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Dep. Paulinho da Força | Foto: Billy Boss/Câmara dos Deputados
Edição 289

O sistema não quer a anistia

As forças ocultas de Brasília se unem para tentar empurrar um projeto de redução das penas aos presos políticos, mas que mantenha Jair Bolsonaro sufocado e impedido de atuar nas eleições

Desde a semana passada, uma pergunta permanece sem resposta na cabeça de centenas de milhares de brasileiros: por que o Projeto de Lei da anistia empacou no Congresso Nacional? E ainda: onde estão os 311 deputados que deram aval para que ele fosse votado em regime de urgência — ou seja, era algo para ontem?

Se a política que se respira nos corredores do Congresso fosse uma ciência exata, a resposta seria simples: a esquerda, que sustenta o governo Lula da Silva, não quer aprovar a anistia. Ocorre que essa conta não fecha: a base lulista é frágil e não tem votos sequer para emplacar um projeto de interesse do presidente. O bloco do PT e seus satélites nanicos reúne 80 cadeiras, que chegam a 130 com o apoio de partidos como PSB, PDT e mais alguns votos no varejo. Portanto, a conclusão óbvia seria: a anistia tem número suficiente.

Para deixar a cabeça do eleitor ainda mais confusa, outro dado importante é que o Regimento Interno facilita a aprovação de projetos de lei simples, que não exigem quórum qualificado, como uma emenda constitucional — esta requer o mínimo de 308 votos, em dois turnos, no Plenário. Para avançar com um projeto de lei, basta ter metade mais um dos presentes na sessão — por exemplo, com 400 deputados dentro do Plenário, 201 votos resolvem. Isso também explica por que a oposição comemorou tanto a aprovação da urgência para votar a anistia na semana passada — urgência exige o mínimo de 257 votos. Novamente, qual a conclusão? É mais fácil aprovar a anistia do que foi vencer a batalha para colocá-la em regime de urgência.

Então, se agora resta a etapa mais fácil, por que o país não pode dormir numa terça ou quarta-feira (dias de quórum cheio) festejando a aprovação do projeto? É aqui que entra um sujeito oculto, que muitos políticos e a velha imprensa buscam descredenciar, chamado “sistema” — a engrenagem do poder. Foi esse sistema que colocou seus operadores em ação, menos de 24 horas após a aprovação da urgência da anistia. Logo depois, o sistema anunciou que ela morreu na praia. O assunto, de fato, murchou nesta semana e transmitir a ideia de que ela é inconstitucional é parte do plano de sabotagem.

Deputado Paulinho da Força | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Aos fatos: no dia seguinte à votação, o presidente da Câmara, Hugo Motta, escalou o deputado Paulinho da Força para ser o relator da matéria mais importante do país. Paulinho ficou 13 anos seguidos na Câmara até ser condenado, em 2020, a mais de dez anos de prisão pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), à época com outra formação. Ele foi acusado de participar do desvio de R$ 350 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Três anos depois, em 2023, o ministro Alexandre de Moraes utilizou um recurso chamado “embargo declaratório” para reverter a condenação no plenário. Esse tipo de recurso não tem essa finalidade: os advogados usam para esclarecer algum trecho confuso da sentença. Até hoje, juristas não entendem o malabarismo de Moraes para reverter um julgamento com essa ferramenta — algo feito por meio de embargo infringente. Desde então, a relação entre Paulinho e Moraes é assunto nos corredores da capital federal.

Em novembro de 2023, Paulinho conseguiu reassumir o posto de deputado federal depois da cassação pela Justiça Eleitoral de Marcelo Lima, do PSB, de quem era suplente. Com 64 mil votos nas urnas, ele é líder de uma central sindical decadente, que rivaliza com a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Não tem formação em Direito nem é lembrado pelo saber jurídico. Não há registros de um discurso histórico na tribuna em quase duas décadas. Mas, naquele que pode ser o seu último ano na Câmara, o deputado tem muitas contas a pagar.

Tão logo foi escolhido a dedo para a missão, Paulinho se reuniu com o ex-presidente Michel Temer, responsável por enviar Alexandre de Moraes ao STF, e o também deputado Aécio Neves, que, assim como o relator, não eram vistos em Brasília há anos. Aécio também tem uma fatura a acertar com a Corte: ele foi flagrado em conversas pedindo propina ao empresário Joesley Batista na época da Lava Jato. Chegou a ser afastado do Senado e só não perdeu o mandato por um acordo de bastidores, que o obrigou a sair de cena e voltar para a Câmara sem ser notado por dois mandatos.

Michel Temer, ex-presidente do Brasil, foi procurado por governadores para formatar 'projeto de país' | Foto: André Carvalho/Divulgação
Michel Temer, ex-presidente do Brasil | Foto: André Carvalho/Divulgação

O tucano não só reapareceu na TV, como tem conduzido as entrevistas ao lado do relator. Afinal, por que resgataram Aécio? Desde o vazamento de áudios da Lava Jato, que por muito pouco não o aposentaram, foi exposta sua amizade com o decano do STF, Gilmar Mendes. E o ministro decidiu negociar algo com o Congresso para tentar abafar as manifestações da direita nas ruas à medida que o calendário eleitoral se aproxima.

