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A polilaminina representa uma nova esperança para a recuperação de pessoas com paraplegia e tetraplegia, promovendo regeneração celular na medula espinhal | Foto: Shutterstock
Edição 296

De volta ao próprio corpo

Medicamento desenvolvido por uma pesquisadora brasileira devolve os movimentos a pessoas diagnosticadas com tetraplegia

Era um sábado, 28 de abril de 2018, quando o bancário Bruno Drummond de Freitas, na época com 24 anos, saiu de casa na zona leste de São Paulo rumo a Teresópolis, no Rio de Janeiro, para celebrar o aniversário da avó. Na direção do Honda Fit estava o pai, com a madrasta como copiloto. Bruno sentou-se no banco de trás, ao lado da cadeirinha em que estava o irmão menor. No meio do caminho, pararam num posto de combustível para descansar. Foi quando Bruno se deitou no banco de trás — sem colocar o cinto de segurança. A viagem seguia calma, a paisagem ao longo da Rodovia Presidente Dutra deslizava monótona pela janela. Eles estavam próximos a Duque de Caxias quando seu pai cochilou por um instante. O carro perdeu o controle e atravessou a pista, atingindo um poste e capotando várias vezes. Quando os bombeiros chegaram, Bruno estava preso de cabeça para baixo; consciente, mas imóvel. Os demais ocupantes do veículo apresentavam ferimentos leves.

A equipe de resgate os levou ao Hospital Copa Star, na zona sul do Rio de Janeiro. Bruno não se recorda do instante do impacto. Apenas de despertar, dias depois, com o corpo imóvel. “Acordei da cirurgia e olhei para os lados, sabia que tinha acontecido alguma coisa muito ruim”, conta. “Vi minha mãe, meu pai, os médicos, e tentava me mexer, mas não conseguia mover nada, só a cabeça. Sabia apenas que havia sofrido um acidente, ainda não tinha noção da gravidade. Constataram uma compressão medular na C6, eu nem sabia o que era isso.” Os exames confirmaram o que ninguém queria ouvir: lesão completa da medula cervical. O diagnóstico soava como uma sentença: tetraplegia. “A notícia me deixou em choque, pensei ‘ferrou’, será que eu vou ficar deitado pelo resto da vida, que eu nunca mais vou conseguir andar, fazer nada?”

Nos primeiros dias de internação, Bruno esteve sob efeito de medicamentos e sedativos. Dormia por longos períodos e, quando acordava, não reconhecia o próprio corpo. “Foram doze horas de cirurgia, fiquei uns três dias tomando Rivotril, dormia, acordava, comia, eles faziam o que tinham de fazer de limpeza, fisioterapia, essas coisas, e eu voltava a dormir.” Alguém sempre passava a noite com ele: mãe, pai, tios. Mesmo anestesiado, percebia os olhares de preocupação e tristeza da família. 

Bruno não sabia que, enquanto a equipe ainda preparava a cirurgia, uma conversa entre os médicos e seu tio, ortopedista, mudaria o rumo da história. Ele havia lido sobre um estudo experimental conduzido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com uma substância chamada polilaminina. O médico responsável pelas aplicações, Marco Aurélio Braz de Lima, era conhecido da família. A decisão mesclou desespero e esperança. Diante de uma lesão considerada irreversível, decidiram tentar. O medicamento foi aplicado durante a cirurgia, nas primeiras 24 horas que sucederam o acidente, diretamente na medula. 

Um ótimo sinal

Foram três semanas de imobilidade completa até que um movimento mínimo mudou o curso dos acontecimentos. Durante uma sessão de alongamento, o tio notou algo. “Ué, o dedão dele deu uma mexida, eu vi que se mexeu”, vibrou. Parte da equipe duvidou. Repetiram o exercício e o dedo se mexeu de novo. Bruno não sentiu, mas viu a reação dos outros. “Todo mundo comemorou e eu não sabia o que estava acontecendo.” Bruno lembrou de uma cena de Kill Bill, a que assistira no hospital em um iPad. “No filme, a mulher é enterrada viva, depois aparece no hospital toda paralisada e, do nada, ela mexe o dedão do pé e volta a ficar saudável. Fiquei pensando: cara, como que os caras sabem, né?”

A estrutura, estável e biologicamente ativa, é capaz de rejuvenescer neurônios maduros e estimular o crescimento de novos axônios, as fibras que conduzem os impulsos elétricos do corpo.

