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Galeria Borghese - O estupro de Proserpina, de Gian Lorenzo Bernini, 1622. Estátua de mármore branco de Carrara | Foto: Shutterstock
Edição 305

Enfeitar ou enfeiar

A poesia, que é a beleza musical das palavras, teve os pés quebrados e já não canta, não rima e nem versa. Quebra-se a estética para quebrar a ética com anestesia

“Deus primeiro enlouquece aquele a quem quer destruir”, diz a mitologia grega. Parece que enlouquecemos, fazendo o contrário do que nos deixaria felizes, nos daria prazer e bem-estar. A mitologia moderna chamaria de masoquismo. Há uma propaganda que estimula o culto do feio, e a desonestidade é tida como virtude da esperteza, a ciência se esmera na arte de matar com precisão e eficiência; uma propaganda em que a arquitetura e as artes desprezam o belo. Se não houver uma nova Renascença, com novos Dante, Da Vinci, Michelangelo, Brunelleschi, estaremos criando um inferno na Terra. 

Estou exagerando, desesperado? Então vejamos, por partes. Olhe para os prédios de sua cidade. A maioria caixotes destituídos de beleza, de mensagem. Entulhados de gente, mas vazios na estética, com exceções aqui e ali. Os belos são os mais antigos, que ainda sobrevivem à destruição das raízes urbanas. Temos que ir à Europa para ver cidades lindas. Na beleza natural do Rio de Janeiro, caixotes sem graça enfeiam a paisagem. O verde pujante de Brasília consegue esconder os retângulos padronizados. As curvas de Niemeyer, agradáveis de ver, difíceis de habitar, já saindo de moda, enquanto Washington mostra o eterno greco-romano. Balneário Camboriú consegue esconder o sol da praia com seus monstros de concreto. Minimalismo da moda, sem a beleza última da Art Déco.

Balneário Camboriú consegue esconder o sol da praia com seus monstros de concreto | Foto: Shutterstock

Não quero me meter a crítico de arte. Sou um cidadão comum que preza o belo e evita o feio, como é natural. Na pintura, entre renascentistas, impressionistas e a chamada genericamente de arte moderna, é fácil distinguir entre o belo e o feio. Picasso, jovem, soube fazer belos retratos; depois veio Guernica, para retratar a feiura da obra da Luftwaffe. Dalí desenhou relógios derretendo, Munch fez O Grito. E os intelectuais aplaudiram o revolucionário, a rebeldia contra os padrões clássicos de traço e beleza. Acham significado, denúncia talvez, mas não conseguirão achar beleza naquilo.

Na escultura, entre a mão de Plutão afundando no mármore da coxa de Proserpina e um monstro de aço, feito aranha do Guggenheim de Bilbao, fico com a obra de Bernini na Galleria Borghese. No Guggenheim de Bilbao, achei que estava tropeçando num entulho de obra, esquecido no meio de um salão. Era uma “instalação”. No Guggenheim de Nova York, meti a cabeça entre as pernas para contemplar um quadro moderno. Logo vi outras pessoas fazendo o mesmo. Estamos formando autômatos, que no futuro se tornarão Eloys, servos de Morlocks, como conta A Máquina do Tempo, de H. G. Wells. 

O Grito, pintura pós-impressionista vintage do famoso artista Edvard Munch | Foto: Shutterstock

Sapatos e vestidos de palhaço das vitrinas de lojas de marca; calças que tornam pernas masculinas dois palitos. Marcas & modas. Vestem homens e mulheres com fantasias. Talvez complexo de Peter Pan — faltou preparar para o mundo real da responsabilidade e das dificuldades, se camuflam como dependentes, crianças e adolescentes. Argolas no nariz voltam às savanas, tatuagens que cobrem braços como pixações sujam paredes de garatujas horrorosas, e a feiúra se espalha. Pais estão abandonando os rituais da beleza à mesa; pessoas seguram talheres como se fossem martelos e chaves-de-fenda; cabeças cobertas por chapeuzinhos ridículos à mesa, sentados sobre as pernas como num piquenique, conspurcando o momento prazeroso da mesa de refeição. A arte da mesa se deteriora junto com o que se come e bebe. Hambúrguer com Coca-Cola para tornar o corpo algo pesado para carregar. O oposto do mens sana in corpore sano.

Vivi outros tempos e agora sinto que o caminho não se abre com o progresso, mas se fecha.

E no cinema? Conseguem um novo E o Vento Levou? Ou outro Casablanca? Pobres crianças que hoje veem animações deformadas, feias, e aceleradas para criar o imediatismo, do querer já sem poder esperar. Minha geração começou com a beleza visual e auditiva de Fantasia, da Disney. E teve a sorte de conhecer música. Hoje, talvez muitos tenham nascido sem ter ouvido sons musicais. Apenas barulho e letras vulgares e idiotas, para nivelar por baixo o gosto musical. A humanidade viveu milênios para chegar à harmonia das obras dos séculos 18 e 19 e agora volta aos gritos e cacofonias anteriores às cavernas, com batuque no tronco para avisar a presença de caça ou de perigo. Não se estimula o diálogo em que se troca conhecimento e se aumenta a curiosidade. As ideias já vêm prontas; basta aceitar sem esforço; é o domínio de corações e mentes avançando, não para formar seres pensantes, cidadãos, eleitores e detentores do poder. Sem pensar, como decidir? 

