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Foto: Revista Oeste/IA
Edição 291

O Fator 135: a mensagem oculta nas dedicatórias de Guilherme Fiuza

O que significaria? Será que ele as numerava? Nunca conheci um autor que fizesse isso. Seria um número cabalístico?

Na sexta-feira da semana passada, a Fabiana, mãe da Geórgia e do Rodrigo, liga e pergunta: “Vocês foram ao lançamento do livro do Fiuza?”

“Fomos”, minha mulher responde. “Roberto adora ele.”

“Então”, continua Fabiana, “eu queria tirar uma dúvida. Na dedicatória que ele fez para mim, ele escreveu o número 135. Vocês sabem o que isso significa?”

“Como assim, 135?”

Fabiana manda uma foto da dedicatória. Realmente está escrito: Para Fabiana, 135, Fiuza.

O que significaria esse 135?

Foto: Arquivo Pessoal

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O dia 8 de janeiro de 2023 amanheceu nublado e com possibilidade de chuva. Acordei cedo. Apesar de ser domingo, naquele final de semana eu estava de plantão. O Jornal da Manhã, do qual eu participava, começava às 7 horas e ia até às 10.

Quando o jornal acabou, a família ainda dormia. Levei Cocada para dar uma volta pela praia e depois me instalei na sala, rodeado de livros.

Às 2 da tarde, minha filha pediu que eu a levasse ao shopping. Detesto shopping. Detestar é pouco: eu tenho fobia. Não suporto lugares fechados, sem janelas e sem luz natural. Tenho pânico de multidões. Gosto ainda menos de gastar.

Mas minha filha nunca me convida para nada. E eu adoro a sua companhia. Então, lá fomos nós para o shopping.

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O mistério do 135 continuava. O que significaria o número? Será que Fiuza numerava as dedicatórias? Nunca conheci um autor que fizesse isso. Seria 135 um número cabalístico? Somando 1 + 3 + 5 dá 9. Qual é o significado oculto do número nove?

Talvez fosse uma mensagem codificada. Um dos livros recentes do Fiuza, O Passado Promete, fala de uma realidade alternativa, um Brasil no qual o líder político Carlos Lacerda ainda estaria vivo. Seu livro mais recente — O Grande Circo, aquele cuja dedicatória estava criando toda a agitação — fala das narrativas criadas pela mídia. Estaria Fiuza nos dando a chave para decifrar uma falsa realidade? Mas onde exatamente se encaixaria o número 135?

Seria o código para uma revolução?

O Grande Circo: Para entender as acrobacias da imprensa | Foto: Divulgação

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No dia 8 de janeiro de 2023, por volta das 3 da tarde, parei meu carro no estacionamento que fica na cobertura do shopping. É mais fácil encontrar o carro depois.

Na primeira loja em que entramos, minha filha procurava uma saia. Uma saia muito curta. Ainda se diz minissaia? Depois fomos a outra loja em busca de jaquetas. Minha filha experimentou várias. Enquanto isso, eu checava o celular. As redes sociais e o WhatsApp fervilhavam.

Minha filha pediu ao vendedor que separasse uma jaqueta e prometeu que voltaríamos. Mergulhamos de novo na multidão que circulava pelo shopping. Eu estava satisfeito porque estava com ela.

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A melhor parte de um lançamento do Fiuza é a fila. Seus leitores são as pessoas mais interessantes. O lançamento de O Grande Circo não foi exceção. Entrei na fila com Marcelo Rocha Monteiro. Muita gente vinha falar conosco, apertar a mão, dar um abraço ou pedir uma foto, o que sempre faço com prazer. Alguns perguntavam coisas que eu não sabia responder — por exemplo: “O que será desse país?”.

Uma senhora se aproxima: “Será que eu posso contar uma história importante?” Claro que pode, eu digo. Vivo para ouvir e contar histórias. “Graças a você, meu irmão se recuperou”, ela diz. “Você fez com que ele retomasse o interesse pela vida”.

Ao lado dela está um homem alto e magro, que me sorri. É dele que ela está falando. “Meu irmão sofreu um acidente grave quando tinha 20 anos”, ela diz. “Perdeu massa encefálica, precisou reaprender a falar. Recomeçou da estaca zero. Hoje tem 74 anos. Há muito tempo, ele só escuta você. É através de você que ele mantém contato com o mundo. Por causa da lesão cerebral, ele não consegue ler e nem ver televisão. Mas adora sua voz. Não perde um programa seu. Ele gosta quando você fala sobre livros, apesar de não conseguir ler. Ele tinha perdido o interesse pelas coisas, graças a você, ele recuperou. Ele sempre me pergunta: que horas é o programa do Roberto Motta?”

A melhor parte de um lançamento do Fiuza é a fila. Seus leitores são as pessoas mais interessantes | Foto: Reprodução/Redes Sociais

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No dia 8 de janeiro, pouco depois das 4 da tarde, enquanto eu estava em pé no canto de uma loja e minha filha conversava com a vendedora, recebi uma mensagem. “Começou uma confusão em Brasília. Preciso que você entre no ar urgente.” Era a diretora de jornalismo. Eu amo minha profissão, que descobri relativamente tarde na vida. Ter a oportunidade de entrar na casa das pessoas todos os dias é um privilégio. Faço o que posso para merecer essa honra.

Minha filha está naquele intervalo entre a infância e a idade adulta que, nas mulheres, é especialmente complicado e fascinante. Outro dia era uma garotinha de cachos dourados que eu levava no colo; agora é uma mulher bonita que caminha ao meu lado.

“Estou em um compromisso de família”, respondi à diretora. “Aviso assim que tiver condições de entrar no ar”.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo.

