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daniel vorcaro
Daniel Bueno Vorcaro, proprietário do Banco Master | Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução
Edição 304

Inspeção Master

Tentativa de ministro do TCU de inspecionar a decisão do BC de liquidar o Banco Master extrapolou a alçada do órgão público

Os sinais de que algo estranho ocorria com o Banco Master eram evidentes desde 2021. Foi o ano em que Daniel Vorcaro, 42, deu nome à instituição e iniciou uma expansão frenética, incomum no sistema financeiro brasileiro. Depois que o escândalo veio à tona, o banqueiro continuou agindo. Ele foi detido em 17 de novembro, no Aeroporto de Guarulhos, na Operação Compliance Zero, sob suspeita de pretender deixar o país. Ao ser ouvido pela Polícia Federal (PF), rejeitou o acordo de delação premiada e se recusou a passar a senha de seu celular. Deixou clara a preocupação com o vazamento de mensagens privadas.

Solto após 12 dias, o dono do banco seguiu acreditando que todas as evidências não bastariam. Nem o próprio processo que causou o rombo e gerou suspeitas contra ele. Sua aposta fez sentido já neste início de ano, quando a liquidação do Banco Master, determinada em novembro pelo Banco Central (BC), foi questionada pelo ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU).

Insatisfeito com a nota técnica da autoridade monetária sobre a liquidação do Master, o ministro pediu uma inspeção do processo realizado pelo BC, autorizada na segunda-feira, 5, pelo presidente do órgão, ministro Vital do Rêgo. A medida permitiria que técnicos da Corte verificassem, nas dependências da autarquia, a documentação do caso, desde o monitoramento inicial dos problemas financeiros até a decretação da liquidação. Por causa do sigilo bancário, os documentos não poderiam ser retirados do local.

No despacho, Jhonatan mencionou até a possibilidade de adoção de medida cautelar para preservar ativos da massa liquidada, caso fossem identificados riscos de “atos irreversíveis”. As determinações foram criticadas por entrarem em questões técnicas, de competência exclusiva do BC. Geraram suspeitas de que a liquidação poderá ser revertida.

O BC contestou a decisão de inspeção. Alegou que ela deveria ter sido deliberada de forma colegiada pela Primeira Câmara do TCU, e não por decisão monocrática. Pressionado, três dias depois de aprovar a inspeção, Jhonatan a suspendeu. Alegou que o caso tomou uma “dimensão pública desproporcional”, em relação ao que, segundo ele, é uma atividade corriqueira de uma corte de contas. Isso não indica, no entanto, que a suspensão da inspeção está garantida. Ela ainda será debatida em plenário, depois do recesso dos integrantes do TCU, no fim de janeiro.

O estrago, no entanto, estava feito. Serviu para mostrar que até decisões técnicas do BC, que evitariam um colapso do sistema bancário, podem ficar à mercê de interesses políticos. Ao se intrometer nessa seara, o ministro Jhonatan abriu brecha para algo maior do que uma rusga mesquinha. Longe de ser especialista em finanças, este médico e político, indicado para o TCU pelo ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), causou alvoroço ao se colocar como protagonista de um tema do qual ele não entende.

Toda a sua trajetória até assumir o cargo deixou claro que uma função de tamanha importância, hoje, no Brasil, é exercida por muitos outros motivos além da capacidade técnica. Uma coalizão deu suporte à indicação dele, aprovada em fevereiro de 2023, com 239 votos: MDB, PDT, Podemos, PP, PSB, PSD, União Brasil e duas federações partidárias, PSDB-Cidadania e PT-PCdoB-PV.

A interlocução de Jhonatan com lideranças políticas prosseguiu depois da posse no TCU. Desde então, 24 das 47 agendas públicas do ministro envolveram políticos do centrão ou autoridades de Roraima, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

Sem intimidade com temas financeiros, enquanto deputado, Jhonatan teve o nome envolvido em diversas polêmicas. Numa delas, reportagem da CNN Brasil relatou que um veículo de luxo da marca BMW, registrado em nome da mulher dele, foi apreendido em uma operação da PF. O carro foi incluído na lista de bens confiscados na investigação que envolve Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.

