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Mão do presidente Lula sobre a bandeira do PT
Mão do presidente Lula sobre a bandeira do PT | Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Edição 303

Vinte e Cinco Anos de Solidão

Gostaria de ter boas notícias. Excluída essa hipótese, nos resta fazer uma breve retrospectiva dos primeiros 25 anos do século 21

Um dos riscos de procurar sentido nos acontecimentos no Brasil é produzir um relato entediante e confuso, devido à aparição repetida dos mesmos personagens. É como se a história nacional fosse uma cópia malfeita do romance Cem Anos de Solidão — um livro no qual os nomes se repetem tanto que, depois de uma dezena de páginas, a maioria dos leitores estará completamente perdida.

O brasileiro está completamente perdido.

Começamos o século cheios de esperança em uma constituição recém-escrita; parecia evidente que ela mudaria tudo. A esperança tinha outra justificativa: em 1995, um intelectual tinha tomado posse como presidente da república. FHC era um político de estirpe claramente superior a todos os que o antecederam. Não se tratava apenas de sentimento: ele havia sido um dos responsáveis pelo maior feito da política brasileira até então, o controle da hiperinflação que, em alguns meses, ultrapassara 80% (essa é uma herança que as novas gerações não receberam — pelo menos por enquanto — e uma prova de que nem tudo, necessariamente, piora).

Senador Fernando Henrique Cardoso assina a Constituição em 29/9/1988 | Foto: Célio Azevedo/Wikimedia Commons

Na virada do ano 2000, eu trabalhava na Telemar, uma das empresas criadas pelo programa de privatização das estatais de telecomunicação. Os frutos desse programa pareciam um milagre: embora o processo tivesse sido imperfeito (como são todas as privatizações), o serviço de telefonia foi universalizado, as tarifas despencaram e a internet e os telefones celulares — tão escassos que, durante algum tempo, eram disponíveis apenas por sorteio — chegaram ao alcance de todos os brasileiros. A internet e o celular, junto com as redes sociais, seriam, no futuro, a base de movimentos políticos tão radicais quanto inesperados.

Em 2003, o presidente intelectual passou a faixa para o presidente operário. Esse momento, na mente e no coração de milhões, representou a consolidação da democracia. O país havia se livrado do autoritarismo e atingido um nível inédito de civilização. Só o Brasil tem um presidente torneiro mecânico. A maioria da população — esse autor incluído — sequer tinha vocabulário para expressar a fé depositada nos políticos. Enquanto isso, esses mesmos políticos iniciavam um processo de tomada de poder sem precedentes.

O presidente Fernando Henrique Cardoso passa a faixa ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no parlatório do Palácio do Planalto, em Brasília, DF (1/1/2003) | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

A era PT, que começava ali, em 2003, ainda não acabou. Já se passaram 25 anos do século 21. Durante vinte desses anos, o governo federal foi ocupado pelo partido. Estruturas inteiras foram criadas dentro da máquina do Estado e na sociedade, e modificações foram feitas na economia, no arcabouço legal e no sistema de justiça, com dois objetivos. O primeiro era avançar uma agenda de caráter marxista. Aqui é importante citar Olavo de Carvalho*:

“O poder de influência de uma doutrina não se mede pelo número dos que a conhecem a fundo, mas pelo número dos que a seguem sem ter a menor ideia de que o fazem. À medida mesma que uma corrente de pensamento se dilui no “senso comum”, perdendo sua identidade própria, redobra a força com que seus símbolos, valores, critérios de julgamento e normas de ação determinam o comportamento dos homens na sociedade. O próprio marxismo não seria nada se tivesse a seu serviço somente intelectuais de elite capazes de conhecê-lo e meditá-lo: é a massa dos marxistas inconscientes — aqueles que acreditam não ser comunistas — que lhe dá seu tremendo poder de impregnação na sociedade.”

Existem duas categorias de indivíduos e apenas uma delas — os amigos do partido — receberá o tratamento previsto em lei.

Os elementos essenciais dessa agenda, como sempre, são a erosão da propriedade privada, o respeito seletivo aos direitos fundamentais (que deixam de valer para os inimigos do Estado), a subordinação do indivíduo à burocracia estatal e a concentração da economia nas mãos do governo.

Luis Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, em São Paulo. SP (9/2/2008) | Foto: Shutterstock

O segundo objetivo era conquistar o monopólio do poder — o alvo de todos os socialistas.

Exceto por algumas vozes importantes, mas relativamente isoladas — pode-se citar Roberto Campos, Paulo Francis, Rodrigo Constantino, Eneias Carneiro e, finalmente, Olavo — o Brasil se deixou conduzir pela estrada da ilusão socialista. Mesmo quando surgiram os primeiros sintomas dos escândalos que estourariam nos anos seguintes, o país — a sociedade, a mídia e a maioria dos formadores de opinião — continuava a enxergar a degradação política e institucional como uma questão de corrupção, ao invés de entender sua essência como projeto de poder.  

A infiltração institucional metódica e a ocupação do espaço público deram ao PT quatro mandatos presidenciais sucessivos, ainda que o último tenha terminado em impeachment. Foi criada uma classe de clientes do Estado distribuída por todos os níveis sociais, como explicou certa vez Rodrigo Constantino: Bolsa Família para os pobres, bolsa BNDES para os empresários e concurso público para a classe média. Uma multidão de militantes ideológicos — muitos deles aberta e orgulhosamente marxistas — ocupou posições vitalícias no sistema de justiça.

Lula e Dilma Rousseff durante cerimônia de celebração dos dez anos do Programa Bolsa Família, em Brasília, DF (30/10/2013) | Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Mas os impactos mais graves são quase imperceptíveis porque, como explicou Olavo, já se tornaram parte da forma de pensar, sentir e agir de milhões de brasileiros. Entre eles estão a desvalorização da atividade política, que passou a ser vista como atividade de malandros e ladrões; a glorificação da pobreza; a demonização da prosperidade; e a ideia do “nós contra eles”, onde “eles” são qualquer um que se oponha ao projeto socialista.

A pior consequência é a destruição do Direito. Dos inquéritos abertos de ofício até os processos do 8 de janeiro, a mensagem do sistema de justiça é clara: existem duas categorias de indivíduos e apenas uma delas — os amigos do partido — receberá o tratamento previsto em lei.

Isso não é um desenvolvimento acidental ou uma consequência imprevista e temporária — e facilmente corrigível — da política. Isso é resultado de um plano de ocupação de poder cuidadosamente executado. Só um planejamento e ações equivalentes e opostas corrigirão o rumo.

A hora da mera esperança já passou.


*Olavo de Carvalho, Diário do Comércio, 10 de agosto de 2012.

Leia também “Uma derrota sem lições”

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2 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Motta, este artigo sintetiza o que vivenciamos neste 20 anos de PT á frente da administração do país.
    Com um grande escândalo de corrupção por ano, fora as capivaras do dia-a-dia, acredito não existir paralelo no mundo.
    Em termos de liberdades nem os governos militares com AI-5 ousaram tanto.
    Carrego comigo o orgulho de nunca ter votado neste sindicato especializado em lesar o povo e a nação.

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