Na medida em que o Holocausto representa um exemplo singular da maldade, empreendedores morais há muito buscam apropriar-se dele para legitimar suas próprias causas. Atualmente, uma verdadeira indústria de instituições e ONGs assumiu o papel de “especialista” em genocídio, afirmando ter autoridade para declarar qual evento violento ou ato de guerra deve receber o rótulo.
Agora, uma gama aparentemente ilimitada de situações é representada como algo equivalente ao Holocausto. Ativistas antiaborto referem-se a um “Holocausto de embriões”. Ativistas trans promulgam a visão de que estamos em meio a um “genocídio trans”. Alguns acadêmicos chegam ao ponto de estender a aplicação do termo genocídio à vitimização de animais. Segundo um relato:

“A vitalidade social é importante para a vida de alguns animais não humanos, e sua diminuição forçada resulta em morte social para esses grupos não humanos. Assim, instâncias de violência que infligem morte social entre animais não humanos são genocídio. Ao reconhecer que os não humanos são, de fato, vítimas de genocídio através da violência humana contra eles, desafiamos o viés antropocêntrico, fundamental para toda perpetração genocida.”
Ativistas ambientais denunciaram o que descrevem como um “Holocausto de focas”. O termo “ecocídio” também é usado para traçar paralelos entre o impacto do homem na natureza e os crimes mais hediondos já cometidos pelo homem.
A pesquisa que sustenta o trabalho da nova indústria do genocídio é caracterizada por comparações desleixadas, sem base histórica, e argumentos furados. Tome como exemplo Extraordinary Evil: A Brief History of Genocide (“O Mal Extraordinário: uma Breve História do Genocídio”), de Barbara Coloroso, publicado em 2007. No livro, ela afirma que o bullying escolar é o primeiro passo para um ato de genocídio. “O impulso de intimidar é espelhado pelo ato de genocídio”, alega. Quando o bullying é equiparado a tentativas de erradicar povos inteiros, podemos afirmar com segurança que o conceito se desvinculou completamente de seu significado original. A afirmação dela de que estamos “em uma era em que atos de genocídio parecem ocorrer com mais frequência” ilustra, sem querer, o problema. Desnecessário apontar que a razão pela qual se pode dizer que os genocídios ocorrem com mais frequência é que o rótulo pode ser aplicado a quase tudo.

A campanha para se apropriar do termo genocídio está sendo conduzida à vista de todos. O acadêmico Zachariah Mampilly argumenta que o termo “genocídio” não foi concebido para ser preciso, mas sim “destinado a servir a um propósito político e moral”. Vimos as consequências dessa forma de pensar em setembro, quando um grupo ativista que se autodenomina Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio acusou Israel de genocídio com base em suas próprias “reinterpretações” do Direito Internacional. Descobriu-se então que, convenientemente, qualquer um poderia se juntar a esse grupo de “estudiosos” se pagasse uma taxa de US$ 30.
Essa aplicação constantemente mutável do termo genocídio parece ter se fixado em um alvo em particular. Críticos de Israel agora denunciam incessantemente o Estado Judeu, acusando-o do mesmo crime que tornou necessária a sua criação.
Esse tipo de acusação contra Israel, na verdade, precede a guerra em Gaza. Aparentemente, o genocídio é uma consequência inevitável do chamado colonialismo de assentamento — mais um crime do qual Israel é indevidamente acusado. Uma das principais figuras que promoveu a tese do “colonialismo de assentamento como genocídio” foi o falecido acadêmico Patrick Wolfe, que escreveu em 2006 sobre a “lógica da eliminação” inerente a uma “sociedade colonial de assentamento”.
Israel, portanto, está manchado com o pecado original do genocídio. Nas palavras de um acadêmico contemporâneo, “a continuidade das políticas e práticas coloniais de assentamento e de massacres e genocídio de Israel, começando com a Nakba de 1948 e continuando até a guerra genocida de hoje na Faixa de Gaza, mostra que o genocídio é uma característica fundamental da estrutura do colonialismo de assentamento. É um processo e não um evento.”
Isso permite que a própria legitimidade da sociedade israelense seja posta em questão. Visto que é inerentemente genocida, assim explica essa linha de raciocínio, não pode ser salva — apenas destruída. Outras sociedades acusadas de genocídio — mesmo a Alemanha Nazista — podem ser reeducadas e salvas de seus impulsos destrutivos. Mas não Israel, ao que parece.

Isso invariavelmente leva ao processo de inversão do Holocausto. Como Matthew Bolton notou em seu excelente ensaio sobre o significado do genocídio: “A avidez com que tantos agarraram a chance de acusar Israel de genocídio após o 7 de outubro de 2023 certamente tem algo a ver com a emoção de quebrar tabus ao inverter, e assim finalmente anular, a Shoah [‘Holocausto’ em hebraico].”
Acusar Israel de genocídio mina perigosamente a autoridade moral do Holocausto. Minimiza a tentativa de aniquilação do povo judeu. Inevitavelmente, isso levou muitas pessoas a negar completamente a existência do Holocausto. Isso foi demonstrado de forma contundente por Rahmeh Aladwan, uma médica em formação do NHS (o SUS britânico) que recentemente ganhou as manchetes por seu suposto antissemitismo. Aladwan é atualmente objeto de uma audiência judicial por, entre outras coisas, descrever o Holocausto como uma “narrativa vitimista fabricada”. Tais visões insidiosas tornaram-se deploravelmente difundidas, particularmente desde o pogrom do Hamas contra Israel há dois anos.
Os esforços para apagar a motivação antissemita do Holocausto e redefinir o crime de genocídio para aplicá-lo à guerra em Gaza equivalem a um ataque à verdade, à história e à razão. Que tenham sido tão bem-sucedidos em instituições ocidentais é um grave motivo para alarme.
Frank Furedi é diretor-executivo do think tank MCC-Bruxelas.
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Essa distorção linguística vem acontecendo em todos os âmbitos. A democracia é uma palavra que está sendo moldada para acomodar regimes como o da Venezuela pelos mesmos perpetradores dessa infâmia de defesa do Hamas.
Excelente artigo.
Deveriamos fazer urma só pergunta a esquerda doente, desculpem o pleuonasmo, falar em Palestina livre do rio ao mar, significa o que?
Só uma observação: no caso do aborto, dependendo do quantas vidas humanas estão se perdendo todos os anos, se for uma grande quantidade, o termo genocídio é apropriado, sim