A comemoração de 40 anos da Independência do Estado de Israel foi um marco na vida de David R. O ano era 1988. Nascido na Argentina, ele estava havia seis no Rio de Janeiro, para onde se mudara com a família. Intercalava o futebol e a praia em Copacabana com os estudos no Colégio Bar-Ilan. David adorava o pôr do sol e o burburinho dos bares. Mas, naquele dia, ao ouvir o discurso de representantes de Israel no colégio, sua vida mudou. Decidiu que iria morar naquele país.
Mais de 30 anos depois, aos 53, uniu o improviso carioca à disciplina do Exército. Havia décadas, morava no país judaico. Tornou-se coronel (um posto antes de general). No 7 de outubro, assumiu, por conta própria, o comando de 1,4 mil pessoas no combate contra os terroristas.
Àquela altura, continuava servindo na reserva como subcomandante da Região Sul. Ele comanda toda a região entre Ashdod, Ashkelon, Kiryat Gat, Kiryat Malachi e mais oito conselhos regionais. David é responsável pela gestão e preparação para situações de emergência. Estão sob sua liderança dois batalhões de resgate e defesa. Em 7 de outubro, ele conduziu operações na praia de Ashkelon.
Acordado às pressas pela mulher, David deixou sua intuição prevalecer. Mísseis caíam na vizinhança. A Oeste, ele conta esse episódio e fala sobre o conflito com o Irã, no qual também atuou.
Como foi sua vida no Brasil?
Nasci em Buenos Aires. Com 10 anos fui para o Brasil. No Rio, estudei no Colégio Bar-Ilan. Passei lá minha adolescência até os 17. Foi uma época linda. O Brasil é uma segunda casa para mim.
O senhor imaginava morar em Israel e entrar para o Exército?
Não imaginava, mas no Brasil falava-se muito de Israel na comunidade judaica. Em 1988, nos 40 anos de Israel, vieram pessoas falar sobre o Estado. Disse ao meu pai: ‘Temos que ir para Israel. É nossa terra’.
O senhor conheceu Israel antes de morar lá?
Fui para um programa de dois meses. Meus amigos voltaram, eu voltei só para avisar meus pais que queria imigrar. Meu pai disse: ‘Espere até os 18’. Respondi: ‘Preciso ir agora’. Ele me apoiou.
Lembra dos primeiros dias?
Meu irmão, mais velho, me esperou no aeroporto. Era uma noite de verão. Fomos ao Muro das Lamentações, eu era jovem, senti grande emoção. No dia seguinte fui para a escola. Era interna. Todos iam com mochila. Fui com uma mala enorme, era recém-chegado ao país. Perguntaram de onde eu vinha e eu disse ‘Brasil’. Começaram conversas sobre futebol e pronto.
Como é essa experiência do Exército?
Estudei na Universidade Bar-Ilan, fiz MBA de Ciências Sociais e mestrado em Segurança Nacional, mas, de 1992 a 2018, fiquei direto no Exército.
Foi difícil a adaptação?
Entrei aos 18 anos numa divisão muito difícil, fiz provas difíceis. Sempre gostei de esporte. No sábado, folga, era mais difícil. É diferente ser um estudante livre em Jerusalém e ser um soldado. Senti o que é estar sem família. A saudade, porém, passa a ser secundária. Comecei a perceber que eu tinha espírito de liderança. Tudo foi mudando. Tive experiências de combate na infantaria e em divisões de elite: Guerra do Líbano 2006, missão de 2009 em Gaza como comandante de batalhão.
No 7 de outubro, o que aconteceu?
Cheguei no início da noite e sentei para jantar. Era Simchat Torá (festa religiosa). Falei para as crianças: ‘Amanhã vamos à sinagoga’. Às 6h30, minha mulher me acorda: ‘Está acontecendo alguma coisa’. Moro a 40 quilômetros de Gaza. A vizinhança começou a ser bombardeada.
Qual foi sua reação?
Coloquei minha família (a mulher e três dos seus filhos) no quarto especial. Desde 2018, eu estava na reserva. Eu podia dizer: ‘Fico em casa e espero’. Mas falei com minha divisão no celular. E saí porque meu comando foi atacado, morreram sete soldados. Meu filho mais velho, de 21 anos, está numa divisão e veio comigo. Ele sabia mais, os jovens têm Instagram.
Por que decidiu sair por conta própria?
Porque naquele momento eu não tinha comando. Tive que tomar uma decisão muito séria. Às 6h38, pensei: ‘Recruto 1,4 mil soldados ou espero ordens?’. Então dei a ordem: ‘É guerra, nos encontramos em Ashkelon’. Meu motorista mora ao lado. Ele tem sete filhos e a mulher dele é oficial da polícia. Saímos juntos, para a região que comando.
Como foi a chegada a Ashkelon?
Tudo foi bombardeado. Tentávamos chegar, mas a estrada estava fechada, muitos terroristas. Só conseguimos chegar por volta das 11h30. A cada dez metros eu tinha que ficar no chão, porque atiravam. Eu estava só com uma pistola. Também lançavam mísseis. Cheguei a uma loja de armas. Foi algo surreal.
