No início de agosto, o ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA Mike Benz despejou no Senado brasileiro evidências sobre a ação movida por Washington, durante o governo de Joe Biden, para interferir nas eleições brasileiras de 2022. Da Usaid à CIA, incluindo ONGs como o Atlantic Council, o depoimento de Benz à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional apontou uma rede que orientou e financiou uma teia de parceiros no Brasil constituída por agências de checagem e ONGs diversas com o propósito de censurar conservadores. Milhões de brasileiros, que ainda se informam pelo Jornal Nacional, não tomaram conhecimento da denúncia de que a Usaid — Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional — injetou no Brasil US$ 90 milhões em diferentes esforços para “instrumentalizar o controle de informação” durante o período de governo de Jair Bolsonaro.
Também no Senado, e na mesma comissão, o ex-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação, o perito Eduardo Tagliaferro, depôs e apresentou provas dos abusos e ilegalidades cometidas pelo gabinete do presidente do Tribunal Superior Eleitoral em 2022, Alexandre de Moraes. Em uma de suas mais graves revelações, Tagliaferro, hoje refugiado na Itália, mostrou como ele próprio atuou para, sob ordens do gabinete de Moraes, praticar uma fraude processual. Foi no caso dos oito empresários que sofreram mandados de busca e apreensão em agosto de 2022, ação repleta de ilegalidades, como Oeste publicou.

Para o principal telejornal brasileiro, é um fato sem relevância. Talvez o ex-assessor e hoje desafeto de Moraes só venha a ser apresentado pelo JN aos telespectadores se desembarcar algemado no Brasil. Moraes já pediu à Itália a extradição do perito. Não teve sucesso, assim como não foi levado a sério em outros pedidos de extradição, pela Espanha e pelos Estados Unidos.
Nos dois casos, não se trata de sustentar que a mais importante concessionária de TV do país devesse amplificar as denúncias ao nível da estridência — como fez, reiteradas vezes, com ou sem fundamento, no governo de Bolsonaro. Apenas cobrir os fatos e trazer as diferentes visões — do governo, da oposição, dos implicados e de observadores equidistantes. Nada que não estivesse previsto no mais empoeirado manual de redação do final dos anos 1980, quando o Brasil se redemocratizou e as redações dos jornais passaram a consignar, preto no branco, padrões de conduta, normas de estilo e preceitos éticos que seus profissionais deveriam observar.
Mas eis que o vento levou os anos 1980, 1990, 2000, e aqui nos encontramos, trôpegos, numa tristonha e chuvosa quarta-feira de cinzas de miserável obscurantismo, depois da feérica folia de esperanças que depositamos no jornalismo como farol da liberdade e da responsabilidade para com o povo. Lembram quando entoávamos “vai passar nesta avenida o samba popular”? Recordam os estandartes que carregávamos? “Neutralidade”. “Independência”. Estão todos no chão, misturados aos cacos de antigas alegorias, como aquela que saudava o jornalismo cidadão e prometia fiscalizar o abuso do Estado e toda forma de autoritarismo. Um quadro de ressaca é o que vivemos.
Um otimista dirá, com alguma lógica, que não adianta reclamar dos ventos, que é preciso ajustar as velas — e, se quiser mandar às favas a melancolia, poderá inclusive citar o ganho robusto, até balofo, que o Grupo Globo exibiu em seu último balanço anual. Sim, senhor: ao esconder notícias, o maior conglomerado de mídia do Brasil não tem do que reclamar. Em 2024, colocou no cofre um lucro líquido de R$ 2 bilhões. É verdade que uma parte crescente dos resultados vem de “atividades não operacionais”, o que, traduzindo do financês, significa dizer que o império de comunicação da família Marinho ganha dinheiro, inclusive, com coisas que não têm a ver com o conteúdo oferecido ao público. Espremendo ainda mais a análise, é o caso de dizer que aplicações financeiras inflam o lucro da organização. Também é preciso considerar que o entretenimento, no caso do Grupo Globo, é o carro-chefe do faturamento. Ainda que as novelas já não tenham o apelo popular de outrora e até mesmo reality shows se revelem uma fórmula a caminho do esgotamento, são trunfos que a Globo tem e os quais os outros grupos de comunicação, especialmente os de atuação regional, nem sonham ter.

