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O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, Brasil, em 19 de novembro de 2025 | Foto: Reuters/Adriano Machado
Edição 298

A COP30 “flopou”

Com o dinheiro gasto para a realização da Conferência, seria possível construir 35 mil casas pelo programa Minha Casa, Minha Vida ou entregar quase 2 mil escolas públicas

Erguer 35 mil residências do programa Minha Casa, Minha Vida. Realizar obras para levar saneamento básico a cerca de 700 mil lares brasileiros. Construir e equipar 16 hospitais regionais completos, com pronto-socorro, maternidade, centro cirúrgico e unidade de terapia intensiva. Entregar mais de 1,9 mil escolas públicas. Manter o pagamento mensal de R$ 600 do Bolsa Família a 10 mil beneficiários por cerca de 70 anos. Esses são alguns exemplos do que se poderia fazer com R$ 5 bilhões. Até agora, nada nessa linha foi feito. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva preferiu empenhar esse valor em ações relacionadas à 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que “flopou” — gíria que significa fracassar — antes, durante e depois de sua realização.

O evento, que ocorreu em Belém, capital do Pará, no decorrer de duas semanas, foi ignorado por boa parte da comunidade internacional, teve problemas de infraestrutura que repercutiram no Brasil e no exterior e chegou ao fim com atraso e apresentando um relatório que frustrou quem esperava a formalização de pactos globais em prol da preservação do meio ambiente, uma das bandeiras do governo petista. Em vez disso, uma das conquistas mais relevantes destacadas foi a inserção, no documento, da constatação de que todo o mundo deveria ter direito a “um ambiente limpo, saudável e sustentável”.

A “flopada” da COP30 já deu as caras na Cúpula do Clima, que funciona como prévia da programação oficial. Apenas 31 chefes de Estado se fizeram presentes, número que representa metade das 61 autoridades de primeiro escalão que compareceram à COP29, realizada em Baku, capital do Azerbaijão, no ano passado. O fracasso fica ainda mais evidente quando Belém é comparada com Dubai (Emirados Árabes Unidos), Sharm El-Sheik (Egito) e Glasgow (Escócia), palcos das COPs 28, 27 e 26, respectivamente. Em cada uma delas, a adesão de chefes de Estado passou de cem.

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COP30 teve entre seus painelistas o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva — Belém (PA), 17/11/2025 | Foto: Antonio Scorza/COP30

Diferentemente de outras nações, que escalaram figuras de segundo e terceiro escalão, os Estados Unidos, maior potência econômica do mundo, sequer enviou delegação. O presidente Donald Trump ironizou o fato de que, para realizar a COP em plena Amazônia, autoridades brasileiras “devastaram a floresta” para construir uma estrada que abrisse caminho direto para o local onde políticos, diplomatas e demais convidados discutiriam como salvar o planeta.

Mesmo tentando posar de garoto-propaganda da COP30, Lula demonstrou, na prática, que o evento não foi item de tanta importância em sua agenda. Em vez de participar da reta final da conferência, preferiu abraçar outras atividades. Esteve em Belém pela última vez em 19 de novembro, sendo que a COP se estendeu até o dia 22, data em que ele já havia embarcado para mais uma viagem internacional, desta vez para África do Sul e Moçambique. Lula reclamou do fato de o chanceler alemão, Friedrich Merz, ter feito piada com o alívio que sentiu ao deixar o Pará, mas nem ele teve ânimo para alargar sua temporada no Estado.

Combustível para as críticas

Em sua programação inicial, a organização da COP30 previa atividades até a sexta-feira, 21 de novembro. Mas até isso flopou. Sem acordo entre as partes até então, o evento teve mais um dia de duração para que o relatório final conseguisse ser aprovado. Validação que se deu em meio a críticas até mesmo de vizinhos do Brasil. O documento, que não faz menção alguma à implantação de medidas que visem à diminuição do uso de combustíveis fósseis, teve contestação dos representantes do Uruguai, da Colômbia e do Panamá. Fora do campo diplomático, até dois jornais simpáticos ao governo Lula criticaram o material e o desfecho do encontro. A Folha de S.Paulo usou a palavra “despreparo” para resumir a organização. Para O Globo, o evento chegou ao fim com “sabor de frustração”.

Tal frustração recai sobre os ombros de Lula e da ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, avalia a jornalista Yahell Bonfim, especialista na cobertura de temas ambientais. “Os ‘Mapas do Caminho’ para o fim dos fósseis e do desmatamento, bandeiras centrais de Lula e Marina, não foram incorporados às decisões finais”, afirma. A “solução” beira a ironia: o tema foi empurrado para uma conferência específica na Colômbia, em abril de 2026. “A COP30 falhou em seu objetivo principal e a resposta foi criar um novo evento para discutir o que não conseguiram resolver agora. Isso expõe a fragilidade da articulação brasileira em conseguir consensos em um mundo dividido por tensões geopolíticas e preocupações reais, como a fome e a falta de energia para muitos”, diz Yahell.