Bruno ainda não compreendia a importância daquele gesto. “De que adianta mexer o dedão do pé se não mexe braço, não mexe perna?”, revoltou-se. “Não vou fazer nada com o dedão do pé.” A explicação era simples: se o sinal elétrico havia partido do cérebro até o pé, então o caminho pela medula estava restabelecido. A médica lhe explicou que isso era “um ótimo sinal”, porque significava que o cabo que conecta o cérebro com as extremidades, com os nervos, estava reconectado até o dedão do pé, passando pelo tronco, pela perna. “Vi uma luz no fim do túnel, uma esperança de voltar a mexer alguma coisa.”

Naquele momento, Bruno ainda não sabia que havia recebido a polilaminina, medicamento desenvolvido ao longo de mais de duas décadas pela pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ. Ainda hoje, mencionar a força da substância o faz embargar a voz. “Eu achava que estava me recuperando sozinho, que era o último herói da Terra”, lembra. “Mas era a polilaminina agindo em meu corpo.”

Na manhã do dia 1º de novembro, Bruno chegou caminhando pela calçada da Avenida Paulista para conversar com Oeste, depois de deixar o carro em um estacionamento. Quem observa seus passos firmes, embora cuidadosos, não imagina que há poucos anos Bruno não mexia nada do pescoço para baixo. Ele fala com serenidade sobre o futuro. Não planeja feitos grandiosos nem faz planos espetaculares. Quer apenas manter a rotina e a estabilidade. “Só quero trabalhar, juntar dinheiro e ficar bem, ficar tranquilo com minha família”, diz. “Depois do que passei, aprendi que isso já é muito.”

Bruno voltou a caminhar após anos sem mover o corpo e hoje celebra o essencial: trabalho, rotina e a paz de estar com a família | Foto: Arquivo Pessoal

A molécula que imita a natureza

A polilaminina nasce de uma proteína natural do organismo, a laminina, responsável pela formação e regeneração dos tecidos nervosos. “De certa forma, a gente está imitando a natureza, fazendo a mesma coisa que ela deveria fazer e, por alguma razão, não está conseguindo”, explica Tatiana. Há mais de 25 anos a cientista estuda uma forma de reorganizar a laminina e fazê-la voltar a formar as redes que surgem naturalmente durante o desenvolvimento do sistema nervoso. “O que estamos propondo como terapia é a utilização de uma proteína natural, na sua forma natural, como medicamento”, explica. “O que teve de invenção foi o processo de transformar a laminina desorganizada na laminina com a forma correta.”

Tatiana formou-se em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde também fez mestrado e doutorado em Biofísica. Depois de um pós-doutorado na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, voltou à UFRJ como professora do Instituto de Ciências Biomédicas. Ali, entre aulas e experimentos, construiu uma linha de pesquisa dedicada a entender como o corpo tenta, e às vezes falha, em se regenerar.

Produzida a partir da placenta humana, coletada com autorização de mães saudáveis depois do parto, a proteína passa por um processo de polimerização, em que diversas moléculas de laminina são unidas e organizadas em rede, reproduzindo a forma como essa proteína se apresenta naturalmente no organismo. A estrutura, estável e biologicamente ativa, é capaz de rejuvenescer neurônios maduros e estimular o crescimento de novos axônios, as fibras que conduzem os impulsos elétricos do corpo.

A polilaminina, produzida a partir da placenta humana, recria a estrutura natural da laminina e estimula a regeneração de neurônios e axônios |Foto: Artur Moês/CCS/UFRJ

Nos testes com ratos e cães, os resultados apareceram em poucas semanas. Animais que haviam perdido completamente o movimento voltaram a andar. Em humanos, as aplicações foram feitas durante cirurgias de descompressão da medula. Entre 2016 e 2021, oito pacientes com lesões completas receberam a injeção experimental em até 72 horas depois do trauma. Seis recuperaram parte ou a totalidade dos movimentos. Nenhum apresentou efeitos colaterais.

