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Palestinos passam pelos escombros de prédios destruídos, em meio a um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, na Cidade de Gaza, em 14 de outubro de 2025 | Foto: Reuters/Dawoud Abu Alkas
Edição 292

Nasce um novo Oriente Médio

O fim dos combates em Gaza permite vislumbrar outro horizonte nessa parte do mundo

Longas noites em claro não foram incomuns para os israelenses nestes dois anos de guerra. Na madrugada do dia 13, no entanto, a motivação foi a melhor possível: aguardar a volta dos últimos 48 reféns israelenses prisioneiros do Hamas na Faixa de Gaza.

Na Praça do Museu de Arte de Tel-Aviv — que, no início da guerra, foi rebatizada como Praça dos Reféns e usada como palco para manifestações e para prestar apoio aos familiares dos sequestrados —, e também em Re’im, local do massacre no Festival Nova, milhares de pessoas permaneceram em vigília noite adentro. Às 8 horas, finalmente, Israel começou a receber imagens do comboio de vans da Cruz Vermelha trazendo até a fronteira os primeiros sete dos 20 reféns que sobreviveram ao cativeiro. Os demais vieram cerca de duas horas mais tarde.

20 reféns que sobreviveram ao cativeiro | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O Hamas, cumprindo a exigência de Israel, não realizou nenhum tipo de cerimônia teatral macabra, como as que, no passado, envolveram a entrega de “diplomas de libertação”, beijos na testa de terroristas ou a exibição de caixões negros com fotos dos dois bebês Bibas, assassinados em cativeiro. Em lugar disso, terroristas, com os rostos — como sempre — cobertos por máscaras, fizeram ligações em vídeo para os familiares, permitindo que os reféns trocassem com eles algumas palavras sob a promessa de que as conversas seriam divulgadas para a imprensa. Algumas famílias recusaram a ligação.

Os israelenses rapidamente entenderam o que havia por trás do telefonema: gerar material de campanha da “vitória sobre o inimigo sionista” para seu público interno. É dessa forma que as massas árabes compram a narrativa de vitória do Hamas.

Timing perfeito

Cruzada a fronteira, começaram a surgir na mídia israelense as primeiras fotos e vídeos dos reféns, divulgadas pelo Exército. Muitos deles não haviam sido vistos desde o sequestro, em 7 de outubro de 2023. Naquele mesmo momento, o avião de Donald Trump, prestes a aterrissar em Israel, realizava um voo baixo sobre o litoral a pedido do presidente. Nas praias de Tel-Aviv, um agradecimento a ele, montado nas areias, podia ser visto a partir do Air Force One. “A guerra acabou?”, perguntou a imprensa israelense a Trump, minutos após o pouso. “Sim”, respondeu ele.

“Hoje é segunda-feira, dia 13 de outubro, 10h52: a partir de agora, não há nenhum israelense vivo prisioneiro do Hamas na Faixa de Gaza. Depois de 738 dias, chegou o momento que muitos de nós receávamos que nunca viria”, escreveu o jornalista e analista político israelense Amit Segal.

Os israelenses vivem dias eufóricos e a densa névoa de preocupação e tristeza que cobriu o país nos últimos dois anos está se dissipando. Ainda assim, esse é apenas o primeiro capítulo do roteiro que poderá levar a um cenário de paz, pois há muito a ser determinado e cumprido — a começar pela devolução dos corpos de todos os reféns mortos.

Hamas caça suas bruxas

Depois de aceitar o acordo, o Hamas informou que teria dificuldades para localizar todos os corpos dos reféns mortos. Enquanto isso, dentro de Gaza, o grupo promove uma caça às bruxas — ou seja, execuções de palestinos acusados de colaborar com Israel, com cenas chocantes de tortura e fuzilamentos à luz do dia.

Essas imagens estão sendo amplamente divulgadas pelo próprio Hamas como forma de intimidar seus inimigos locais. O mundo as assiste em silêncio.

Além de demonstrações de força aos palestinos, o grupo também continuou sinalizando, nos dias seguintes ao cessar-fogo, que não pretende abandonar as armas nem o poder. Khalil al-Hayya, um dos líderes políticos do grupo, declarou que “começou a contagem regressiva para o próximo massacre”.

Ainda há muito a acontecer antes de Gaza iniciar seu processo de recuperação. Todos os países comprometidos em colaborar frisaram que só o farão quando o Hamas for retirado do poder. O presidente Trump afirmou à imprensa que o grupo será desarmado, “seja por vontade própria, seja à força” — embora ainda não esteja claro como isso acontecerá.

