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O presidente francês, Emmanuel Macron, visita a Catedral de Notre-Dame de Paris durante a cerimônia de inauguração da nova rota turística das Torres da Catedral, estruturas góticas destruídas após o incêndio de abril de 2019, como parte da 42ª edição das Jornadas Europeias do Patrimônio em Paris, França (19/9/2025) | Foto: Ludovic Marin/Reuters
Edição 291

O crepúsculo da grandeur

A crise política na França parece não ter solução, o presidente Macron está sideralmente longe dos cidadãos e o caos econômico está instalado

Paris. 14 horas e 26 minutos. Foi quanto durou o governo de Sébastien Lecornu, o mais fiel apoiador do presidente da República, Emmanuel Macron. Ele tinha sido escolhido para restaurar a estabilidade na França, ampliar a frágil maioria que apoia o atual inquilino do Palácio do Eliseu e conduzir o país às eleições presidenciais de 2027. Entrará para a história como o primeiro-ministro com a menor permanência no cargo da Quinta República. Apenas 866 minutos. Um caso único, não apenas na França, mas em todo o Ocidente. E a quinta renúncia de um primeiro-ministro francês em menos de dois anos.

“As condições para que eu exercesse minhas funções não existiam mais”, disse Lecornu na manhã de segunda-feira, 6, na escadaria do Palácio de Matignon, a sede do Poder Executivo na França. Poucas horas depois, era esperado na Câmara dos Deputados para o tradicional discurso no qual o primeiro-ministro apresenta as linhas gerais de seu futuro mandato. Não se apresentou. Lecornu, nomeado no começo de setembro por Macron para substituir outro primeiro-ministro demissionário, François Bayrou, demorou quase um mês para realizar as mediações necessárias para formar seu governo. Mas acabou caindo em poucas horas.

O primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu chega para fazer uma declaração no pátio do Hotel Matignon em Paris após iniciar uma série de conversas com líderes de partidos políticos enquanto a França enfrenta uma crise política após o anúncio da renúncia do novo governo, França (8/10/2025) | Foto: Reuters/Stephanie Lecocq

A França hoje vive uma de suas piores crises políticas da história. Uma crise múltipla — política, institucional e econômica — que está ameaçando a credibilidade financeira do Estado. Não há caminho simples para Macron. Formar um novo governo capaz de sobreviver a uma votação no parlamento, onde o presidente da República não tem a maioria, parece cada vez mais improvável.

Ao mesmo tempo, a economia dá sinais de esgotamento. A dívida pública superou os 3,3 trilhões de euros, ou 114% do Produto Interno Bruto (PIB). Com uma trajetória que superará 120% até 2031. Quando Macron ganhou as eleições, em 2017, a dívida era de 97,5% do PIB. E segue pressionada por juros crescentes, que beiram 4,5% ao ano para os títulos do Tesouro (OaT, na sigla em francês) com vencimento em 30 anos. Uma das porcentagens mais altas da zona do Euro, que não se via desde 2011, ano da crise das dívidas soberanas na Europa.

Os mercados estão cada vez mais céticos sobre a credibilidade do governo francês em relação às suas políticas fiscais. A percepção de que as contas públicas de Paris estão fora de controle fortalece a demanda de prêmio de risco. Ou seja, de juros mais altos.

Uma desconfiança justificada. Pois a atividade mais bem-sucedida dos últimos Executivos franceses foi aumentar os gastos públicos. E em 2024, a despesa pública na França alcançou impressionantes 57,2% do PIB. Praticamente a de um país socialista. Um gasto incomprimível, já que em boa parte vai para subsídios, auxílios e bolsas. Financiando um dos mais generosos — e obesos — “Estados de bem-estar social” do mundo.

Ilustração: Shutterstock

Desde a pandemia de covid-19, a França não consegue fechar o orçamento público com um rombo inferior a 5% do PIB. E, diferentemente de seus parceiros europeus, que estão tentando reduzir o vermelho nos últimos anos, a França piorou seu déficit entre 2023 e 2024, passando de 5,4% para 5,8%.

O drama é que todo esse desembolso de recursos públicos não se transformou em crescimento econômico. Nos últimos dois anos, o PIB francês avançou pouco mais de 1%. E a previsão é que, em 2025, alcance com dificuldade 0,8%.

Sem soluções à vista

Mas o problema fundamental é que os cidadãos franceses rejeitam as reformas necessárias para estabilizar as contas públicas. Como a reforma das aposentadorias, contenção de subsídios e revisão dos impostos.