“O axônio é o prolongamento do neurônio, e é ele que se danifica na lesão”, explica Tatiana. O composto oferece um caminho para que essas fibras, que não iriam se recuperar, voltem a crescer. “O que ela faz é oferecer um meio para a regeneração, para organizar esse crescimento.” Ela destaca que o tratamento precisa ser feito o mais rápido possível, para evitar “dano secundário”, nome dado ao agravamento causado pelo inchaço e pela inflamação dentro da coluna. Mesmo assim, acredita que a substância pode ajudar em casos já antigos. “Em tese pode, mas seria preciso reproduzir um ambiente parecido com o de uma lesão para que ele realmente tenha esse estímulo de crescer”, discorre. “É uma abordagem muito mais complexa do que a do uso agudo.” Diferentemente das terapias com células-tronco, a substância não traz risco de mutações nem formação de cicatrizes no tecido nervoso. “É uma alternativa mais acessível e segura”, destaca.

Bisturi e esperança

O neurocirurgião Marco Aurélio Braz de Lima acompanhou de perto todas as etapas que transformaram a polilaminina de um experimento de laboratório em um tratamento aplicado dentro de um centro cirúrgico. Foi ele quem realizou as injeções nos pacientes do primeiro protocolo clínico. “Minha responsabilidade era fazer os protocolos para as injeções, a seleção dos pacientes, a captação e o tratamento”, conta. “Levamos cerca de dez anos para conseguir realizar todos esses testes.” 

O procedimento ocorre durante a cirurgia de descompressão da medula, quando a equipe remove fragmentos ósseos e reduz o inchaço causado pelo trauma. A substância é preparada em sala, sob condições estéreis, e aplicada diretamente dentro da lesão medular, onde os axônios haviam se rompido. O médico ressalta que a aplicação só deve ser feita em pacientes com a medula já lesionada. “Se injetamos algo em uma espinha sadia, ela fatalmente será lesada, porque não tolera nada dentro dela”, explica.

Os primeiros resultados vieram rápido. No estudo inicial, os três pacientes tratados evoluíram na escala ASIA, sistema padronizado para avaliar a gravidade e o nível de uma lesão na medula espinhal. Na classificação, “ASIA A” indica perda total de movimento e sensibilidade, enquanto “ASIA E” corresponde à recuperação completa, sem nenhuma sequela, por menor que seja. Entre os pacientes, Bruno teve a evolução mais marcante: passou de ASIA A para ASIA B em 15 dias — hoje é considerado ASIA D.  A explicação, segundo Marco Aurélio, está no tempo de resposta do organismo. “Quanto mais precocemente a injeção era aplicada, melhor resultado a gente esperava”, afirmou. “Por isso determinamos em nosso protocolo inicial que nenhuma injeção seria aplicada depois de 72 horas.”

Caso os resultados demonstrem que o produto é seguro para o uso em pacientes, a Anvisa autorizará a primeira de três etapas do desenvolvimento clínico.

Em laboratório, os resultados foram idênticos: quanto mais cedo a aplicação, maior a regeneração dos axônios e menor a formação de cicatrizes fibrosas. “Absolutamente nenhuma reação adversa, nenhum efeito colateral”, relata. “Não houve reação cruzada, reação alérgica ou rejeição ao produto.” Ele atribui este resultado ao caráter orgânico do medicamento. “É uma proteína, não é uma medicação sintética.” Marco Aurélio já atua há três décadas com cirurgia de coluna. “A gente não via, até o momento, nenhuma expectativa de nenhum método com eficácia, nem que seja mínima, para poder produzir uma reversão de lesão medular”, disse. “Imaginar que a gente pudesse em algum momento injetar uma medicação e ver isso acontecer era inesperado.”

Recuperação para o esporte

Outros pacientes, como a carioca Hanna Ribeiro, também se beneficiaram da substância. Hanna tinha 19 anos quando caiu do terceiro andar do prédio em que morava, no centro do Rio de Janeiro, numa manhã de julho de 2017. Ela lembra de todo o acidente e acredita que estava tendo um ataque de sonambulismo. “Me via fazer o que estava fazendo, mas é como se não tivesse controle total de mim”, relata. O beiral cedeu e Hanna despencou cerca de dez metros. Chegou ao hospital com traumatismo craniano, três vértebras quebradas, múltiplas fraturas e apenas 10% de chance de sobreviver. “Entrei para a cirurgia antes do meio-dia e só saí às três da madrugada”. Quando acordou do coma, sete dias depois, soube que não mexia nada do pescoço para baixo.

