Nota: este artigo é o segundo de uma série que explora aspectos da formação e da história dos Estados Unidos da América.
“Sustentamos como evidentes por si mesmas estas verdades: que todos os homens são criados iguais; que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis; que entre estes estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”.
(Declaração de Independência, 4 de julho de 1776)
Inicialmente, a redação da Declaração de Independência das 13 colônias inglesas da América do Norte ficou a cargo de um grupo. O trabalho seria revisado por um comitê. Alguns membros do grupo, incluindo Benjamin Franklin, não queriam que seu trabalho fosse revisado por ninguém. Eles então delegaram a tarefa a Thomas Jefferson, que redigiu as famosas linhas que falam do direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade.
Vida, liberdade e propriedade eram a sequência proposta pelo filósofo John Locke. Em um voo de inspiração, Jefferson trocou “propriedade” por “busca da felicidade”. Essa permanece a parte mais inspirada e conhecida da declaração. O resto do texto era apenas uma lista das afrontas cometidas pelo rei George III contra os colonos. Constava também da declaração um parágrafo, depois removido pela comissão de revisão, em que Thomas Jefferson culpava o rei pela insistência em manter a escravidão africana.
Muito tempo se passaria entre a Declaração de Independência e o momento em que os Estados Unidos ganharam uma Constituição. Isso só foi acontecer em 1787. Nesse meio tempo, as colônias precisavam se livrar das tropas inglesas que ocupavam partes de seu território, principalmente a cidade de Nova York.
George Washington, um fazendeiro da colônia da Virgínia, que havia lutado contra os franceses na Guerra dos Sete Anos ao lado dos ingleses, recebeu o comando do chamado Exército Continental. Apesar do nome, o exército nunca passou de um grupo de homens maltreinados, mal-equipados e, muitas vezes, à beira da inanição, a maioria sem qualquer experiência de combate. No inverno de 1777 o Exército era um grupo de homens famintos e em farrapos, abrigados em barracos em meio à neve e ao gelo em Valley Forge, na Pensilvânia. Por muito pouco, a história da independência americana não terminou ali.

O enfrentamento da Inglaterra era feito também pelas milícias, grupos formados por cidadãos armados que se organizavam espontaneamente e ofereciam resistência e combate aos soldados ingleses e mercenários hessianos contratados pelo rei. Foi a ação combinada do Exército Continental e das milícias — que estavam em todos os lugares — que finalmente levaria o governo inglês a concluir que a conquista das colônias era um objetivo inviável.
Nem todos os colonos apoiavam a rebelião ou o movimento de independência. Da mesma forma que ocorreria no Brasil algumas décadas depois — na época de nossa (radicalmente diferente) independência — alguns colonos ingleses ficaram do lado do poder colonial: eram os lealistas. Muitos formaram suas próprias milícias, combatendo ao lado do exército inglês. Um aspecto terrível e pouco conhecido do conflito é que tanto as milícias rebeldes quanto as lealistas espalhavam destruição por onde passavam, confiscando estoques de comida, fuzilando colonos do lado adversário e cometendo saques e estupros. O mesmo comportamento foi registrado em unidades do exército britânico, especialmente aquela comandada por Benedict Arnold. Arnold se destacara como um dos mais brilhantes e corajosos generais do Exército Continental. Ressentido com a falta de reconhecimento de suas realizações, desertou dos colonos e se aliou ao inimigo britânico, recebendo o comando de uma unidade que deixou um rastro de terra arrasada pela colônia da Virgínia. Ciente do ódio que despertava, Arnold levava sempre duas pistolas carregadas, com as quais pretendia pôr fim à própria vida se corresse o risco de ser capturado pelo inimigo.
O Exército Continental ainda não era o exército dos Estados Unidos da América, porque esse país ainda não existia. O “exército” era apenas um corpo de combate provisório, criado pelas 13 colônias para resolver o que elas imaginavam que seria um problema temporário. As decisões conjuntas das 13 colônias eram tomadas pelo Congresso Continental, para o qual as colônias elegiam representantes. O próprio Congresso via o Exército com desconfiança, compartilhando com os governos das colônias o temor de que ele pudesse sair de controle e se tornar uma ameaça tão grande quanto o rei e os ingleses.
Dois movimentos passaram a acontecer simultaneamente. No campo militar, George Washington liderava seu exército improvisado contra forças regulares britânicas. Washington perdeu muitas batalhas, teve sua capacidade questionada diversas vezes e enfrentou um motim de soldados que, rebelados, exigiam pagamento atrasado. Washington enfrentou também uma tentativa de golpe planejada por um grupo de oficiais. Não é exagero dizer que a independência americana foi conquistada de derrota em derrota — com notáveis exceções — até a vitória final das colônias na batalha de Yorktown, na qual a participação do Exército Continental foi menor: a maior parte da luta foi conduzida por aliados franceses comandados pelo Conde de Rochambeau[1]. Não que faltassem coragem ou heroísmo aos soldados do exército; mas sempre faltou material de guerra, roupas e, principalmente, comida.

