publicidade
Nicolas Maduro, a bandeira do Irã e o Líder Supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei | Foto: Montagem Revista Oeste/Reuters/Shutterstock
Edição 304

À beira do abismo

O regime dos aiatolás enfrenta uma nova onda de manifestações que expõem sua fragilidade interna e externa

Não há mal — ou ditadura — que dure para sempre. Essa máxima, ligeiramente adaptada, recentemente se fez valer duas vezes: a primeira delas em dezembro de 2024, com a queda do ditador sírio Bashar al-Assad, e a segunda no último dia 3 de janeiro, com a prisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

Seguindo a cadeia de eventos, agora está em xeque o futuro do regime islâmico iraniano que, após mais de quatro décadas no poder, enfrenta uma profunda crise que combina colapso econômico, isolamento externo e uma nova onda de protestos populares que ganha tônus a cada dia.

“Era uma questão de quando, e não de se, o povo iraniano tomaria novamente as ruas”, afirma Behnam Ben Taleblu, diretor sênior do Programa Iraniano do think tank americano Foundation for Defense of Democracies (FDD). “Desde a derrota na Guerra dos 12 Dias contra Israel, em junho de 2025, o Irã submergiu em temas políticos não solucionados, como dissidência doméstica e crise econômica crescentes em meio a uma crise ambiental que se reflete na poluição fora de controle e na severa escassez de água.”

O colapso de sua rede de proxies (grupos armados financiados pelo regime) e, agora, de seu braço financeiro e de sua porta de entrada no Ocidente colabora para o isolamento do país. “O país perdeu a Venezuela, a Síria, o Líbano e Gaza. Pouco sobrou. Não conta com eletricidade nem com água e sua moeda perdeu 60% do valor. Os dias do regime estão contados”, escreveu o ex-embaixador israelense nos Estados Unidos, Michael Oren, no X.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, cumprimenta o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, à margem da cúpula do Brics em Kazan, Rússia (24/10/2024) | Foto: Palácio de Miraflores/Divulgação via Reuters

A economia como estopim

O estopim das atuais manifestações foi originado na economia, no momento em que a moeda local atingiu uma baixa histórica, com o dólar batendo 1,5 milhão de rials. A classe tradicional dos comerciantes — ou a “classe do bazar”, como é chamada —, juntamente com os traders de moedas, foi a primeira a convocar uma greve geral. A insatisfação deve-se também à inflação anual, que atingiu quase 50%, e ao aumento de, em média, 70% no valor dos alimentos.

“Em um país com tantos recursos naturais e humanos, o cidadão comum hoje precisa escolher entre comprar remédios ou pão”, descreve Sogand Sarah Fakheri, comentarista de assuntos ligados ao Irã do Jerusalem Center for Security and Foreign Affairs. “A vida cotidiana no Irã já estava muito complicada antes dessa brusca desvalorização. Agora, tornou-se insuportável.”

Segundo ela, há um elemento novo nas manifestações atuais. “Pela primeira vez, as multidões clamam por um líder: o príncipe Reza Pahlavi.”

Reza Pahlavi, príncipe herdeiro do Irã, discursando em um evento organizado pelo Centro de Pensamento Político e Liderança da Universidade Estadual do Arizona, em Tempe, Arizona, EUA (16/10/2015) | Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons

A referência é ao filho mais velho do último xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, deposto em 1979 e falecido em 1980. Ele vive atualmente nos Estados Unidos e fez poucas aparições públicas nas últimas semanas. Em suas declarações, demonstrou solidariedade aos manifestantes, sem assumir, no entanto, um papel claro de liderança.

A reação do regime

Milhares de pessoas ocupam as ruas de mais de 111 localidades em 31 províncias por todo o Irã. Em grandes cidades como Shiraz, Teerã, Isfahan, Kermanshah, Jafarabad, Mashhad, Hamedan e Varamin, especialmente à noite, os gritos de ordem variam de “Vergonha, vergonha” a “Morte ao ditador” e “Os opressores serão derrubados”. Desde o dia 7, dez universidades iranianas também se transformaram em palco de protestos.

Mesmo com a dificuldade de obter números precisos que reflitam a violência da reação policial, devido à barreira da censura iraniana, os que estão disponíveis servem, ao menos, de base para entender a extensão dessa manifestação em relação às de anos anteriores.