O diagnóstico era de tetraplegia completa. “Saí do hospital sem movimento algum, foi uma reviravolta muito grande na minha vida.” No começo, ela acreditava que a recuperação seria rápida. “Vou fazer fisioterapia e daqui a pouco os movimentos voltam”. Ao estudar sobre lesão medular, percebeu que o quadro era muito mais complexo. Três anos depois veio o convite para receber a substância experimental. Hanna quis participar, mesmo sabendo que era indicado apenas para casos recentes. Àquela altura, tinha apenas um pouco de movimento e sensibilidade, mas nada que lhe garantisse independência. A aplicação foi feita em 2020, pouco antes do começo da pandemia. Então, tudo parou e ela ficou quase dois anos sem a fisioterapia intensiva da qual necessitava.

Os avanços ficaram evidentes mais tarde, quando encontrou o rugby. “O rugby, querendo ou não, é também uma fisioterapia”, diz. “Eu não tinha a musculatura, o movimento, o controle de tronco que tenho hoje.” Hanna é atleta paralímpica de rugby em cadeira de rodas dos Santer Vikings, com convocações frequentes para a Seleção Brasileira da modalidade. “Ali a gente se sente menos frágil”, afirma. “Para a sociedade, somos frágeis, guerreiros, coitados. Na quadra as pessoas não enxergam a Hanna deficiente, enxergam a Hanna atleta.”

A aplicação da polilaminina foi o fator decisivo. “Eu fazia musculação e fisioterapia toda semana e não tinha essa melhora”, conta. “Foi notável a diferença logo depois de quando dei início ao uso da polilaminina do jeito correto, que é aliada à fisioterapia.” Mesmo com as limitações que ainda tem, ela fala com esperança: “Se eu conseguir fazer parte da cura da lesão, estou dentro”, garante. “Quero um dia me levantar e andar, ter uma independência muito maior do que a cadeira de rodas. O mundo precisa disso.”

Próximo passo: Anvisa

A polilaminina ainda não tem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso comercial ou clínico ampliado. A agência confirmou a Oeste que o laboratório Cristália, responsável pelo projeto de produção em escala industrial, mantém tratativas formais desde o fim de 2022. “A Anvisa tem discutido e orientado a empresa por meio de reuniões técnicas e aconselhamento científico”, esclarece. “As informações apresentadas inicialmente foram geradas a partir de testes iniciais de bancada, em modelos animais e em alguns poucos pacientes. Essas pesquisas não tinham o objetivo de apoiar o registro do produto para disponibilização no mercado brasileiro.” 

O avanço para a fase de testes em humanos depende da comprovação de segurança e eficácia. Em outubro deste ano, o laboratório apresentou novos resultados pré-clínicos exigidos para que a Anvisa avalie o começo da Fase 1, a primeira etapa oficial de testes em humanos dentro do protocolo de registro (veja quadro). Caso os resultados demonstrem que o produto é seguro para o uso em pacientes, a Anvisa autorizará a primeira de três etapas do desenvolvimento clínico. Tatiana Coelho de Sampaio acompanha o processo com cautela e otimismo. “Estamos sempre em contato com a Anvisa, porque essa negociação é feita em rodadas”, contou. “Mandamos material, eles avaliam, pedem mais dados e assim vai. Torço para que a gente consiga avançar rápido, mas a aprovação depende deles.” 

Paralelamente, a equipe da UFRJ trabalha em duas frentes de pesquisa. “Uma delas é realizar um novo estudo clínico com o medicamento produzido em larga escala; a outra é um estudo em cães, para verificar se essa droga também pode ser usada para tratar pessoas que já têm lesão há mais tempo”, revela.

A ciência no Brasil

A história da polilaminina também revela outra dimensão importante do trabalho de Tatiana: uma pesquisa com potencial global está sendo conduzida dentro de uma universidade brasileira, em uma área na qual o País raramente ocupa posição de destaque. A própria trajetória do estudo expõe esse contraste. A Oeste, Tatiana resume o início como “um trabalho difícil de articulação”, ainda que tenha conseguido preservar “um bom desenho experimental”. Suas palavras deixam entrever a realidade fragmentada e, muitas vezes, solitária com que projetos científicos avançam no Brasil.

Ao falar sobre a primeira autorização que recebeu para testar a substância fora do laboratório, ela deixa claro o peso da oportunidade: “No momento em que a gente teve uma autorização para fazer isso, fizemos em sete pessoas”, diz. “Gostaríamos de ter podido expandir, mas para isso precisávamos de um pouco mais de tempo para poder ter um protocolo que fosse mais efetivo.” A frase evidencia como o progresso dependeu de janelas curtas, que precisavam ser aproveitadas imediatamente, algo comum na realidade da pesquisa biomédica nacional.