Em paralelo aos combates, ocorria um processo político de descoberta e amadurecimento. Depois do impulso inicial que levou à Declaração de Independência, as 13 colônias foram cuidar de suas vidas. As assembleias coloniais eram os centros do poder. Os eventuais assuntos comuns das colônias eram regulados pelos Artigos da Confederação, que deixavam pouca responsabilidade na mão do Congresso Continental. Como resultado desse cenário, as melhores mentes passaram a atuar nas assembleias. Durante muito tempo, a visão que predominou entre os colonos era a criação, na América do Norte, de uma minieuropa, com 13 países independentes que cuidariam, cada um, dos seus negócios, com responsabilidades mínimas atribuídas a uma entidade propositalmente fraca e com poucos poderes chamada de Congresso Continental. O mesmo raciocínio se aplicava ao Exército Continental que, na visão da maioria dos colonos, perderia sua razão de existir assim que a guerra terminasse.
Poucos rebeldes, entre eles George Washington, anteviam a necessidade — ou a possibilidade — da formação de uma nação verdadeira, com um governo central competente e munido dos recursos e poderes necessários para conduzir um país. Para a maioria dos colonos, durante muito tempo, esse pensamento foi rejeitado. Hoje, quando estudamos a história da formação dos EUA, somos frequentemente levados a acreditar que a imortal Declaração de Independência redigida por Thomas Jefferson foi a Declaração de Independência dos Estados Unidos. Mas, naquele momento, ainda não havia Estados Unidos. Havia apenas 13 colônias, ciosas de sua independência, que temiam o surgimento de uma nova força que substituísse o rei inglês como força opressora.
Os homens responsáveis pela rebelião, pela independência, pela luta contra os ingleses e depois pela estruturação de um governo nacional estavam entre os mais brilhantes da época. Estudar a figura de George Washington é descobrir um gigante. Não foi um homem sem falhas, ao contrário: ele perdeu inúmeras batalhas e colocou o processo de libertação em risco várias vezes.
A primeira vez foi quando ele insistiu em continuar a Batalha de Long Island, uma batalha que estava perdida, recusando-se a ordenar a retirada para Manhattan. Depois, quando a situação em Manhattan se deteriorou, ele se recusaria novamente a ordenar a saída da ilha. Se as tropas inglesas, comandadas pelos irmãos Howe — um general e um almirante — tivessem sido um pouco mais agressivas em seus ataques, talvez nunca tivesse existido um país chamado Estados Unidos da América. Mas George Washington era um líder natural, capaz de enxergar muito à frente e que, na sua hora de maior glória, teve a capacidade — vista poucas vezes na história — de abrir mão do poder. Terminada a luta e rendidos os ingleses, Washington, general comandante do Exército Continental e, já nessa época, um dos homens mais famosos do mundo, montou em seu cavalo e voltou para a fazenda em Mount Vernon. Há muito a fama de Washington já chegara à Europa, onde ele era considerado “a incorporação de um novo tipo de cidadão-soldado: a reencarnação dos heróis republicanos de Roma”[2].

Muitos franceses se juntaram aos colonos na luta contra os ingleses. Entre eles estava o Marquês de Lafayette que, aos dezenove anos de idade, encontrou em George Washington uma figura paternal. Lafayette desempenharia papéis de destaque em duas revoluções francesas: a mais famosa, de 1789, e outra menos conhecida, em 1830, que substituiu o rei Charles X da dinastia Bourbon pelo rei Louis Phillipe, da dinastia de Orléans.
Depois de confirmada a independência os colonos se dividiram em dois grupos. Os Federalistas defendiam um governo central com poderes definidos; segundo eles, esse governo seria essencial para garantir a união de todas as colônias em torno de um projeto nacional. Os Antifederalistas eram contrários a um governo central, que eles temiam que tomaria o lugar da Coroa Britânica como força de opressão.
Mas isso já é outra história.
[1] Ellis, Joseph. A Causa: A Revolução Americana e Suas Divergências 1773-1783. LVM, Clube Ludovico, 2024, p.87.
[2] Schama, Simon. Citizens: A Chronicle of the French Revolution. Vintage, 1990, p.29
Leia também “América – Parte 1: A Revolução que não foi”




Absolutamente fantástico o texto. Me deixou mais apaixonado ainda pela América, se é que isso era possível.
Uma aula de história Americana impecável! Parabéns Motta.