Terroristas à solta

Na mídia mundial, as cenas do reencontro de reféns com seus familiares dividiram as atenções com as dos prisioneiros palestinos libertados por Israel. Além dos 1,7 mil presos após o início da guerra, há outros 250 encarcerados há mais de dez anos, cumprindo prisão perpétua por terrorismo — alguns deles, em penas consecutivas.

A ficha criminal de cada um, que envolve atentados a bomba, assassinatos, sequestros, tráfico de armamentos e conspiração, indica o desafio que se impõe às forças de segurança de Israel daqui para a frente.

De volta às ruas de Gaza, da Cisjordânia ou deportados para outros países, eles são, para Israel, a parte mais indigesta do acordo. A tática do sequestro utilizada pelos palestinos nas últimas décadas comprovadamente funciona. A criminologista e especialista em terrorismo Anat Berko, que há 20 anos realiza pesquisas comportamentais com terroristas palestinos presos em Israel, acumulou um conhecimento único sobre sua lógica e seu comportamento.

“Certa vez, um deles me disse que ‘nosso próximo encontro será em Gaza’, pois sabia que não ficaria preso por muito tempo. Quando o soldado israelense Gilad Shalit foi sequestrado em 2006, ouvi o mesmo de prisioneiras palestinas”, relatou. Eles tinham razão: bem antes da libertação dos quase 2 mil terroristas nesta semana, Shalit foi libertado em 2011 pelo Hamas em troca de 1.027 prisioneiros palestinos. Um deles era Yahya Sinwar, o arquiteto do massacre de 7 de outubro.

Berko explica que os terroristas palestinos não são criminosos comuns. “Eles se sentem no direito de decidir quem deve viver ou morrer, seguindo a mesma cultura islamista de grupos como o Isis, o Talibã e o Boko Haram. Além disso, não sentem arrependimento por seus atos, o que torna impossível a reabilitação.” Ou seja, ao serem libertos, voltam naturalmente às suas antigas atividades.

O plano de Trump prevê a implementação de um processo de desradicalização da população palestina. A questão é se haveria algum resultado real sobre a atual geração. “Os prisioneiros libertados nesta semana são o modelo dessa geração e serão os próximos líderes da sociedade palestina”, afirma Berko.

Cessar-fogo, não acordo de paz

É importante deixar claro que o que foi selado neste momento é um acordo de cessar-fogo e de troca de reféns, não um acordo de paz. Ele é o passo inicial do Plano de 20 Pontos, proposto em 20 de setembro por Donald Trump. As etapas seguintes ainda precisam ser planejadas, sem perder de vista que Gaza representa apenas uma parte da onda islamista que ameaça o mundo livre.

Segundo Einat Wilf, autora do livro A Guerra do Retorno, Gaza é a primeira nação terrorista do globo — e não será a última, caso o islamismo continue sendo desconsiderado na pauta internacional. “O tema precisa ser debatido abertamente e sem apegos ideológicos”, defende o escritor e analista Sam Harris. “Afinal, o Islã não é apenas uma religião, mas um conjunto de ideias — e, como tal, seu avanço precisa ser discutido.”

O que se observa na Europa vai na direção contrária ao pensamento de Harris: países com grandes minorias de imigrantes muçulmanos, como Inglaterra e França, optam por manter os ânimos internos apaziguados com decisões polêmicas, como o recente reconhecimento unilateral do Estado Palestino.

“Os governos liberais temem discutir o tema abertamente porque, quando o fazem, são imediatamente acusados de islamofobia por sua população. Este termo foi um truque criado pela esquerda para evitar críticas ao Islã, caracterizando-as como sectarismo. Até mesmo quem tenta discutir os direitos humanos das mulheres muçulmanas acaba sendo acusado de islamofóbico”, defende Harris.

Gaza representa apenas uma parte da onda islamista que ameaça o mundo livre | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O saldo da guerra

Israel está e continuará pagando um alto preço, em muitos sentidos, pela guerra mais longa de sua história. Segundo o Ministério da Defesa, 1.152 membros das forças de segurança foram mortos e 6.333, feridos. Dos 978 civis mortos (incluindo 62 crianças), 859 foram assassinados pelo Hamas no primeiro dia de guerra, o mais sangrento no mundo judaico desde o Holocausto. Mais de 14 mil israelenses foram feridos ao longo desses dois anos.

