Era uma vez, num reino muito distante, um poder magnânimo e uma imprensa amiga. A amizade é um dos valores humanos mais elevados, pois pressupõe gratuidade. Mas, como sempre, havia os invejosos. Eles insinuavam que aquela amizade era interesseira. Gente má.
Desde a Antiguidade, uma imprensa amiga é o coração de qualquer democracia. Ainda mais se o regime é baseado no amor. Era exatamente o que acontecia naquele reino distante: o amor do governo e a amizade da imprensa produziam a química necessária e suficiente para garantir a felicidade do povo.

Mas surgiu um problema. Sim, até nos melhores contos de fadas surgem problemas. E o problema foi que o povo começou a ficar feliz demais. Como todo mundo sabe e não é segredo para ninguém, felicidade demais faz mal. Então os maiores cérebros do reino foram convocados para buscar uma solução emergencial para o drama da felicidade popular excessiva.
Para o bem de todos e felicidade geral do reino, a solução apareceu. E era genial. Após sete dias e sete noites de imersão total, sem qualquer contato com a luz do dia, a junta das mentes privilegiadas chegou à fórmula salvadora: a imprensa ia passar a mentir.
Assim que o plano da cúpula de luminares foi divulgado, notou-se um certo estranhamento entre os populares. Afinal, a missão essencial da imprensa era falar a verdade. Mas logo o mal-entendido foi contornado. Todos entenderam que a mentira seria para o bem do povo. O excesso de felicidade tinha saído do controle e já ameaçava a própria democracia. Era preciso agir rápido.

A primeira providência da imprensa amiga do reino foi justamente relacionada à democracia. Para estancar o transbordamento de felicidade, tudo que era democrático passou a ser chamado de autoritário — e tudo que era autoritário passou a ir para as manchetes como defesa da democracia.
A revolta começou a brotar por toda parte e uma pesquisa genial logo constatou: 50,1% dos populares estavam felizes com a redução da felicidade.
O sucesso da fórmula levou as autoridades do reino a ampliar sua aplicação. Dali em diante, quem fosse flagrado fazendo o povo feliz ficava sujeito a punições severas. Os reincidentes poderiam até enfrentar o banimento da sociedade — se ficasse provada a propagação de felicidade dolosa.

Os poetas e os bardos passaram a percorrer o reino fazendo elegias aos poderosos — numa ação corajosa em defesa dos fortes contra a crueldade dos fracos. A imprensa amiga embelezava o quanto podia essa missão estoica. Nos castelos do reino, ninguém soltava a mão de ninguém.
Quando as pesquisas constaram que 100% do povo estava feliz com a perda completa da felicidade, as autoridades anunciaram que a democracia estava salva. E foram felizes para sempre — sem moderação.
Leia também “O feirão da salvação”




genial Fiuza, muito boa analogia
Ninguem é um Fiuza por acaso, uma mente sadia só pode produzir coisas fantásticas.
E o país não é a distante Coreia do Norte do ditador fofo com harém e banda musical feminina. Também estas estavam tão felizes que muitas foram exterminadas pelo excesso de música.Era muita música de Lennon e McCartney.
Guilherme Fiuza , Você é fantástico em suas escritas. uma inteligência absurda. Você escreve com uma ironia tão leve que penso que só os eleitores da Revista Oeste são capazes de ler , entender e interpretar. Aqui uma leve ironia minha. Já entenderam o que eu quis dizer. Parabéns às pessoas que podem ler seus textos. A felicidade é muito grande. Leio sorrindo em quase todo o texto. Obrigado Fiuza…muito obrigado.
Muito bom, Fiuza! Mas como é revoltante essa situação, hein?
Feliz como sempre Fiuza
Textos para a posteridade. Desde Sérgio Porto não tinha uma pessoa tão brilhante.
Sensacional!