Jhonatan parece não perceber que a mistura entre questões políticas e financeiras neste momento carrega um enorme risco sistêmico que pode colapsar todo o sistema financeiro, conforme afirma a vereadora Cris Monteiro (Novo-SP). Formada em Ciências Contábeis, ela foi diretora de grandes bancos de investimento norte-americanos. “A interferência do TCU, usada de forma política na liquidação do Banco Master, fere a governança do sistema financeiro”, afirma. “É alarmante ver o ministro Jhonatan de Jesus, representando o centrão, sobrepor a política aos critérios técnicos de solvência e compliance do BC. Substituir o rigor regulatório por articulação política destrói a segurança jurídica e a credibilidade do país.”

Jhonatan de Jesus foi deputado federal por Roraima | Foto: TCU/Divulgação
A atuação política do ministro Jhonatan de Jesus sobrepõe os critérios técnicos do Banco Central e gera alerta sobre riscos ao sistema financeiro | Foto: TCU/Divulgação

Centrão em comum

O apoio do centrão é algo que Jhonatan e Vorcaro têm em comum. O banqueiro possuía aliados do grupo no Legislativo. Um deles é o senador Ciro Nogueira (PP-PI), frequentador de eventos patrocinados pelo Master. Em 2024, Ciro apresentou uma emenda para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), incluída na PEC da Autonomia Financeira do BC, que não foi aprovada.

A rusga entre a autarquia e o Master se estendeu por pelo menos três anos. Contradiz, assim, o que o ministro levanta como suspeita de omissão do BC. Alguns episódios demonstram que a instituição, enquanto buscava fiscalizar o crescimento do Master, se deparava com armadilhas que atrasavam o seu trabalho.

Em julho de 2024, dois gerentes da Caixa Econômica Federal, controlada pelo PP, foram contra a compra de um lote de R$ 500 milhões em letras financeiras do Master. Acabaram demitidos por suspeitarem de que o valor não teria lastro, baseados em parecer da área técnica de renda fixa da Caixa Asset. Só depois de muito alarde, a negociação foi interrompida.

Em outra tentativa, o centrão, por meio do deputado Cláudio Cajado (PP-BA), apresentou um projeto de lei que permitiria ao Congresso Nacional demitir integrantes da diretoria do BC. Recebeu o apoio dos líderes das bancadas do MDB, PP, União Brasil, PL, PSB e Republicanos. O projeto foi protocolado dias antes de o BC impedir a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB).

O caso também chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em dezembro de 2025, o ministro Dias Toffoli determinou que parte das apurações relacionadas a Vorcaro fosse tratada sob sigilo máximo, incluindo dados bancários e fiscais. Além da acareação entre Vorcaro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa e gestores do BC.

Carteira fictícia

O caso explodiu quando o BRB, banco público controlado pelo governo do Distrito Federal, iniciou a compra de 58% do Master, em meio ao colapso deste. Em 2025, o Master precisaria devolver R$ 12,2 bilhões em CDBs prestes a vencer.

Pouco antes, Vorcaro e sócios foram chamados pelo então presidente do BC, Roberto Campos Neto, em dezembro de 2024. Receberam a exigência de aportar R$ 2 bilhões até 31 de março, sob risco de liquidação compulsória.

Em 28 de março, o BRB anunciou a compra da maior parte do Master por R$ 2 bilhões, em uma operação considerada descabida pelo mercado. A operação foi vetada pelo BC em setembro de 2025 por falta de viabilidade e riscos excessivos.

A inspeção do TCU desviou as atenções em relação à gravidade das operações. A fraude era gigante. O BRB repassou ao Master os R$ 12,2 bilhões por meio da compra da chamada “carteira de crédito”, que era fictícia. Não existiam empréstimos, investimentos ou valores em espécie que dessem lastro às operações.

