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José Antonio Kast, candidato à presidência do Chile pelo Partido Republicano (de extrema-direita), gesticula durante um comício antes do segundo turno das eleições presidenciais, em 14 de dezembro, em Concepción, Chile, em 6 de dezembro de 2025 | Foto: Juan Gonzalez/Reuters
Edição 301

O equilíbrio da direita

A vitória de José Antonio Kast no Chile coloca a América do Sul em nova fase e marca o fim do predomínio dos governos de esquerda na região

Dois dias depois de ser eleito presidente do Chile, o conservador José Antonio Kast visitou o argentino Javier Milei na Casa Rosada. Foi recebido com um caloroso abraço. Na véspera, o presidente da Argentina celebrara a vitória do colega: “Mais um passo em frente para nossa região na defesa da vida, da liberdade e da propriedade privada”. Em outro post, a euforia veio acompanhada de um “a esquerda retrocede, a liberdade avança”. Milei (do La Libertad Avanza) celebrava o fim do predomínio da esquerda na América do Sul. No início do século 21, a chamada Onda Rosa levara ao poder governos que ficariam marcados por corrupção sistêmica, crises econômicas, enfraquecimento de instituições e prisões de presidentes.



O termo Onda Rosa buscava suavizar o “vermelho” tradicionalmente associado à esquerda a fim de reduzir a rejeição popular. Sob esse rótulo, consolidou-se um ciclo político que prometia inclusão social e crescimento, mas que, em muitos países, produziu resultados opostos. Nos primeiros 15 anos deste século, foram eleitos Fernando Lugo, no Paraguai; Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil; Hugo Chávez e Nicolás Maduro, na Venezuela; Alejandro Toledo, no Peru; Cristina Kirchner, na Argentina; Evo Morales, na Bolívia; e Gustavo Petro, na Colômbia. Em comum, o acúmulo de déficits fiscais, aumento da criminalidade e escândalos de corrupção.

O quadro na região, que em 2010 chegou a ter oito presidentes de esquerda e quatro de direita, começou a se equilibrar em 2025. Em outubro, Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata Cristão, venceu as eleições para a presidência da Bolívia, encerrando duas décadas de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS) de Evo Morales, que teve sua prisão decretada. Poucos dias antes, o Congresso do Peru destituiu Dina Boluarte, de origem marxista, substituída pelo liberal José Jerí, do Somos Peru. Os episódios ocorreram em meio a crises herdadas de administrações anteriores. Em 14 de dezembro, Kast foi eleito presidente do Chile, com mais de 58% dos votos, contra menos de 42% da comunista Jeannette Jara. Advogado de 59 anos e líder do Partido Republicano, Kast vai assumir o cargo em 11 de março de 2026, com mandato até 2030. Impôs a maior derrota da esquerda do Chile, governado pelo esquerdista Gabriel Boric desde 2021.

Nova aliança

Kast moderou o discurso da eleição anterior, quando perdeu para Boric, defendendo o regime de Pinochet e com declarações fortes contra grupos LGBTQ+. Desta vez, atraiu o eleitorado de centro com temas como segurança, imigração e crescimento econômico. O discurso reflete uma demanda que levou a direita a ter, no ciclo eleitoral de 2025-2026, seis dos 12 presidentes do continente. O equatoriano Daniel Noboa (Acción Democrática Nacional), o paraguaio Santiago Peña (Colorado) e Jennifer Simons (Partido Nacional Democrático – NDP), do Suriname, têm a mesma pauta conservadora. Ao lado de Kast, Milei e Paz Pereira.

O encontro de Milei e Kast, aliados do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, simboliza a formação da nova frente sul-americana, encabeçada por Chile e Argentina. Pela primeira vez em mais de cinco décadas, os dois países estão plenamente alinhados, embora já mantivessem boas relações, inclusive comerciais, desde o Tratado de Paz de 1984, que resolveu o impasse em relação às ilhas do Canal de Beagle. Nunca, porém, convergiram com governos de identidade tão próxima.

Desde 1990, quando se encerrou o regime de Augusto Pinochet (1973-1990), no Chile, a relação tinha um caráter marcado pelo pragmatismo. Governos esquerdistas de Patricio Aylwin (1990–1994), Eduardo Frei (1994–2000) e Ricardo Lagos (2000–2006) dialogavam com o liberal Carlos Menem (1989–1999) e outros marcados por crises, como o de Fernando de la Rúa (1999–2001). Um momento de maior afinidade ocorreu entre 2016 e 2019, com o argentino Mauricio Macri na Argentina (2015–2019) e o chileno Sebastián Piñera em seu segundo mandato (2018–2022). Ambos representavam uma direita liberal, pró-mercado e crítica ao populismo latino-americano. Mas a volta do kirchnerismo populista, com Alberto Fernández, enfraqueceu a aliança que agora promete liderar uma nova etapa no continente.