A atual composição do Parlamento francês mostra isso claramente. As principais forças políticas em termos de assentos, a direita do Reagrupamento Nacional, e a extrema-esquerda da França Insubmissa, são contrárias a qualquer medida de austeridade. Demonstração de como o populismo assistencialista, uma vez implementado, se torna irreversível.

Foto: Shutterstock

“A questão central é que os partidos políticos que deveriam formar um governo não concordam em quase nada. Têm posições distantes em matérias econômicas, sociais, de imigração, política externa”, explica Mathieu Gallard, pesquisador da Ipsos France. “Será extremamente difícil para Macron formar um novo governo que seja minimamente sólido. Sem contar as tensões sociais que deixam o panorama ainda mais instável.”

A tímida decisão de aumentar a idade da aposentadoria de 62 para 64 anos (no Brasil, em comparação, é de 65 anos) desencadeou uma revolta social tão violenta que chocou a Europa. Paris foi devastada por semanas, em cenas que pareciam a Comuna de 1871. E a lembrança dos protestos violentos dos chamados “coletes amarelos”, que varriam a França inteira por meses no final de 2019, ainda permanecia na memória coletiva do país.

Depois desse caos urbano, ninguém mais ousou apresentar propostas de reformas estruturantes. O governo Bayrou foi obrigado a se limitar a ideias extravagantes, como abolir o feriado da segunda-feira de Páscoa, apelando para que os franceses “trabalhassem mais”. Não adiantou, e o Parlamento decretou seu fim há exatos 30 dias.

O caos virou grotesco

Lecornu caiu pela mesma razão de Bayrou: a impossibilidade de aprovar um orçamento público, com cerca de 44 bilhões de euros (cerca de R$ 250 bilhões) que faltam para fechar as contas. Uma das causas foi a nomeação de Bruno Le Maire em seu governo. Le Maire, que foi ministro das Finanças entre 2017 e 2024, é considerado pelas forças de direita como o grande responsável pela crise financeira nacional. Tanto que, após o fim de seu mandato, ganhou o desdenhoso apelido de “Senhor um trilhão de dívida pública” e foi forçado a se “exilar” na Suíça, atuando como professor na Universidade de Lausanne.

O Ministro da Economia e Finanças francês, Bruno Le Maire, após a reunião semanal do gabinete no Palácio do Eliseu, em Paris, França (29/11/2022) | Foto: Shutterstock

Entretanto, Macron impôs sua nomeação no governo como ministro da Defesa. Os partidos não gostaram e fritaram o Executivo. Não satisfeito, Macron insistiu para que Lecornu tentasse novamente formar um novo gabinete. E acabou anunciando que em 48 horas apresentaria uma solução para a Nação. Até o momento, não resolveu esse quebra-cabeça.

Solução: mais impostos

Diferente da Argentina, que tentou reformar o sistema confiando em um liberal como Javier Milei, a França parece querer insistir no que deu errado. Ou seja, aumentar impostos e gastos públicos.

Uma das ideias mirabolantes que está dominando o debate público no país é o chamado “imposto Zucman”, um superimposto anual de 2% sobre patrimônios superiores a 100 milhões de euros. Uma verdadeira fixação do Partido Socialista francês, que já no passado, durante o governo de François Hollande, aumentou a carga tributária sobre os ricos. Resultado: a fuga dos endinheirados para países vizinhos, fiscalmente menos opressivos, e pouquíssimos recursos obtidos com essa taxa.

Estabilidade, lembrança distante

A estabilidade política desenhada pelo General de Gaulle na Constituição da Quinta República tinha que ser a base da grandeur, a grandeza francesa. Setenta anos depois, tudo isso parece ter sido apagado. Os mais de 2 mil dias de governo de Georges Pompidou, nos anos 1970, parecem uma pálida lembrança.

Georges Pompidou (1971) | Foto: Wikimedia Commons

O país está vivenciando uma “doença francesa”, uma patologia profunda com implicações sociais e econômicas de longo alcance, afetando uma sociedade que parece ter perdido os valores tradicionais que a orientaram no passado.

Extremamente impopular em sua pátria e já desconectado do eleitorado, Macron buscou manter espaço de manobra na política externa, tentando mediações rocambolescas na crise em Gaza, reconhecimento da Palestina, flertes com Trump, encontros amazônicos com Lula ou até mesmo ameaçando enviar tropas francesas para a Ucrânia. Gerou protestos sem fim, pois os franceses não têm a mínima intenção de morrer por Kiev.

