O que aconteceu na Venezuela com a detenção de Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, não pode ser analisado apenas sob o ângulo emocional — embora a emoção seja inevitável. Milhões de venezuelanos celebraram a queda do homem que destruiu suas vidas, seu país e suas famílias. Para muitos, seria preciso ter o coração de pedra para não compreender essa explosão de alívio e esperança.
Mas a política internacional não se rege pela emoção. Ela se rege por princípios, regras e consequências. E é aí que entramos num terreno perigoso. A operação militar ordenada por Donald Trump inaugura, na prática, um novo conceito de ordem internacional: a lei do mais forte, acima de qualquer controle democrático nacional ou multinacional; a primazia da geração de riqueza sobre a estabilidade política; e uma pergunta com várias respostas: o fim justifica os meios?
Claro que, para responder a esta pergunta, depende de que lado do jogo político e social o leitor esteja. Caso esteja no segmento progressista da população, a ação de Trump é inaceitável sob qualquer visão, mas, se o leitor é venezuelano radicado no Brasil ou tem parentes ou amigos na Venezuela (e não faz parte do povo venezuelano que teve de apoiar a ditadura de Maduro para comer e sobreviver), a gratidão ao presidente americano será eterna.
Do ponto de vista do direito internacional, a resposta é ambígua. Trump agiu sem autorização do Congresso americano, sob o argumento — beirando o absurdo — de que se tratava de uma “operação policial”. Uma “operação policial” executada por unidades de elite das Forças Armadas dos Estados Unidos, com o bombardeio de instalações militares de um país soberano e a administração direta do território atacado. Nenhuma consulta a organismos internacionais. Nenhuma articulação com aliados democráticos. Nenhum diálogo com Edmundo González e María Corina Machado, líderes reconhecidos por grande parte da comunidade internacional como representantes legítimos da Venezuela. Em sua fala pública, Trump mencionou 27 vezes a palavra petróleo. Não pronunciou uma única vez a palavra democracia.

O mundo deve se perguntar: se hoje esse poder absoluto é exercido por uma democracia ocidental, o que aconteceria se esse mesmo modelo fosse administrado por potências como a China, que rejeita explicitamente a democracia liberal e considera esse sistema “uma degeneração burguesa”?
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, vivemos sob a proteção de uma arquitetura internacional imperfeita, mas funcional, baseada no direito, nas regras multilaterais e na ideia de que nenhuma nação está acima da lei. Essa arquitetura está ruindo. E é nesse cenário global instável que emerge, com força renovada, a crise estrutural da América Latina.
Nesta parte da matéria, você deve estar se perguntando: afinal, foi bom ou não Trump prender um ditador vinculado ao narcotráfico? Para responder com propriedade, vamos te ajudar com mais informações.
O papel do Foro de São Paulo e a Venezuela como pilar ideológico
Quando publiquei, em 7 de julho de 2023, aqui, na Revista Oeste, minha experiência como infiltrado na reunião do Foro de São Paulo em Brasília, já estava claro que o Foro havia deixado de ser apenas um espaço de diálogo entre partidos de esquerda. Tornara-se um instrumento de articulação política transnacional.
Fundado em 1990 por Lula e Fidel Castro, o Foro passou a coordenar estratégias, discursos e alianças em toda a região. O motivo revelado por Lula para a constituição do Foro foi: “Eu tinha consciência que jamais a gente poderia chegar ao poder pela via do voto. Pela via democrática”.
Nesse tabuleiro, a Venezuela chavista tornou-se o pilar político, simbólico e — em muitos momentos — financeiro dessa engrenagem. Sob o comando de Hugo Chávez e, depois, de Nicolás Maduro, o regime venezuelano sustentou boa parte da narrativa, do financiamento e da retórica do projeto continental da esquerda latino-americana. O Foro respondeu com solidariedade automática, rejeição de sanções e defesa do regime sob o discurso de “soberania”.

