O que realmente importa para a juventude, para além de suas frequentes exibições de apoio a causas supostamente (ainda que raramente) boas e humanitárias? Descobri a resposta há alguns anos, quando escrevi um artigo em um jornal flamengo no qual propus a hipótese, meio a sério, meio de brincadeira (pois não considero seriedade e humor polos opostos), de que o rock era a principal causa da criminalidade no mundo ocidental. Errei, claro: deveria ter dito rap.
De todos os milhares de artigos que já escrevi, este foi o único que gerou um vendaval de protestos. Isso foi há alguns anos: centenas de jovens escreveram para dizer que nunca mais comprariam ou leriam o jornal. Acontece que, em pouco tempo, eles não iriam comprar nem ler o jornal de qualquer maneira, nem mesmo em formato eletrônico, aparecessem meus artigos futuros ou não, porque o hábito de comprar e ler jornais estava morrendo.
Uma das coisas que os jovens enfurecidos disseram foi que eu era um esnobe: que eu me opunha à música porque detestava e desprezava “as pessoas”. Mas estavam errados. O que eu detestava e desprezava era a música popular anglo-americana contemporânea. Era a música que eu detestava, não sua popularidade.
Embora, musicalmente iletrado como sou, eu considere Bach e Mozart o ápice da empreitada musical da humanidade, apreciei música popular de diversas partes do mundo, ou de grande parte dele. Umm Kalthum, do Egito; Amália Rodrigues, de Portugal; Édith Piaf, da França; e Ella Fitzgerald, dos Estados Unidos, foram, todas, grandes cantoras.

Tudo isso é apenas uma introdução à minha reflexão sobre um tango maravilhoso, Cambalache (“Cambalacho”), cantado por Julio Sosa, o cantor de tango nascido no Uruguai.
Sosa tinha origens humildes e, ao se tornar uma estrela, pegou o gosto por carros rápidos e caros. Em um deles morreu, em 1964, com a tenra idade de 38 anos. Vendo vídeos dele, do ponto de vista de 2025, parece quase inacreditável que um homem com sua aparência, vestido de terno e gravata (com lenço no bolso do paletó), tenha sido um cantor popular. Estranhamente, ler sobre tal tragédia, uma perda tão dolorosa, uma vida jogada fora, me afeta mais poderosamente na minha idade avançada do que quando eu era jovem, quando eu simplesmente teria dado de ombros.
A letra do tango fala de maneira tão poderosa quanto em 1934, quando foi escrita. A primeira linha já define o tom e não é otimista:
Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé…
(“Que o mundo foi e será uma porcaria, eu já sei…”)
A letra então nos diz que o mundo sempre teve seus canalhas, seus maquiavélicos, seus enganados, seus satisfeitos, seus amargurados, seus “dois pesos e duas medidas”:
Pero que el siglo veinte es un despliegue
De maldad insolente, ya no hay quien lo niegue…
(“Mas que o século vinte é uma exibição
De maldade insolente, já não há quem o negue…”)
Além do mais, quando isso foi escrito, o século 20 ainda não havia feito o seu pior, muito longe disso.
Somos propensos a pensar que nossos descontentamentos atuais são inéditos ou, pelo menos, piores do que nunca. Isso ocorre porque não há prazer em uma situação que é ruim, mas não a pior possível, enquanto há um certo orgulho ou satisfação em viver em uma situação que é ruim de uma maneira completamente nova, ou é a pior de todos os tempos.
Somos particularmente propensos a lamentar a perda do que pensamos ter tido um dia — por exemplo, uma escala decente de valores. Pensamos que vivemos agora em um tempo de perda ou ausência de padrões sem precedentes, do triunfo do meretrício sobre o que é bom, porque perdemos a capacidade de distinguir entre os dois. Mas ouça Cambalache, escrito há mais de 90 anos:
Hoy resulta que es lo mismo ser derecho que traidor
Ignorante, sabio o chorro, pretencioso o estafador
Todo es igual, nada es mejor
¡Lo mismo un burro que un gran profesor!
(“Hoje, acontece que é o mesmo ser honesto ou traidor
Ignorante, sábio ou ladrão, pretensioso ou golpista
Tudo é igual, nada é melhor
O mesmo um burro que um grande professor!”)

Quantas vezes repeti para mim mesmo em protesto silencioso as palavras “Tudo é igual, nada é melhor”, como uma forma de descrever o que vejo ao meu redor! Elas foram gravadas indelevelmente em minha mente na primeira vez em que as ouvi. É estranho que palavras tão desanimadoras também possam ser reconfortantes, como se nomear um fenômeno fosse domá-lo, arrancar-lhe o ferrão.
As linhas que citei ilustram como as coisas mudam e, ainda assim, permanecem as mesmas. A canção sugere que um burro e um grande professor são opostos em termos de intelecto, e em 1934 isso ainda seria verdade. Grandes professores eram dignos de respeito, diz a canção, mas não eram mais respeitados do que burros.
Anos de educação formal e sofisticação cultural não são a mesma coisa, e não andam de mãos dadas.
Mas com o vasto aumento no número de universidades, a proporção da população que as frequenta e a consequente explosão no número de pessoas com o título de “professor”, a igualdade de respeito entre um burro e um professor já não nos choca tanto. Não quero exagerar, claro: ainda há muitos professores dignos de profundo respeito. Mas há muitos, infelizmente uma proporção crescente, que não o são. Quando eu era jovem, você podia presumir que todo professor, com pouquíssimas exceções, era uma pessoa de valor, independentemente de suas peculiaridades. Professores eram poucos e tendiam a inspirar respeito.
Portanto, faríamos a observação de que perdemos a capacidade de distinguir o meritório do meretrício de maneira diferente hoje, mas o significado subjacente permaneceria o mesmo. Essa incapacidade é pior agora do que era então? Cambalache menciona dois heróis na mesma linha, ironicamente: San Martín, o libertador de Argentina, Chile e Peru, e Primo Carnera, o boxeador peso-pesado italiano, como se suas façanhas tivessem valor equivalente. Quantas vezes já vi Michael Jordan, o ex-jogador de basquete, ser comparado a Mozart!

Tenho mais duas coisas a dizer sobre o assunto. Cambalache é música popular, mas é intelectualmente estimulante de uma forma que pouca música popular é hoje em dia. Gostamos de supor que o nível geral de educação é mais alto agora do que em 1934, mas parece que o gosto se tornou menos, não mais, sofisticado, no período intermediário. Anos de educação formal e sofisticação cultural não são a mesma coisa, e não andam de mãos dadas.
A segunda coisa que quero mencionar é que a música de todos os grandes cantores populares que citei compartilha uma qualidade com Mozart: a capacidade de evocar alegria e melancolia, indissoluvelmente, ao mesmo tempo. Como pode ser isso? Não são alegria e melancolia quase opostas?
Só posso citar o grande poeta inglês, John Keats — que morreu muito cedo, aos vinte e cinco anos, de tuberculose, não de carros esportivos:
Ay, in the very temple of Delight
Veil’d Melancholy has her sovran shrine,
Though seen of none save him whose strenuous tongue
Can burst Joy’s grape against his palate fine…
(“Ah, no próprio templo do Prazer
A Melancolia Velada tem seu altar soberano,
Embora vista por ninguém, exceto por aquele cuja língua vigorosa
Pode estourar a uva da Alegria contra seu paladar refinado…”)
Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.
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