As investigações da PF e do BC revelaram que a expansão do Master ocorreu por meio da emissão de títulos de crédito falsos. A quebra do Master é a maior da história do país em impacto para o FGC, que destinou R$ 41 bilhões ao ressarcimento de investidores. A inspeção determinada pelo TCU também é inédita nesse tipo de situação.

Vorcaro e empresas ligadas a ele adquiriram ao menos R$ 2 bilhões em imóveis de luxo e aeronaves.

O Master captava recursos oferecendo CDBs falsos, mas muito atraentes. A rentabilidade era até 30% superior à média do mercado. Em 2024, o lucro líquido declarado foi de R$ 1,068 bilhão. Os balanços positivos, porém, não passavam de maquiagem. A realidade começou a vir à tona em dezembro de 2023, quando o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou uma resolução que passou a proibir as instituições financeiras de dependerem do seguro do FGC. Isso funcionou como um freio de segurança.

A emissão de títulos falsos provocou o maior rombo da história do FGC, que precisou cobrir R$ 41 bilhões | Foto: Reprodução

O novo contexto expôs o desequilíbrio do Master. A estratégia de crescimento era baseada quase inteiramente em captações garantidas pelo FGC. Não havia mais como esconder o rombo. Os projetos vetados na Câmara surgiram para contrapor essas perdas. Com os reveses no Legislativo, Vorcaro tentou evitar a bancarrota ao buscar a venda de 58% para o BRB. Não conseguiu. Já acusado de fraude, passou a se apresentar como vítima. A inspeção do TCU fortalece essa narrativa.

Denúncia de influenciadores

Em suas atribuições, o TCU não pode contrariar decisão técnica do BC, conforme afirma Lucas Borges, especialista em Análise Financeira pela Saint Paul Escola de Negócios. “O TCU pode fiscalizar a legalidade e o procedimento, mas não substituir o juízo técnico”, avalia. “A autonomia do BC é um pilar do sistema financeiro. Se o controle externo avança para o mérito técnico, o mercado começa a questionar a previsibilidade das regras e a independência da supervisão.”

A guerra contra o BC levou as acusações contra o Master para além da esfera financeira. Segundo O Globo, os influenciadores de direita Rony Gabriel e Juliana Moreira Leite denunciaram que o banco teria oferecido R$ 2 milhões para que criticassem a decisão do BC de liquidar o Master. Eles afirmam ter rejeitado a oferta. A assessoria do banco negou.

Enquanto o TCU avança sobre a decisão do BC, a PF segue com a investigação. Já foi marcada uma nova rodada de depoimentos. Executivos do Master e do BRB foram convocados. O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, também foi intimado a prestar novo depoimento.

Uma das apurações busca saber se parte do dinheiro captado junto a investidores foi desviada em benefício de executivos. Levantamento do UOL mostra que, antes da liquidação, Vorcaro e empresas ligadas a ele adquiriram pelo menos R$ 2 bilhões em imóveis de luxo e aeronaves. A velha máxima de “vão-se os anéis, ficam os dedos” também vale para banqueiros falidos.

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3 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    O cara faz uma faculdade de medicina para se tornar ministro do TCU. Deve ser por isso que os cursos de medicina são tão concorridos… imagina se ele vai querer trabalhar como médico…. Claro que não! Melhor virar presidente da câmara dos deputados, ministro do TCU ou vice-presidente presidente da república

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    É bom ler todas as reportagens da revista oeste, mas nenhum leitor tem dúvidas que todo estamento público está entupido de ladrão comunista terrorista narcotraficante assassinos. Ou bota tudinho pra fora ou eles vão nos matar feito a teocracia do Irã. Aqui é uma Ladrocacia

  3. Domingos Henrique Fazan Caramano
    Domingos Henrique Fazan Caramano

    Poderia ser criado no Brasil, o PNC – Partido Naciinal dos Corruptos; com certeza não caberia tanta gente “qualificada” em tal agremiação…
    Haveria grande disputa nas 3 esferas do Poder e entre autoridades sem pudor ou vergonha, já que o Brasil virou um grande lamaçal!

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