Muita gente serena e sensata tem escolhido o silêncio. Andamos no fio da navalha, ameaçados de um lado por ativismo judicial e do outro por cancelamentos. A paciência coletiva se esgota. Sinceridade, combinada com raciocínio, pode resultar em represálias jurídicas e até policiais. Mensagens percebidas como desleais à esperança popular produzem rejeição social. Se correr, o bicho prende, se ficar, o bicho cancela.
Nos últimos dias, as redes foram tomadas por uma guerra entre os fragmentos da direita. O motivo foi a decisão dos Estados Unidos de suspender as sanções Magnitsky. O governo americano explicou em detalhe por que as sanções foram impostas, mas não por que foram retiradas. Imediatamente surgiram teorias. A retirada seria uma armadilha, dizem alguns; com a suspensão das sanções, Trump pretenderia encorajar novos movimentos judiciais que, então, seriam implacavelmente punidos. É difícil encontrar sentido nisso. Outros dizem ter havido uma negociação secreta. Os itens negociados variam de acordo com a versão. Segundo alguns, o ponto principal seriam as tais terras raras. Para outros, a negociação envolveria o uso da base de Alcântara para lançamentos espaciais, ou o repúdio, pelo governo brasileiro, de contratos com empresas chinesas de satélite, ou ainda o compromisso de não censurar as redes. Nenhuma evidência foi apresentada. Veículos de mídia apontaram certo megapecuarista como o mediador desse acordo; outro veículo jura que a intermediação foi feita por um conhecido banqueiro.

Personalidades da política — algumas muito respeitadas — sugeriram que a culpa pelo fim das sanções poderia ser da apatia dos brasileiros. Mas o que o brasileiro poderia ter feito? Melhor dizendo: o que mais os brasileiros poderiam fazer? Outros culparam as expectativas, nutridas por muitos, de que os EUA ajudariam o Brasil a encontrar o rumo. Mas as expectativas foram alimentadas por declarações do próprio governo americano. Foi o governo Trump que criou as expectativas — não só da manutenção eterna das sanções, mas de sua ampliação.
O resultado é uma geleia geral, na qual pessoas que não sabem quase nada dizem quase tudo. O sabor é de derrota. Muitas vezes, uma derrota traz importantes lições. Em outras, é apenas uma derrota. Esse parece ser o caso agora.
O Brasil não vive normalidade pelo menos desde o início de 2019, quando foi aberto o Inquérito das Fake News. A situação se deteriora continuamente, sem qualquer episódio que caracterize um mínimo de retorno à normalidade. Muitos políticos agem como se nada estivesse acontecendo; talvez seja justo até dizer que vários enxergam nisso uma oportunidade de ganhos políticos.

É improvável que concessões eventualmente negociadas em troca da retirada das sanções tenham impacto positivo maior do que sua manutenção. Dizendo de outra forma: a aplicação e a posterior retirada das sanções provavelmente deixam o país em situação mais frágil do que ele estaria se as sanções nunca tivessem sido aplicadas em primeiro lugar.
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Perfeito comentário
a unica coisa que sei é que temos um ministro com dinheiro muito dinheiro acima e muito acima que um estado brasileiro pode pagar.
Algo inexplicável e as pessoas normalizam essa aberração
Perfeita análise.
A verdade é que Trump, muitas vezes aclamado por esta revista por sinal, é um ser egocêntrico e nada confiável. Para ele o que interessa é a sua vitória pessoal e danem-se os valores. Pena de quem endeusou este ser abjeto, como a Revista Oeste, que nunca teceu uma crítica a este cidadão!