A campanha militar inicial contra o Hamas foi a mais cara da história, com o custo de US$ 58,5 bilhões durante os três primeiros meses, incluindo operações militares, auxílios econômicos e compensações civis. Há também um “saldo” difícil de ser contabilizado em números, como a degradação da saúde mental da população e a falta de confiança na capacidade do Exército e do governo de defender o país.

A explosão do antissemitismo mundial é outro tema preocupante, e o clima atual vem sendo comparado ao da Europa nos anos 1930. Sem contar as medidas contra Israel — como boicotes econômicos, interrupção de parcerias empresariais e cancelamento de eventos —, israelenses e judeus pelo mundo sentem o ódio na pele. De manifestações nas ruas e agressões físicas a pogroms e assassinatos, esses dois anos foram dos mais assustadores para as comunidades judaicas internacionais. Em muitos países, turistas israelenses são assediados e ameaçados.

A explosão do antissemitismo mundial é outro tema preocupante | Foto: Shutterstock

Por outro lado, a equação de forças no Oriente Médio foi transformada. Até 6 de outubro de 2023, o Hezbollah havia acumulado um arsenal com cerca de 200 mil mísseis e havia construído túneis e bases militares no sul do Líbano, a poucas centenas de metros da fronteira com Israel. O Irã, governado por um governo autocrático e inimigo do Ocidente, estava prestes a obter as armas nucleares.

A Síria, sob a ditadura de Bashar al-Assad, era rota segura para armamentos iranianos a caminho do Hezbollah, enquanto os Houthis controlavam rotas marinhas comerciais vitais. Já as milícias iraquianas aguardavam a oportunidade de ataque.

Hoje, esse “anel de fogo” ao redor de Israel deixou de existir. E, com ele, a antiga estratégia defensiva do país: a partir de agora, dissuasão é a palavra de ordem. “Chegamos ao cessar-fogo mantendo controle sobre 53% de Gaza e 10% do território da Síria, além de cinco postos avançados no Líbano. O exército israelense estará presente caso qualquer das partes comece a se rearmar”, enumera Amit Segal.

Os novos focos de Israel

O foco da diplomacia e dos corpos de segurança de Israel agora está voltado especialmente para o Catar e a Turquia.

Segundo Eyal Hulata, membro sênior da Foundation for Defense of Democracies (FDD), falta a ambos os países transparência de propósitos. “Foi ótimo Trump trazer o presidente turco Recep Tayyip Erdogan para perto, mesmo que à força. Isso será fundamental para empurrar para longe, no momento certo, o Islã radical.”

Já o Catar, outro importante apoiador da Irmandade Muçulmana ao lado da Turquia, continua desempenhando um papel duplo. “O país se posicionou como mediador da guerra em Gaza todo o tempo, mas sempre esteve por trás do financiamento do Hamas, encorajando-o a prosseguir com o conflito. Não à toa, Trump não exigiu do Hamas, mas sim de Ancara e de Doha, a libertação dos reféns — e conseguiu”, afirma o analista Haviv Rettig Gur.

Em um futuro próximo, será possível entender como a Casa Branca pretende se desvencilhar das garras dos cataris fincadas em solo americano em diferentes áreas da Educação e da Economia. Por outro lado, Trump parece ter todos os ases nas mãos para prosseguir com a expansão dos Acordos de Abraão e a construção do novo corredor econômico que ligará a Ásia à Europa.

Para a sociedade israelense, neste momento, só há espaço para um único tema: a entrega dos corpos dos reféns. “Não deixar ninguém para trás” é um lema nacional e, não à toa, trazer todos de volta é um dos três objetivos de guerra de Israel — ao lado do desarmamento e da substituição do Hamas no poder.

Que seja em breve.

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1 comentário
  1. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Parabéns Miriam Sanger pelo excelente artigo. Israel viveu o terror desde 7 de outubro de 2023.Concordo ,a consolidação da paz no oriente médio ainda é incerta, houve sim um acordo de cessar fogo.Grupos terroristas como o Hamas e outros expandiram-se na Europa,não se integraram na cultura e costumes desses países. Atentados a judeus e cristãos são constantes, na França igrejas foram e são destruídas.o terror só será interrompido quando o mundo ocidental se aliar para defender o que é realmente importante para a paz. Trump ajudou muito dessa vez Israel ,conseguiu o cessar fogo e a volta dos reféns. Mas o Hamas e grupos terroristas dificilmente aceitarão a longo prazo essa nova realidade.

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