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Fabiana aguardava nossa resposta. O que seria o número 135 na dedicatória do Fiuza? De repente, lembrei de outro número que fora muito discutido dois anos atrás: 142. Seria essa a solução do mistério? Discretamente, liguei o computador e fui olhar o que dizia o artigo 135 da Constituição Federal. Está lá:

Art. 135. Os servidores integrantes das carreiras disciplinadas nas Seções II e III deste Capítulo serão remunerados na forma do art. 39, § 4º

Teria Fiuza nos enviado uma mensagem cifrada sobre a remuneração de servidores públicos?

Era improvável. Mas então, o que significaria o número 135?

Frases da semana
Constituição da República Federativa do Brasil | Foto: Rodrigo Viana/Senado Federal

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Quando minha filha e eu retornamos do shopping, já anoitecia no Rio de Janeiro. Houve um momento na vida em que imaginei que não fosse casar ou ter filhos. Por isso, sempre olho para eles como uma bênção. Sofro antecipadamente pelo dia em que sairão de casa.

Mas, naquele domingo, 8 de janeiro de 2023, enquanto eu voltava com minha filha para casa, o Brasil desmoronava. Só quando liguei a televisão é que entendi o que estava acontecendo.

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A fila de autógrafos do Fiuza anda devagar. “Quais são os seus nomes?”, eu pergunto à senhora que me contou a história do irmão. “Eu sou Antônia”, ela responde, “meu irmão é Renato”. Agora é ele, Renato, que conta a história. Era 1972. “Eu tinha deixado minha namorada em casa, na praia do Flamengo, e dirigia um jipe aberto, sem capota. Naquele tempo, não havia cinto de segurança. Um fusca forçou a ultrapassagem pelo lado direito. Eu não estava em alta velocidade, mas o fusca encostou na roda do jipe e eu perdi o controle. O jipe capotou e fiquei preso embaixo dele.”

Antônia estudava na Califórnia quando o irmão sofreu o acidente e voltou para cuidar dele. Ela trabalhava em uma empresa estatal de telefonia. Naquela época, início dos anos 70, havia muitos exilados, pessoas que fugiram do Brasil com medo da repressão política. A função de Antônia era operar centrais telefônicas. Às vezes chegavam pedidos de familiares que queriam falar com parentes exilados. As ligações eram feitas sem deixar rastros. Pessoas que não tinham dinheiro para um telefonema internacional conseguiam falar com o pai ou o filho no exterior, sem correr riscos.

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No início de agosto, fui a Brasília participar de um evento do Instituto de Formação de Líderes. Fiz uma apresentação sobre a crise de segurança. É o assunto que mais me ocupa. Não sou policial e nem jurista. Não falo sobre os aspectos técnicos da criminalidade. O que me interessa é o ângulo moral.

Quando acaba a palestra, eu saio do auditório para conversar, autografar livros e tirar fotos. Uma senhora se aproxima e pede um minuto de atenção. “Meu filho teve que fugir do Brasil”, diz ela. O filho dela é jovem. “Ele é professor”, diz ela. “Agora está no exterior, na Europa, sem poder voltar e sem ter como sobreviver”. O rapaz foi condenado a 12 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. “Meu filho estava rezando quando foi preso”, diz ela.

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Mas é preciso resolver o enigma do número 135.

Minha mulher tem uma ideia: que tal olhar a dedicatória que Fiuza fez para mim? “Vamos ver se ele colocou algum número lá”, ela sugere.

Corremos até o escritório. Minha estante tem uma prateleira só para os livros do Fiuza.

Agora estou com O Grande Circo em minhas mãos.

A expectativa é grande.

Abro o livro na página da dedicatória. Está escrito:

“Ao amigo Roberto Motta, um dos líderes da luta pela liberdade.
135,
Fiuza”

Agora não tem mais jeito: será preciso descobrir, de qualquer forma, o significado desse número.

É evidente que se trata de um segredo vital. Talvez seja a chave para recuperarmos liberdade e sanidade. Talvez seja uma fórmula para soltar inocentes e punir culpados, ou para redimir o sofrimento que é a ocupação principal do brasileiro.

Eu olho de novo a dedicatória e dou uma risada. Está tudo claro.

Minha mulher me olha espantada. Eu explico o mistério.

Acontece que Fiuza não escreve em letra cursiva; ele usa uma espécie de letra de forma.

Ele termina todas as dedicatórias da mesma forma, com um número que não é número.

O número, na verdade, é uma palavra.

Onde nós lemos 135, está escrito simplesmente “ABS”.

ABS é uma abreviatura para a palavra abraços.

Foto: Revista Oeste/IA

Leia também “América – Parte 2: A Busca da Felicidade”

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11 comentários
  1. Thais de MORAES Machado Suppo Bojlesen
    Thais de MORAES Machado Suppo Bojlesen

    Ótimo artigo Motta,sou sua fã e do Fiúza. Fiquei em suspense até o mistério do 135 ser desvendado!

  2. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Fantástica a criação do artigo do Motta. Quantas passagens agradáveis para interpretar o 135 do Fiuza. Creio que a atual JP não mais o merece. Em seus escritos parece que ouvimos aquela voz de um jornalista sério com a realidade dos fatos. Relação muito oportuna com o que fez com o número 142.

  3. Antonio Carlos Cavalieri DOro
    Antonio Carlos Cavalieri DOro

    Ainda bem que não é aquela máxima:Qdo escrevi estava em e Deus, agora só Deus….
    135.

  4. Elias José de Souza
    Elias José de Souza

    Motta, parabéns pelo belo artigo. Adorei o enigma.

  5. Laura Helena Barbará Zeh
    Laura Helena Barbará Zeh

    Quando li a dedicatoria matei a charada na hora… Tive um tio chamado Ozorio que assinava 630, “O “maiusculo,” Z “e “o” minusculo

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