Distribuição dos protestos no Irã ao longo de 11 dias, até 7/1/2026 | Foto: Reprodução HRANA

Até o dia 7, segundo a organização Human Rights Activists News Agency (HRANA), foram registradas as mortes de 38 pessoas — 34 civis e 4 policiais — e a prisão confirmada de 2.217 manifestantes e suspeitos de apoiar os protestos. Em 2019, protestos motivados pelo aumento de 50% no preço dos combustíveis terminaram com cerca de 300 mortos e 7 mil presos. Três anos depois, em 2022, a morte da jovem Mahsa Amini, enquanto estava sob custódia da chamada “polícia da moralidade” — presa e espancada por usar um hijab (lenço) que não cobria seus cabelos completamente —, desencadeou uma mobilização ainda maior, reprimida com extrema violência, que resultou em cerca de 500 mortos e mais de 14 mil presos. Centenas deles ainda estão em julgamento; muitos já foram executados após serem condenados à pena de morte.

Justamente pelo histórico de repressão brutal, a reação relativamente contida do regime nestes últimos dias divide a opinião dos analistas em relação ao impacto dos atuais protestos sobre o governo.

Segundo a autora iraniana Roya Hakakian, baseada nos EUA desde 1985, “o regime está dosando a repressão, pois não tem mais condições de suportar a reação internacional que imagens violentas, como as de 2022, poderiam provocar. Este é um sinal claro de enfraquecimento”.

Limites da ameaça

Danny Citrinowicz, pesquisador sênior do Institute for National Security Studies da Universidade de Tel Aviv, diverge da leitura de Hakakian. “Esses protestos são desafiadores, mas não colocam o regime em risco. Estamos falando de dezenas de milhares de manifestantes, e não de milhões, como ocorreu anteriormente. Isso explica por que as forças de segurança não estão usando toda a sua capacidade de supressão.”

Os dois, no entanto, citam como fato influenciador a promessa de Donald Trump de atacar o regime em caso de repressão violenta contra civis.

Citrinowicz aponta ainda um aspecto pouco divulgado: “Fora dos bazares, a vida continua. A greve não atinge todas as classes. A indústria de gás e petróleo, por exemplo, está funcionando normalmente. O clima está agitado, mas não como parece nos veículos de comunicação, que sugerem um regime à beira da falência. Estamos longe disso, ao menos nesse momento.”

Pessoas caminham por uma rua em meio a protestos contra a desvalorização da moeda em Teerã, Irã (05/01/2026) | Foto: Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via Reuters

O que poderia mudar esse cenário? “A ameaça ao regime islâmico crescerá se o número de manifestantes nas ruas aumentar significativamente ou se os Estados Unidos decidirem intervir”, afirma. “Mesmo que os protestos atuais sejam silenciados, a próxima onda já está a caminho — e o regime sabe disso.”

Máfia com turbante

O Irã tornou-se uma autocracia após a Revolução Islâmica de 1979, um movimento popular que derrubou a monarquia secular e pró-Ocidente do xá Mohammad Reza Pahlavi e instaurou uma República Islâmica teocrática. Ela foi liderada inicialmente por Ruhollah Khomeini, que foi sucedido, após sua morte em 1989, por Ali Khamenei, líder supremo até hoje. Ao aiatolá cabe o papel de representante da vontade divina na Terra. Ele controla todos os aspectos da vida pública: social, política, econômica e religiosa. Abaixo dele está o presidente, figura com poderes limitados.

“A religião é apenas um disfarce”, diz Roya Hakakian. “Não existe mais um sistema ideológico coerente por trás do regime. Se essas pessoas retirassem seus turbantes e robes, veríamos claramente o que são: uma máfia. Um grupo que gerencia mal o país, espanca suas mulheres e desvia bilhões de dólares em esquemas de corrupção, como mostram centenas de relatórios emitidos pelos próprios inspetores iranianos.” O último livro da autora, Journey from the Land of No (“Trajetória do País do Não“), reflete essa leitura.

Há relatos de que o regime já prepara planos de fuga para o octogenário aiatolá Ali Khamenei.