“‘Se não valorizarmos a moral, vamos perder a guerra’. Contra esses terroristas nazistas, o que vai ganhar é a moralidade.”
O que houve?
Encontrei o dono, um senhor de mais de 70 anos, que lutou na guerra de Yom Kipur. Eu disse: ‘Tenho mil soldados, mas não tenho armas’. Ele disse: ‘Entre e pegue as armas’. Esse homem é um santo, era a vida dele. As armas são caras. Peguei armas e fomos lutar. Isso nos salvou.
Seu filho se deslocou para outra região, é isso?
Meu filho já estava quase em Gaza. Ele soube que um amigo tinha sido atingido. Em um celular eu comandava meus soldados, no outro falava com ele. Dava ordens porque o comandante dele estava ferido. Eu lutava por meu filho, por mim e por todos.
Deu para pensar em alguma coisa?
Minha filha, de 16 anos, resgatou as conversas no celular. Escutei minha voz dando ordens ao meu filho, que não eram nada simples. Foram muito claras e práticas. Não lembro se eu tinha algum sentimento. Mas eu falo para ele tomar cuidado, olhar para cá, para lá, salvar tal pessoa.
Como ele respondia?
Em um momento ele disse: ‘Pai, meu amigo está ferido’. Coloquei ele para falar com o médico do meu grupo, com a câmera. A vida do amigo e de uma família foram salvas. Depois, tudo veio de repente. ‘Uau, o que fiz?’, perguntei-me dias depois, quando fui dormir.
Conte um episódio marcante em Ashkelon.
Chegamos a um prédio atingido por um míssil. Entramos com o meu carro de ré. Abrimos o porta-malas e primeiro colocamos uma moça muito ferida. Depois tiramos outras pessoas. Havia terroristas, que tínhamos que controlar.
O senhor ficou frente a frente com terroristas?
Sim. Nesse dia e dias depois.
O senhor acertou algum?
Quando houve necessidade, sim. Claro.
Como lida com a pressão do mundo contra Israel?
Minha missão é defender Israel. Primeiro são meus civis, depois meus soldados e eu sou o último. Quando escuto tanta maldade, sem a lembrança da brutalidade que sofremos, dói. Mas na missão você está focado.
Como o Exército lida com acusações sobre mortes de civis?
Digo para os meus soldados: ‘Se não valorizarmos a moral, vamos perder a guerra’. Contra esses terroristas nazistas, o que vai ganhar é a moralidade. Claro que em qualquer guerra civis acabam morrendo. Mas não vejo nenhum soldado sem a capacidade de diferenciar entre o inimigo e o civil. E se isso acontece, Israel sabe tratar.
“Quem atacar Israel ou o povo judeu pagará seu preço, em qualquer lugar.”
Como lidar com o ódio nestes combates?
Tenho raiva e dor. Perdi dois amigos e amigos perderam filhos. Mas tem que segurar. Tem que entender que a missão não é vingança, mas a defesa e o combate aos terroristas.
Como foi o conflito com o Irã?
Nunca imaginei que aconteceria na minha vez. Achei que o Irã entendia que um ataque seria a eliminação dele. Foi um erro deles. Agora estão desnudos. Mostramos que podemos chegar até eles e a qualquer lugar. De repente, isso aconteceu. Estávamos muito preparados.
Como analisa o 7 de outubro, do ponto de vista militar?
Um oficial me disse: ‘Poderemos dizer no futuro que o 7 de outubro salvou Israel’. Se em 2022 alguém dissesse que não existe Yahya Sinwar, que o Hamas e o Hezbollah se enfraqueceram, que o Irã foi atingido, pareceria milagre. Houve muita dor. Mas o resultado depois foi incrível.
O senhor estava mais tranquilo com o Irã?
Sim. O inimigo ameaçou e caiu. O 7 de outubro foi nossa queda. O Exército não fez o que tinha que fazer no dia. Mas depois nos recuperamos. Claro que focados, com pressão e trabalho, porém sabíamos o que fazíamos.
E Israel, pode ficar tranquilo?
Estamos alertas e prontos. Nada acabou. Temos que preparar novos oficiais e armamentos. E fazer os inimigos entenderem que quem atacar Israel ou o povo judeu pagará seu preço, em qualquer lugar.
O senhor tem uma startup que trabalha com segurança?
Na parte civil, tento ajudar não só o Exército, mas os institutos de segurança, educando novos oficiais, formando novas lideranças e com soluções tecnológicas.
O senhor está pronto caso haja nova situação?
Contei minha história para jovens que estão entrando no Exército. Por vídeo, uma jovem de 17 anos me perguntou, emocionada, se eu voltasse à idade deles, [se] faria tudo de novo. A resposta é: claro que sim.
Leia também “Direita retoma espaço na América do Sul”




Entre ou assine para enviar um comentário.
Você precisa de uma assinatura válida para enviar um comentário, faça um upgrade aqui.