Esse alinhamento ultrapassou partidos políticos. Alcançou sindicatos, movimentos sociais e estruturas de comunicação. O MST, por exemplo, aparece de forma recorrente na expansão da influência ideológica do Foro no Brasil. Universidades, meios de comunicação e plataformas acadêmicas tornaram-se vetores de difusão — e de controle das publicações da oposição — dessa narrativa sob o manto da “integração latino-americana”.
O colapso humano do regime chavista
Os resultados da ditadura de Maduro em números são devastadores e incontestáveis.
Antes do socialismo
A Venezuela era conhecida como a “Venezuela Saudita”, por concentrar a maior reserva de petróleo do mundo — 17% das reservas globais —, superando Arábia Saudita e Irã.
Nos anos 1970, os venezuelanos detinham o maior poder de compra da América Latina, quase três vezes superior ao do Brasil, segundo a OCDE.
Entre 1959 e 1983, o desemprego figurava entre os mais baixos da região.
Não por acaso, os venezuelanos eram os maiores consumidores de uísque per capita do mundo, símbolo de uma classe média ampla e próspera.
Depois: a catástrofe
Hoje, mais de 90% da população vive abaixo da linha da pobreza.
A inflação atingiu 344.510% em 2019 e ainda alcançou 556% em 2025, sendo medida pelo preço do cafezinho na padaria — método popular de sobrevivência estatística em uma economia destruída.
O salário mínimo é de 130 bolívares, equivalente a US$ 0,50 (R$ 2,70).
O governo paga à parte US$ 160 como “renda de guerra econômica”, valor que não conta para aposentadoria, aprofundando a insegurança social.
Colapso social
Em 2017 e 2018, animais de zoológicos foram sacrificados para alimentação, e famílias abandonaram seus animais de estimação por falta de recursos.
O país enfrenta desabastecimento crônico: faltam papel higiênico, sabonete, pasta de dente, macarrão, leite, água, café, arroz, frango, manteiga e medicamentos. Multinacionais deixaram o país.
Em 2021, a população perdeu, em média, 10 quilos de peso por causa da fome generalizada.

E os direitos humanos?
A ditadura venezuelana deixou rastros impossíveis de apagar para os opositores ao regime
- 36,8 mil casos de tortura praticada pelo Estado
- 17,4 mil presos políticos, incluindo 158 crianças
- 3,5 mil pessoas desaparecidas
- 10,18 mil execuções extrajudiciais
- 468 assassinatos por protestar
- 8 mil violações de direitos humanos
- 400 meios de comunicação censurados ou fechados
Não se trata de retórica. Esses dados podem ser verificados em diversas fontes, como informes da Comissão de Direitos Humanos da ONU que, entre outras coisas, publicou:
– Repressão sem precedentes: um relatório de setembro de 2024 da Missão Independente de Apuração de Fatos da ONU apontou que a violência contra opositores atingiu níveis “sem precedentes”, incluindo relatos de tortura e de detenção de menores.
– Crimes contra a humanidade: a investigação da missão da ONU concluiu que existem motivos razoáveis para acreditar que o governo venezuelano cometeu crimes contra a humanidade como parte de uma política de repressão sistemática.
– Irregularidades eleitorais: um painel de peritos eleitorais da ONU e o Centro Carter, que observaram as eleições de 2024, relataram falta de transparência e integridade no processo, questionando os resultados declarados.
– Expulsão de funcionários: em fevereiro de 2024, o governo venezuelano suspendeu as atividades do escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos no país e expulsou seus funcionários.
– Posição do governo venezuelano: o governo da Venezuela consistentemente rejeita os relatórios da ONU, classificando-os como “ilegais”, “mentirosos” e “cheios de contradições”.
Trata-se do maior colapso humanitário da história moderna da América Latina.
A detenção de Maduro e a implosão do Foro
A prisão de Maduro em 3 de janeiro de 2026 inaugura um novo ciclo. O Foro de São Paulo reagiu com uma nota de repúdio, classificando a ação como “agressão gravíssima”. Mas essa solidariedade automática tornou-se agora um fardo reputacional.
A região se divide: governos de esquerda (Brasil, Colômbia, México), que condenam a operação, e governos de direita e aliados de Trump, que a aplaudem como um marco contra o autoritarismo, as ditaduras na região e o narcotráfico. O mapa político latino-americano entra num processo de reconfiguração profunda, ainda mais considerando as eleições presidenciais na Colômbia e no Brasil neste ano.