No Índice Internacional de Percepção de Corrupção, o Irã ocupa o 151º lugar entre 180 países. Dois exemplos ilustram essa realidade: o país opera com quatro taxas de câmbio distintas — uma delas exclusiva para agências governamentais — e grande parte da indústria petrolífera está nas mãos da Guarda Revolucionária, poderosa força militar iraniana cuja missão é proteger o regime.

Uma linha de tropas do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica Iraniana atravessando a rua. Na marcha, as forças militares estiveram presentes junto ao povo em Teerã, Irã (04/11/2024) | Foto: Shutterstock

Tudo isso acontece sob o olhar frustrado de cerca de 90 milhões de cidadãos que, em sua maioria, não apoiam esse governo: há estatísticas de organizações estrangeiras que mostram que apenas 15% deles ainda são favoráveis ao regime. Os demais 85% entendem que o Irã, um país com vasto território, inúmeros recursos naturais e humanos, e que poderia ser um dos G20, é, no entanto, uma nação falida, cujas riquezas são desviadas pela corrupção ou investidas em proxies e em um programa nuclear focado na destruição de um país distante. O sentimento dominante é de desilusão, temperado pelo temor de que uma mudança abrupta possa levar ao caos, à guerra civil ou à fragmentação do país.

A posição de Israel

Embora cidadãos iranianos façam apelos nas redes sociais por uma intervenção militar israelense, Israel mantém cautela. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem reiterado apoio retórico ao povo iraniano, deixando evidente a ausência de planos de intervenção. “Nós nos identificamos com a luta do povo iraniano e suas aspirações de liberdade e justiça. Talvez estejamos perto do momento em que ele tomará o destino em suas próprias mãos”, declarou recentemente.

A instabilidade no Irã tem implicações diretas e indiretas para Israel, tanto em termos de segurança quanto de estratégia regional. Não é segredo que o regime dos aiatolás é, ainda hoje, a principal ameaça ao país. Neste momento, mais do que seu programa nuclear — duramente atingido por bombardeios israelenses e norte-americanos em 2025 —, o programa balístico preocupa Jerusalém. O serviço de Inteligência de Israel constatou que o Irã acelerou nos últimos meses a produção de mísseis, cujo impacto sobre as cidades israelenses no último confronto foi brutal. Há também sinais de que o regime cogita empregar armas químicas.

Um míssil iraniano é lançado durante um exercício militar em um local não divulgado no Irã (20/08/2025) | Foto: Exército Iraniano/WANA (Agência de Notícias da Ásia Ocidental)/Divulgação via Reuters

Mesmo diante dessa ameaça, o Estado Judeu está de prontidão para defender-se de ataques, mas, aparentemente, não está disposto a realizá-los no momento. “Israel não deve fazer nada agora, porque o Irã está se dissolvendo e não consegue nem mesmo custear o apoio de seus proxies”, analisa Harel Knafo, general-brigadeiro da reserva do Exército de Israel. Ele alerta, porém, para a possibilidade inversa: a de que o Irã tome a iniciativa de atacar Israel. “Caso perca o controle interno, o regime pode tentar criar uma crise externa para unir a população.”

Castelo de cartas

O Irã também está enfraquecido fora de casa, e o tempo dirá se a queda de Nicolás Maduro terá sido o golpe final para o fim do regime iraniano. A Venezuela era seu principal aliado no Ocidente, com intensa cooperação em áreas como energia, comércio, defesa e até operações clandestinas, incluindo transporte de petróleo e armas, sempre burlando as sanções internacionais. “E se a China ou a Rússia não fizer nada pelo Irã, a queda será mais rápida”, acredita Knafo.

Por fim, há relatos de que o regime já prepara planos de fuga para o octogenário aiatolá Ali Khamenei, caso a situação se deteriore drasticamente. Um sinal de que, mesmo confiando em Alá e contando com uma violenta força policial, nem ele descarta a possibilidade de colapso.

Leia também “Alertas não faltaram”

Leia mais sobre:

1 comentário
  1. Domingos Henrique Fazan Caramano
    Domingos Henrique Fazan Caramano

    Mais um regime assassino e sanguinário, que está apodrecido e será sepultado em breve!

Anterior:
O papel do Foro de São Paulo e um frango que pode engolir um molusco
Próximo:
Indiferença ou oportunidade  
publicidade