraes, o que o abalava emocionalmente. Das ordens judiciais, a tornozeleira era a pior, contou o familiar. Em uma solicitação ao STF, Freitas explicou, com declaração de próprio punho, que precisaria cuidar do pai aos sábados, domingos e feriados, e que sua presença era “indispensável”. No entanto, o requerimento dele não foi autorizado por Moraes.
Reparação histórica
Na noite desta quarta-feira, 17, a Câmara dos Deputados aprovou a urgência do Projeto de Lei da Anistia, abrindo caminho — finalmente — para que uma proposta seja votada diretamente em plenário. A medida recoloca o tema no centro do debate político, às vésperas do ano eleitoral, e pressiona o STF a enfrentar as consequências das prisões e condenações arbitrárias decorrentes do protesto de 2023.
Mesmo sem julgamento, Clezão e os demais continuam presentes. Suas mortes, longe de encerrar a história, transformaram-se em sinal de alerta e em bandeira empunhada por famílias enlutadas. Cada ausência pesa mais do que qualquer sentença escrita em papel timbrado, lembrando ao País que a verdadeira justiça não se encerra nos autos — e que, se no futuro próximo o STF decidir barrar a anistia aprovada pelo Congresso Nacional, carregará para sempre o fardo dos fantasmas daqueles que deixou morrer.

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Ótimo artigo Cristhyan, analisando a cronologia dos acontecimentos.
O STF matou a democracia e o processo legal para “salvar” a democracia e para isso usou cidadãos comuns sem nenhum critério.
Estas tristes páginas das história já foram vividas por diversas nações e nunca imaginei que o Brasil mergulhasse neste pântano jurídico.
Ou o Senado toma as rédeas e assume seu papel como instituição ou o país corre o risco de se transformar em um Nepal de proporções imprevisíveis. A paciência da população uma hora chegará ao fim.