Encontro de Javier Milei, presidente da Argentina, e José Antônio Kast, presidente do Chile | Foto: Reprodução/Governo da Argentina

Retrato do continente

Depois do encontro com Milei, Kast afirmou que “o objetivo é impulsionar um corredor humanitário para devolver os migrantes que se encontram em situação irregular”. A questão da imigração foi um dos fatores que levaram Kast à presidência. E se mostra um retrato de todo o continente, não só integrado por meio de blocos, como pelos problemas em comum entre os países. A fama de estabilidade levou o Chile a se tornar um polo de atração de imigrantes, que fugiam da violência, da miséria e da falta de perspectiva em nações da região. Mas, enquanto abria portas a um grande número de pessoas, o governo chileno, do esquerdista Gabriel Boric, não conseguia evitar a desaceleração na economia. Nos últimos três anos, pelo menos, o Produto Interno Bruto chileno tem sofrido constantes reduções. No segundo trimestre de 2025, a contração foi de 0,1%.

“Não há coerência entre a narrativa da justiça social proposta e a maneira com que alguns governantes de esquerda passam a agir. As pessoas não são ingênuas.”

As dificuldades econômicas têm afetado o bolso da população. O consumo está em queda. Enquanto isso, o número de residentes estrangeiros no Chile, segundo dados do governo, cresceu cerca de 50% entre 2018 e 2023. Chegou a 1,9 milhão de pessoas, algo em torno de um décimo da população. O número de imigrantes em situação irregular subiu de 10 mil em 2018 para quase 340 mil em 2023. “O Chile será para os chilenos e para todos que cumprirem e respeitarem a lei”, disse Kast no início do ano. Em seu governo, a vigilância militar nas fronteiras será reforçada e muitas deportações deverão ocorrer.

A alta da criminalidade nos países ao redor também reverbera no Chile. O narcotráfico tem crescido em nações como o Peru (quase 50% entre 2023 e 2024), segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. No Equador, o aumento foi de cerca de 590% entre 2019 e 2024, relata o governo local. 

A entidade InSight Crime informou que a violência nas prisões equatorianas também recrudesceu. 

As organizações criminosas, cada vez mais fortalecidas, buscam se expandir para novos territórios. “No Chile, como em todos os países, existem organizações em certos setores ou bairros que estão ligadas ao seu entorno, mas que podem ser muito violentas se se sentirem ameaçadas em suas atividades criminosas”, afirma à BBC Daniel Johnson, diretor executivo da Fundación Paz Ciudadana. “No entanto, o que sempre existiu e era relativamente controlado agora apresenta uma dinâmica diferente. Há um maior uso de armas de fogo em homicídios e muito mais homicídios planejados no Chile, sem que nenhum suspeito seja identificado.”

Maduro acuado

A sensação de insegurança passou a moldar comportamentos no Chile: empresas fecham mais cedo, consumidores evitam sair à noite e cresce a demanda por segurança privada. Não foi por acaso que a segurança pública — incluindo crime e narcotráfico — virou tema dominante na campanha presidencial. A agência Global Initiative informou que, em 2023, foram constatados no Chile “indícios de controle territorial por quadrilhas de criminosos”, além de “fenômenos pouco habituais no país”, como a realização de funerais de membros de organizações criminosas. Estas cerimônias, muitas vezes, ocupam bairros.

Ações ineficazes da esquerda, como um todo, acabaram contribuindo para este cenário, na opinião da cientista política Juliana Fratini, doutora pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “A ineficiência é, sobretudo, percebida por meio dos vícios que os governos de esquerda assumem depois de tomarem posse e permanecerem por tempos no poder”, afirma. “Não há coerência entre a narrativa da justiça social proposta e a maneira com alguns governantes de esquerda passam a agir. As pessoas não são ingênuas. Elas percebem que estão sendo enganadas.”

Kast se juntará ao eixo da direita com a missão de ajudar a recolocar o continente nos trilhos. O aumento da criminalidade em um país repercute no vizinho. Assim como a crise econômica. Alinhado aos conceitos do presidente Donald Trump no combate ao narcotráfico, o chileno definiu Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, como “narcoditador”. Maduro, aliás, foi o único presidente, mesmo entre os de esquerda, a não felicitar Kast pela vitória. Não poderia ser diferente. Ameaçado de perder o cargo, conquistado em uma eleição ilegal, o venezuelano está cada vez mais acuado pelos Estados Unidos. A revolta de Maduro, acusado de liderar um cartel do narcotráfico, é mais um indício destes novos tempos. Ele sabe que o pêndulo político sul-americano começa a mudar de lado. 

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2 comentários
  1. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Que a razão e o bom senso possam ser comemorados no Brasil em 2026.

    1. João Carlos de Souza Carvalho
      João Carlos de Souza Carvalho

      Teresa , concordo mas depende de nós eleitores !

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