“A imagem da França no exterior acabou sendo muito afetada por essa crise política e econômica. Há muita decepção em certos países europeus. E Macron está muito enfraquecido internamente”, explica Gallard: “no passado sempre se pensou que, se havia um país na Europa que fosse estável politicamente e confiável economicamente, esse era a França. Agora não mais.”

Nação lacerada

Décadas de imigração fácil ou descontrolada criaram uma sociedade dividida. Cerca de 6 milhões de muçulmanos vivem em subúrbios precários, as chamadas banlieues, desintegrados dos valores republicanos da França. Massas que nutrem ressentimento e, em alguns casos, ódio por seus anfitriões, mesmo sendo eles os pagadores dos impostos que financiam os programas sociais que beneficiam os recém-chegados. Há alguns meses, um relatório confidencial encomendado por três ministérios revelou como a Irmandade Muçulmana construiu um perigoso Estado dentro do Estado na França. Com riscos de radicalização e ataques terroristas.

Uma Quimera com vista para a cidade, com a Torre Eiffel ao fundo, durante a cerimônia de inauguração da nova rota turística das Torres da Catedral. Estruturas góticas destruídas após o incêndio de abril de 2019 em Paris, França (19/9/2025) | Foto: Ludovic Marin/Reuters

A perspectiva globalista incutida por Macron, que se apoiava no mercado financeiro em detrimento da economia real, revelou suas enormes limitações. A França hoje ostenta corporações gigantescas, dominadas pelo poder sindical e pela negligência individual de responsabilidade. Grandes grupos que estão em crise, como Carrefour, Michelin e marcas de luxo.

Um grande filósofo francês, Alain de Benoist, levantou com força um tema ao mesmo tempo moderno e antigo: o da identidade, pedra angular do comunitarismo, a cola de uma sociedade fundada na história. Ele nos alerta que “a identidade é o que nos faz viver”, e a crise emerge justamente quando começamos a nos envergonhar de nossa própria identidade.

A França parece ter perdido os pilares de sua grande história. Não menos importante nesse panorama é a condenação de Nicolas Sarkozy, o primeiro ex-presidente da República a ser preso na história francesa, outra manifestação da crise que está corroendo as certezas tradicionais do país.

Futuro à direita

A grande vencedora do impasse político francês é a líder da direita francesa, Marine Le Pen. Com os partidos tradicionais se desgastando em infinitas negociações sem resultados, o Reagrupamento Nacional aparece superando todos os rivais políticos nas pesquisas de opinião. Sua base de cerca de um terço do eleitorado se mantém sólida, e cresceu entre 3 e 5 pontos desde maio. Mais que o dobro do partido de Macron, Unidos para a República, que hoje teria apenas entre 12% e 15% dos votos. Uma das principais razões pelas quais o presidente francês está tentando a todo custo evitar eleições antecipadas.

A líder de extrema direita francesa e membro do parlamento, Marine Le Pen, presidente do grupo parlamentar do partido de extrema direita francês Reunião Nacional (Rassemblement National – RN), reage após falar com jornalistas ao sair de uma reunião com o primeiro-ministro francês como parte de uma série de consultas no Hotel Matignon em Paris, França (3/10/2025) | Foto: Reuters/Sarah Meyssonnier

Poucas horas após a renúncia de Lecornu, Macron foi fotografado caminhando sozinho às margens do Rio Sena. Uma imagem que a imprensa francesa catalogou como a “solidão do poder”.

“Folhas mortas queimam a pele, lembranças e arrependimentos também. E o vento do Norte os traz”, cantava Yves Montand. Talvez essa música e essas palavras lhe tenham ocorrido enquanto o presidente francês refletia sobre seus erros no cinzento e ventoso outono parisiense. Um homem político que se imaginava um De Gaulle, mas que passará para a História como o presidente que entregou a França ao caos.

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3 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Deveriam iniciar pelo corte do assistencialismo aos imigrantes. Eles que retornem aos países de origem, já que não se adequam à cultura ocidental.

  2. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Ótimo artigo Carlo Cauti.
    Tive um professor na faculdade de administração que dizia que nenhuma empresa quebra por causa de um único grande erro, mas pela soma de contínuos e persistentes erros.
    Essa máxima também vale para países que tendo mais facilidades para se financiar conseguem uma longevidade no caminho da auto destruição.
    Minha opinião é que os problemas da França iniciaram em 1982 com a eleição do esquerdista François Mitterrand permanecendo 14 anos no poder.
    A fatura das benesses estatais que nada produz chegou e o ônus agora cai no colo de toda a sociedade francesa.
    O Brasil infelizmente está no mesmo caminho.

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