Com todas as ressalvas feitas, ainda é o caso de admirar como uma empresa de conteúdo jornalístico consegue entesourar um excelente resultado financeiro mesmo dando as costas para metade do país. Talvez a expressão “dar as costas” seja branda. Em 8 de janeiro de 2023, e mesmo nos dias seguintes, quando a poeira do emocionalismo já deveria ter se dissipado, a cobertura de seus veículos seguiu distribuindo qualificações como “golpistas” e até mesmo “terroristas” às pessoas presas, sem distinguir baderneiros de manifestantes pacíficos, sem oferecer escuta aos abusos denunciados pelos advogados em desespero e, fundamentalmente, sem uma palavra de ceticismo ou ao menos dúvida ante as tropelias cometidas sob as ordens de Alexandre de Moraes. O que se leu no jornal, o que se viu na TV, foi o esplendor do oficialismo. Aquilo que nos anos 1980 os jornalistas repudiavam — o chamado jornalismo chapa-branca. Qualquer profissional digno fugia deste anátema. Hoje, âncoras se orgulham, ao vivo, de atuar como porta-vozes, em tempo real, de ministros do STF que, sem se identificar, tentam coagir parlamentares a votar, por exemplo, contra um projeto de anistia que nem está redigido.
Que reflexões se podem extrair deste espantoso caso em que um vigoroso player do “jornalismo profissional” lucra libidinosamente escondendo notícias? Muitas. São tantas que não cabem neste artigo, e nem em outros que possam ser escritos — sobre jornalismo, sobre entretenimento, sobre infotainment, sobre mídia digital, sobre hiperlocalismo.
Mas, como primeira contribuição, apelo a um axioma popular. “Quem paga a banda escolhe a música.” Parece-me que temos uma crise de financiamento aparentemente insuperável no jornalismo independente. E a resposta que a maior parte dos veículos tem encontrado é a de render-se a patrocínios de grupos de interesse e, claro, verbas governamentais. O caso da Globo, regiamente contemplada pelo governo Lula e pelas suas estatais, é o mais notável e tem um efeito muito ruim por difundir, para todo o mercado, que agradar quem paga a banda é um caminho normal e, pior, inescapável. Não é.
A menos, claro, que as empresas jornalísticas se convertam em companhias de relações públicas, que cobram seu preço para promover uma causa, um interesse. O jornalismo voltado à nação não sobreviverá em uma companhia que emprega jornalistas, mas, em essência, é uma agência de lobby.

Creio que o modelo a ser buscado para financiar o jornalismo independente — ou seja, que não depende do oficialismo de Estado e dos lobbies — ainda é um desafio. Mas é possível e desejável, penso, começarmos com a definição de um princípio fundador. E, nesse sentido, vejo com esperança este extraordinário cordão humano que se estende, de norte a sul do país, em acolhimento ao chamado dos jornalistas José Roberto Guzzo, falecido recentemente, e Augusto Nunes. Com o empresário Jairo Leal eles criaram a Revista Oeste em 2020, nos albores da pandemia, com o compromisso de viver do apoio de seu público, recusando-se a aceitar qualquer propaganda ou patrocínio de governo ou de empresa pública.
Outro caminho que vislumbro é um chamamento à filantropia. Dos Estados Unidos, vieram exemplos de homens que enriqueceram e, a certa altura de suas vidas, fizeram doações expressivas para a criação de hospitais e universidades. A meu ver, a imprensa precisa ser socorrida antes que se deixe inapelavelmente capturar por corporações que a desviam de seu importante papel para a saúde das instituições do País. E quem poderá socorrer a imprensa é o leitor, enquanto se sentir representado. E, suplementarmente, beneméritos com lastro econômico e altruísmo suficientes para legar aos pósteros um veículo jornalístico fundado em princípios e com estrutura de governança concebido para sobreviver a intempéries.
Não sei se são visões factíveis. Mas deixar o jornalismo imolar-se no altar dos interesses de ocasião de um governo, ou de lobbies, não é, para mim, uma opção saudável.
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Não vai rolar. Lembram as campanhas pra reduzir o “consumismo” infantil, o fumo, consumo de alcool, na pratica acabaram com a independência financeira de jornais, revistas e TVs já que a industria farmarceutica e governos se tornaram os maiores anunciantes. Por isso a guerra contras fontes independentes e descentralizadas(como não precisam de milhões pra operar podem surgir e crescer rapidamente). Afinal não adianta pagar bilhões pra Globo repetir as mentiras se no final boa parte da população vai se informar por sites independentes como Ancapsu, Barbara te atualizei, etc.
Isso só acontece porque o país tá sendo roubado coletivamente por todos os poderes e o quarto poder que é a imprensa. Todos são ladrões da nação e o país está caminhando para o caos
Triste fim da credibilidade do CONSÓRCIO DE IMPRENSA e seus satélites, mas nem tudo está perdido quando ainda se tem uma luz no fim do túnel como a Revista Oeste e Gazeta do Povo e outros tantos que lutam pra que a verdades dos fatos não sejam tratorados pelo poder financeiro dos governantes de turno.
O Estadão e a UOL , usando suas agencias “independentes” de checagem, foram atuantes para favorecer noticias pro-Lula (nao permitindo posts contra o petista), durante a campanha de 2022.
Quem banca a imprensa livre são homens de caráter, princípios e uma grande carreira de sucesso na área do jornalismo. Foi esse o caso da Revista Oeste, três homens de coragem e caráter, vasto conhecimento. Foram corajosos,puseram no início seus recursos econômicos de uma vida..A Revista Oeste virou um “case”de sucesso.isso é para poucos. Contam com a qualidade de seu produto para ter assinantes que hoje sustentam essa empreitada..Foi com grande orgulho que meu irmão, em um de nossos encontros,me falou: hoje a Oeste está sendo paga por seus assinantes.Estar do lado da verdade e portanto do lado certo é o que importa hoje no Brasil.
Verdade, parabéns aos defensores dos FATOS e VERDADES que hoje o Brasil precisa tanto.
👏e coragem para continuar!