As falhas da COP30 não se resumiram ao relatório. O deputado estadual Rogério Barra (PL-PA) acompanhou de perto o dia a dia da conferência, que contou com episódios de alagamento, protesto de grupo vestido como indígena e incêndio, entre vários outros problemas. Para o parlamentar, o que era para ser uma oportunidade de promover internacionalmente o que há de bom na Amazônia, como a cultura e os recursos naturais, serviu para tachar Belém, o Pará e o Brasil como símbolos de desleixo e desorganização. Além disso, ele afirma que o evento não teve a capacidade de transformar a vida da população local.

“A mobilidade segue precária, a drenagem continua crítica e o Pará permanece entre os últimos em ranking de saneamento básico”, reclama Barra. “Mesmo depois da COP, a cidade de Belém enfrenta os mesmos problemas diários. Quem se beneficiou foram poucos: empresas contratadas sem transparência e grupos apadrinhados pelo governo. O cidadão comum enfrenta enchente, transporte lotado e insegurança.”

Gastos na mira de denúncias de parlamentares, ausência de líderes mundiais, protesto, registros de goteiras, incêndio, relatório final irrelevante e as mazelas de Belém expostas para o mundo.

O deputado federal Delegado Éder Mauro (PL-PA) tem visão similar. De acordo com ele, a conferência não serviu para ajudar a combater problemas que historicamente assolam os belenenses. “Quem vive em Belém viu que a vida continuou exatamente a mesma. A cheia voltou logo depois. A cidade virou cenário de propaganda, não de transformação”, critica o congressista. “Do ponto de vista diplomático, o governo prometeu um grande resultado climático e não entregou algo concreto. Do ponto de vista da infraestrutura, tivemos obras superfaturadas e contratos sob suspeita. Isso não é legado, é desperdício.”

A falta de infraestrutura da cidade-sede da COP30 repercutiu além das fronteiras brasileiras. Enquanto tecnocratas discutiam sob ar-condicionado estratégias para melhorar a Terra, a jornalista canadense Sheila Gunn Reid, editora-chefe do site Rebel News, viralizava ao mostrar o que ocorria na periferia de Belém. Área devastada para obra em prol do encontro, lixos espalhados por estradas sem pavimentação e esgoto a céu aberto são situações exibidas em um vídeo com menos de quatro minutos de duração.

A COP da gastança

A série de problemas e falhas não foi motivo para a direção da COP30 pensar em economia. Em balanço parcial, o governo Lula declarou ter gastado cerca de R$ 800 milhões, dos quais R$ 350 milhões foram repassados à Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), entidade responsável pelo evento. Mais de R$ 70 milhões foram usados com hospedagem flutuante. Os gastos podem aumentar (e muito), pois o Palácio do Planalto defende a ideia de chegar a R$ 4,2 bilhões em investimentos e o ministro do Turismo, Celso Sabino, admite a possibilidade de o custo total romper a barreira dos R$ 5 bilhões.

O dinheiro destinado à organizadora da COP30 fez com que a dupla de deputados paraenses acionasse instituições competentes. “Barra e eu já entramos com representações nos órgãos de controle”, informa Éder Mauro. “O contrato da OEI é tão absurdo que levou o próprio governo a se enrolar: a Controladoria-Geral da União empurrou a responsabilidade para outro órgão e ninguém assumiu a fiscalização de quase meio bilhão de reais. Também levei as denúncias ao Tribunal de Contas da União.”

O absurdo que o deputado federal destaca é referente à forma como o contrato entre o governo federal e a OEI se deu: sem licitação. Para Éder Mauro, outro ponto a se criticar é a falta de qualidade do trabalho realizado. Afinal, a entidade que recebeu milhões de reais para organizar a conferência não conseguiu entregar uma estrutura livre de goteiras e, além disso, fez a COP da Amazônia entrar para a história como a primeira com registro de incêndio.

Como os gastos com a COP30 podem, no fim das contas, beirar os R$ 5 bilhões, o consultor econômico Gustavo Segré, colunista de Oeste e apresentador do programa Faroeste à Brasileira, afirma que não há como definir esse tipo de decisão como benéfica para a sociedade.

“Gasto não é investimento”, diz Segré. “O dinheiro que foi para a COP30 não volta, não melhora a vida da população e não constrói nada permanente — salvo a estrada que desmatou 100 mil árvores. É um gasto de palco, para discurso bonito, fotografia e propaganda.”

Gastos na mira de denúncias de parlamentares, ausência de líderes mundiais, protestos, goteiras, incêndio, relatório final irrelevante e as mazelas de Belém expostas ao mundo. A tentativa de transformar a COP em vitrine do governo para a campanha de 2026 foi por água abaixo. Para Lula, talvez tivesse sido melhor não ter “abrido” — como diria a primeira-dama Janja da Silva — a capital do Pará para a imprensa e autoridades estrangeiras.

Leia também “O fiasco da COP30”

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1 comentário
  1. Julio José Pinto Eira Velha
    Julio José Pinto Eira Velha

    O problema do governo brasileiro é o seu apego a religião, em cada evento ou obra realizada leva sempre um terço.

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