Foi então que surgiu a proposta indecente do “Projeto de Lei da Dosimetria”. Embora presuma-se que a autoria seja de Gilmar Mendes e Michel Temer, não se sabe a paternidade real do monstrengo jurídico. O texto prevê a redução de 11 anos nas penas dos envolvidos no tumulto de 8 de janeiro de 2023, por meio de alteração do Código Penal e de um dispositivo que impede a sobreposição de penas para crimes parecidos. O resultado seria a liberdade para praticamente todos, inclusive os que estão no exterior. Atualmente, há 144 pessoas em penitenciárias, 44 em prisão domiciliar e 500 consideradas foragidas (no exterior ou sem rastreamento da tornozeleira).

Uma das raras exceções é o ex-presidente Jair Bolsonaro. Condenado a mais de 27 anos de prisão, ele passaria um ano e sete meses em regime domiciliar por causa de problemas de saúde, usando como referência o benefício dado a outro ex-presidente, Fernando Collor de Melo. Bolsonaro, porém, permaneceria impedido de concorrer ou fazer campanha para aliados em 2026. A proposta colocada na mesa é claríssima: o sistema não quer Bolsonaro no jogo eleitoral.

Deputado Aécio Neves - psdb
O deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG) | Foto: Paulo Sergio/Câmara dos Deputados

Paulinho e Aécio percorreram gabinetes de líderes partidários nesta semana. Também houve uma reunião aberta, com a presença de familiares e advogados dos presos políticos de 8 de janeiro. O relator disse que entregará seu texto a Hugo Motta na próxima terça-feira para votação no plenário. Não há nenhum indicativo de que tenha mudado de ideia.

O PL, principal partido de oposição, não topa o texto de Paulinho. Isolado, contudo, não tem votos suficientes para reverter o cenário. Derrubar o relator, como alguns chegaram a sugerir nos microfones, é uma decisão particular de Hugo Motta. Trata-se de um beco sem saída? Não. Porque aí entra a política e, historicamente, sempre foi assim em grandes votações — como a própria Lei 6.683, a simbólica Anistia de 1979, que saiu do Congresso como “ampla, geral e irrestrita”.

O presidente da Câmara do Deputados, Hugo Motta: abertura para PEC que blinda parlamentares | Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados
O presidente da Câmara do Deputados, Hugo Motta: abertura para PEC que blinda parlamentares | Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados

Alguns deputados mais experientes argumentam que seria possível redigir outro parecer, chamado de “substitutivo” no jargão do Congresso, com caráter de anistia e não de dosimetria. Restaria o trabalho de convencer, na tribuna, a maioria da Casa de que esse texto é melhor. Detalhe: a votação ocorre em turno único, ou seja, se passar em votação acelerada, segue diretamente para o Senado. Outra possibilidade muito comum é tentar remendar o próprio texto de Paulinho, depois de aprovado, com os chamados “destaques” — ajustes pontuais, mas decisivos. Nesse caso, não seria uma anistia “ampla, geral e irrestrita”, mas algo melhor do que o texto de Paulinho.

É impossível fazer previsões quando se trata do Congresso Nacional. Brasília sempre encontra seus próprios caminhos. As coisas podem mudar muito depressa, sobretudo quando entra em cena outro sujeito, aquele que é capaz de escrever a História: o povo. A Câmara dos Deputados é conhecida, desde que foi erguida no centro da Praça dos Três Poderes, como a Casa do Povo. É hora de o povo dizer aos deputados o que deve acontecer dentro da sua casa.

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5 comentários
  1. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Silvio, convida Michel Temer para teu programa de entrevista na Revista Oeste, e questionem como pode ser tão traíra com Bolsonaro e o que acha do seu pupilo Alexandre de Moraes reconhecido mundialmente como um tipo que agride os direitos humanos. Se puder faça uma entrevista também com FHC que nos enganou por tanto tempo como tucano desde a fundação do PSDB ate 2019 ano que se revelou sem caráter e fez o “L”

  2. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    O relatório do Paulinho da FARSA deverá ser o de tudo para os corruptos iguais a ele e os injustiçados que se virem com seus advogados que sequer conseguem ser ouvidos pelo Ditador Mor Alexandre de Moraes.

  3. Manoel Bertozzi Mesquita de Oliveira
    Manoel Bertozzi Mesquita de Oliveira

    Muito bom seu artigo Silvio Navarro. Uma avaliação perfeita dos fatos. Escancara a política brasileira como ela é de fato! E o imenso poder do STF e o poderio dos caciques – Temer e outros – que a muito deveriam ter-se aposentados, pra não falar coisa pior. Deus nos ajude e nos proteja!