O esforço se sustentou, em grande parte, graças ao circuito de bolsas e auxílios federais, com aportes de CNPq e Capes. Foram esses recursos que mantiveram dezenas de estudantes no laboratório, financiaram etapas de experimentação e permitiram que o projeto sobrevivesse ao longo dos anos.

Quando os primeiros resultados se tornaram públicos, a própria Tatiana reconheceu que o impacto ultrapassou qualquer expectativa. “A aceitação veio do público”, afirmou. E, embora mantenha a cautela sobre o estágio da pesquisa, admite que a própria postura precisou mudar: “Sou muito conservadora nesse quesito. Não queríamos dar falsas esperanças, mas chegou um momento em que percebi que não tinha mais o direito de ser conservadora”. Para uma cientista acostumada a trabalhar em silêncio por décadas, o reconhecimento recente carrega o peso simbólico de um feito científico raro. E brasileiro.

Choque de realidade

Histórias como as de Bruno e Hanna despertam entusiasmo, mas eles sabem que a polilaminina, sozinha, não resolve. “Eu fazia fisioterapia de segunda a sexta, de manhã e à tarde, e ainda natação duas ou três vezes por semana”, lembra Bruno. “Se você não ralar, não haverá milagre. É muito esforço aliado à substância”. Os movimentos foram voltando aos poucos. A recuperação completa levou cerca de um ano e meio até se consolidar. Hoje, ele se considera entre 90% e 95% recuperado.

Oito pacientes foram tratados com a polilaminina, todos com lesões classificadas como ASIA A, a mais grave da escala. Seis apresentaram melhora de sensibilidade ou movimento; dois morreram por complicações relacionadas à lesão. Nenhum voltou a andar imediatamente, todos seguiram com longos processos de reabilitação.

O corpo que volta a sentir

A repercussão do trabalho de Tatiana Coelho de Sampaio ultrapassa as fronteiras do País. Suas pesquisas com a laminina renderam mais de 1,4 mil citações em periódicos científicos de todo o mundo, segundo o Google Scholar. A polilaminina pode transformar o destino de milhões que perderam os movimentos por causa de uma lesão na medula. Levantamento global publicado na revista BMC Medicine estima que 900 mil pessoas sofrem esse tipo de trauma a cada ano, e mais de 20 milhões convivem hoje com algum grau de paralisia permanente.

No Brasil, estima-se a ocorrência de 4 mil a 8 mil novos casos por ano, a depender da metodologia utilizada. Cerca de um terço desses pacientes perde totalmente a sensibilidade e o movimento abaixo do ponto da lesão. Para cada história como a de Bruno, há milhares de outras que terminam antes da chance de reabilitação. “Está autorizado ter esperança, mas precisa haver paciência”, explica Tatiana. “Ainda falta um pouco.” Esperança, de fato, ela já devolveu a muita gente.

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7 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Que trabalho louvável da Doutora Tatiana.
    O brasileiro possui capacidades que ele próprio desconhece por falta de condições apropriadas de desenvolvimento.
    Quantas Tatianas o país já desperdiçou por falta de políticas robustas nas áreas de pesquisa e desenvolvimento.
    Que nossa realidade se transforme e encontre um ambiente onde possam estes bravos cientistas desenvolver seu trabalho incansável em busca da melhoria das condições de vida de milhões de pessoas.

    1. MB
      MB

      É isso mesmo. E o desenvolvimento sem amarras políticas e sem crachás ideológicos. Tudo pela humanidade com total apoio aos Cientistas.

  2. Célio Antônio Carvalho
    Célio Antônio Carvalho

    A Ciência precisa de mais Tatianas. É emocionante, de chorar sim. Quanto vale um trabalho, um estudo desse, de décadas?
    Aqui no Brasil as coisas demoram, atrasam, faltam verbas. É preciso agilizar, correr contra o tempo. Dar condições para novos talentos, cientistas preparados, que precisam invariavelmente, se mudar para outro país. Aqui não tem condições de desenvolverem os seus trabalhos.
    Até quando? Veja que espetacular essa recuperação do Bruno! Há que se esforçar sim, mas é preciso ajuda para a Ciência brasileira!

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