O futuro: reconstrução ou caos
A Venezuela pós-Maduro terá pela frente um dos processos de reconstrução institucional mais difíceis do século: reerguer o Estado, a economia, o sistema político e, sobretudo, a confiança social. Por sua vez, o Foro de São Paulo enfrenta agora seu teste definitivo: ou se adapta a uma América Latina que exige instituições fortes, mercado, democracia (absoluta e não relativa) e responsabilidade, ou se tornará uma relíquia de uma era que acabou.
Um frango (pollo) que pode engolir um molusco
As declarações de Hugo “El Pollo” Carvajal, ex-chefe da inteligência militar da Venezuela, em entrevista à jornalista Elisa Robson, projetam uma sombra inquietante sobre a política latino-americana e, em particular, sobre o Brasil e os participantes do Foro de São Paulo. Carvajal, hoje colaborador da Justiça norte-americana, afirma que o regime chavista teria usado estruturas estatais, como a PDVSA, para sustentar projetos políticos e campanhas na região.
Democracia não se constrói sobre silêncio conveniente nem sobre acordos opacos.
Se as provas publicadas se confirmarem, o impacto institucional será profundo, já que a lei impede o financiamento internacional de projetos políticos brasileiros. O quadro se torna ainda mais sensível quando se observa a vinculação histórica do chavismo ao Foro de São Paulo, organização criada para articular forças de esquerda no continente. Durante anos, a Venezuela foi apresentada como pilar estratégico desse eixo político. Agora, com Maduro detido e sob forte escrutínio internacional, esse pilar ameaça ruir e, com ele, vários governos da esquerda. No Brasil, as repercussões se ampliam porque o debate não se limita à esfera político-partidária. Há questionamentos públicos envolvendo negócios de empresários próximos ao poder lulista e suas relações com regimes e decisões de Estado. Casos como o de Daniel Vorcaro, do Banco Master, e os investimentos do grupo J&F/JBS, dos irmãos Batista, na Venezuela chavista, voltaram ao centro do debate.
Essas relações, por si mesmas, não configuram ilícito; o ponto sensível é a opacidade: documentos e tratativas foram colocados sob sigilo pelo Itamaraty, o que dificulta o escrutínio público e alimenta a desconfiança. A pergunta que não quer calar: por que um governo coloca em sigilo negócios privados? Somam-se a isso as declarações de Carvajal sobre financiamentos transnacionais e a defesa automática de Maduro por setores da esquerda regional.

O resultado é uma tempestade perfeita: dúvidas sobre a origem de recursos, sobre a natureza de alianças políticas e sobre o grau de transparência das decisões do Estado brasileiro. Para o governo Lula da Silva, o desafio é duplo: responder à comunidade internacional e, ao mesmo tempo, prestar contas à sociedade.
A detenção de Maduro inaugura um novo ciclo. O que antes era rotulado como “solidariedade entre governos progressistas” passa a ser observado sob a lente do direito internacional, do combate ao crime transnacional e da defesa real da democracia.
Ao insistir numa defesa incondicional do regime venezuelano, o Foro de São Paulo, em geral — e o PT em particular —, corre o risco de se isolar politicamente num continente que começa a exigir menos narrativa e mais fatos.
Para o Brasil, este é um momento decisivo. Ou as instituições enfrentam as revelações e controvérsias com seriedade, transparência e independência, inclusive revendo sigilos quando não houver justificativa legal robusta, ou o país aprofundará a erosão da confiança pública.
Democracia não se constrói sobre silêncio conveniente nem sobre acordos opacos; constrói-se sobre verdade, prestação de contas e coragem institucional. A verdade pode doer, mas é a única base sólida para reconstruir a confiança e renovar a democracia. Para isso, os parlamentares da oposição devem fazer menos vídeos para suas redes sociais e mais ações concretas em representação de quem paga seus salários.
Leia também “A jogada que começa a organizar o tabuleiro”
Se as declarações de Hugo “El Pollo” Carvajal foram capazes de abalar os alicerces do Foro de São Paulo, imaginem o terremoto que seria uma delação premiada do agora detento Nicolas Maduro. O molusco e os próceres PTistas devem estar tendo noites insones.
Entre a DEMOCRACIA OCIDENTAL, garantida predominantemente, pelo USA e os opositores, meu voto é indubitável. Viva a Democracia Americana!
Bajate del Muro Segré…
Parabéns Segré. Artigo impecável.
Os políticos devem agir! Isso mesmo!
Concordo totalmente com a posição de Trump.Ficaríamos mais 26 anos aguardando medidas.
Esse discurso de soberania, intervenção externa, de fins que justificam os meios é balela. Se tivessem dado um jeito em Hitler quando ele tomou o poder e começou a por em prática suas convicções, milhões de vidas, recursos e bens teriam sido poupados. Se os EUA tivessem impedido Fidel de transformar Cuba num lixo comunista, Chaves, Maduro, Peron, Lula talvez nunca teriam chegado ao poder. Antes tarde do que nunca!
Isso mesmo! Menos saliva na redes sociais e mais ação, convocações para manifestações legítimas de anistia, transparência e prisões destes corruptos!
Segre’ não disse nada mais do que se sabe de modo bem superficial. Nada analisou.
No geral o texto é bom, mas no início parecia choro de esquerdista. “Os fins justificam os meios?” “Trump mencionou 27 vezes a palavra petróleo, e nenhuma a palavra democracia”. Realmente, quem cita a palavra democracia é bom, haja vista quem não tira ela da boca aqui no bostil. Sei não mas esse articulista não me parece tão confiável.