  4. Lourival Nascimento
    Lourival Nascimento

    Quando CORRPTOS CONTUMAZES são resgatados do pântano da CORRUPÇÃO para posarem de salvadores e pacificadores do país, só os néscios, alienados, cúmplices, vezeiros na prática da CORRUPÇÃO, o que se pode esperar, a não ser a desgraça para o país? Os CORRPTOS CONTUMAZES COM RABOS PRESOS em supremas gavetas Paulinho da Força, Temer, Aécio Neves, Hugo Motta e Davi Alcolumbre foram escalados pelo RIGIME TOTALITÁRIO para fazerem o trabalho sujo de um judiciário desvairado, vingativo, que rasga a Constituição, o que esperar, senhores, senão a desgraça, a injustiça e a ignomínia? Vamos aos CORRUPTOS travestidos de bons moços. PALINHO DA FORÇA ” Paulinho da Força vira réu por lavagem e formação de quadrilha.” ” As suspeitas vieram à tona a partir da Operação Santa Tereza, da Polícia Federal, em 2007. Segundo a denúncia, foi desviado dinheiro de três financiamentos feitos pelo BNDES: um no valor de R$ 130 milhões para obras da prefeitura de Praia Grande, no litoral de São Paulo, e dois para a expansão e melhorias na rede de lojas Marisa, de R$ 220 milhões. Nesses três contratos, os desvios ultrapassariam R$ 2 milhões.” MICHEL TEMER ” Os inquéritos sobre o ex-presidente Michel Temer.” Propina de R$ 1 milhão da Engevix. O dono da construtora Engevix, José Antunes Sobrinho, disse em delação premiada que pagou R$ 1 milhão em propina, a pedido do coronel João Baptista Lima Filho (amigo de Temer), do ex-ministro Moreira Franco e com o conhecimento do presidente Michel Temer. Em parceria com a empresa de Lima, a Argeplan, a Engevix havia fechado um contrato em um projeto da usina de Angra 3.” AÉCIO NEVES ” Aécio Neves vira réu por corrupção e obstrução de Justiça.”
    É a primeira vez que o senador tucano será julgado pelo STF 18/04/2018 12:28 ” A primeira turma do Supremo Tribunal Federal (STF) acolheu, nessa terça-feira (17), as denúncias contra o senador do PSDB Aécio Neves, acusado de corrupção e obstrução de Justiça.” ” Também tornaram-se réus por corrupção Andréa Neves (irmã de Aécio), o primo Frederico Pacheco de Medeiros e Mendherson Souza Lima, ex-assessor parlamentar do senador Zezé Perrella (MDB).” ” Em setembro do ano passado, diante das denúncias de Joesley Batista, o STF determinou o afastamento de Aécio Neves do Senado e seu recolhimento noturno.” DAVI ALCOLUMBRE” A rachadinha de R$ 2 milhões de Davi Alcolumbre.” ” Por anos, o senador ficou com salários de seis assessoras do gabinete. Elas abriam conta no banco, entregavam o cartão e recebiam apenas parte do dinheiro.” ” Marina, Lilian, Erica, Larissa, Jessyca e Adriana são moradoras da periferia do Distrito Federal, pobres, desempregadas e personagens de uma ignóbil trapaça. As seis foram contratadas como assessoras.” ” Como a família Alcolumbre enriqueceu com grilagem e devastação no Amapá.” ” Família do presidente do Senado chegou a declarar propriedades em áreas da União à Justiça Eleitoral e deve R$ 1 milhão em multas ao Ibama.” ” A família, que agora encabeça o Senado com Davi, também se destaca pelo sucesso na especulação imobiliária na região. A especialidade: grilagem de terras públicas. Como mostram processos judiciais, aos quais o Intercept teve acesso, há desde a apropriação de terrenos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o Dnit, até a compra de áreas já griladas por multinacionais e agora em disputa na justiça.” HUGO MOTTA ” Como funcionava esquema de empresário que delatou Hugo Motta.” ” A empresa foi o principal alvo da operação Desumanidade, de 2015, que mirou contratos bancados com emendas do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta.” ” Como mostrou a coluna, durante a investigação, um administrador da empresa citou uma “comissão” de Hugo Motta (Republicanos-PB) pelo repasse de emenda para custear as obras.” ” Como mostrou a coluna, Neto também afirmou durante a investigação que, antes da licitação, foi chamado pelo Deputado Estadual Nabor Wanderley e apresentado ao então prefeito de Malta, “que lhe informaram que este executaria a obra e haveria uma comissão ao Deputado Federal Hugo Motta, de 10% (dez por cento), por ser o autor da emenda parlamentar”. Quer dizer então que TEMER, AÉCIO, PALINHO DA FORÇA, DAVI ALCOLUMBRE e HUGO MOTTA, todos com os rabos preso no STF, braço jurídico do REGIME TOTALITÁRO que DESGOVERNA O BRASIL, seriam as Vestais de meia pataca que nos salvaria do abismo de arbítrios? O que esperar, senão a desgraça, mais rasgares da Constituição, o triunfo da infâmia, a vitória da delinquência?

    1. Julio José Pinto Eira Velha
      Julio José Pinto Eira Velha

      Conclusão, quem define o que pode e o que não pode, é sempre uma quadrilha tamu fu.

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