A linguagem também vai sendo abduzida, para limitar a capacidade de expressão; vontades e pensamentos vão se expressando por grunhidos, interjeições, adjetivos, porque vai-se perdendo os nomes das coisas e os verbos das ações. A vulgaridade é estimulada. Até nas interjeições. Em vez de “Caramba!” é “P*rra!”. A primeira-dama é aplaudida quando dá mau exemplo com um “F*ck you!“. A poesia, que é a beleza musical das palavras, teve os pés quebrados e já não canta, não rima e nem versa. Quebra-se a estética para quebrar a ética com anestesia; tira-se a ordem para confundir com a desordem; substitui-se o real pela mentira; embota-se o raciocínio pela emoção. A cortesia cede à grosseria; os bons modos são ofuscados pelo desrespeito à dignidade; o respeito às leis e aos costumes é invadido pela barbárie sem regras. O mérito é substituído pelo conchavo; o trabalho, pelo Bolsa Família. 

Na minha infância no pós-guerra, meus olhos brilhavam com chicletes e Coca-Cola, recém-chegados dos Estados Unidos. Agora a Califórnia nos exporta o woke como restrição de liberdade de expressão. O Papa Leão acabou de advertir: “É doloroso constatar que, especialmente no Ocidente, os espaços para a liberdade de expressão estejam cada vez mais a ser reduzidos, enquanto se desenvolve uma nova linguagem, ao estilo de Orwell, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”. 

Papa Leão XIV | Foto: Shutterstock

Será nostalgia? Sim, é a tristeza da lembrança de constatar que já vivi tempos de conversa inteligente, de bons modos, de cortesia, do prazer de aprender a cada dia e ganhar mais luzes para desfrutar a vida. Nada a ver com bens materiais; é muito mais acima, é a riqueza que se leva dentro de si e nas relações com os semelhantes e com a natureza. Há uma propaganda massacrante para que os que embarcam no declínio não consigam perceber; veem cores ofuscantes e sons ensurdecedores. O valor humano está ameaçado. A civilização está sendo esvaziada de sua alma. Os que são gauche na vida têm por natureza querer o domínio, a tirania. O Papa Leão fala em Orwell, autor de 1984. Um Big Brother coletivo hoje quer converter o terror daquela ficção numa realidade, como já quiseram quando Orwell escreveu o livro, se referindo à União Soviética. Já vigora o princípio de que a mentira é a verdade; o mal é o bem; o injusto é o justo. 

As palavras são as armas do domínio. Goebbels está sendo posto em prática pela propaganda dos novos Hitler e Stalin. Sim, é nostalgia que acende o alerta. Vivi outros tempos e agora sinto que o caminho não se abre com o progresso, mas se fecha. Pode convergir para uma única opção — e não para as múltiplas opções de um mundo livre. A quem me acompanhou até aqui, digo que não estou pessimista nem apavorado, estou apenas pretendendo fazer pensar ou discordar.

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13 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Artigo irretocável. Vivemos o século mais decadente talvez por excesso de facilidades. As mentes se tornaram preguiçosas, não se memoriza nem o próprio número de telefone, dependência de aparelhos celulares. Conversas rasas e superficiais, filmes chatos e esquecíveis… Não há mais talentos na música e na pintura como antes. Felizmente meus filhos sabem apreciar o belo e desprezam o feio não importa o que os outros falem. Temos que investir neles. Não podemos negligenciar a educação. Eles aprendem a apreciar o que vivenciam em casa

  2. Georgs Rozenfelds
    Georgs Rozenfelds

    Pois e, Alexandre! Vivemos as mesmas épocas. Hoje,tristeza no coração. Saudades daqueles tempos em que eu ia comprar gibi na banquinha da esquina.

  3. Isa Maria Borba
    Isa Maria Borba

    Excelente e deliciosa crônica. Sou um tiquinho mais nova que você, Alexandre, sinto toda essa sua estranheza também. Não saudosismo e nem conformismo com o ” agora ” é tentar fazer em nós mesmos o que foi antes dessa revolução tecnológica. O contato humano era um sonho maravilhoso. Tempos difíceis hoje.

  4. Carlos Sergio Souza Rose
    Carlos Sergio Souza Rose

    Como sempre, brilhante. Discordo somente quanto as obras de Niemeyer, sempre horrorosas, como a Catedral de Brasília, meu Deus. Se servir de consolo, apazigue seu espírito, você nos revela o belo em cada texto. Parabéns.

  5. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Alexandre Garcia, quando nasci você já era um adolescente. Sou de 1956 e seu artigo provocou uma viagem no tempo em minhas memórias.
    Na juventude na década de 1970 frequentava restaurantes de bom padrão em Curitiba, era recebido na porta pelo garçom que se desculpava porque a mesa preferida estava ocupada. Hoje os fast foods tomaram conta com seus lanches pré prontos e a balburdia no ambiente.
    Em dias especiais trajava ternos confecnionados na alfaiataria Jockey por profssionais de alto gabarito para os bailes no Clube Curitibano, Sociedade Thalia, Morgenau ou Clube Rio Branco.
    As moças possuíam beleza natural com poucos retoques de maquiagem e ganhar um beijo no rosto já era uma vitória, Hoje muitas parecem zumbis cheias de tatuagens e piercings que se fosse natural já nasceríamos assim.
    Em algum momento a huminada perdeu seu caminho, seus valores e com isso acaba perdendo sua dignidade.

  6. WALTER P. CATHERINO
    WALTER P. CATHERINO

    Excelente texto! só poderia ter saído de uma mente aberta e experiente como o Alexandre Garcia.

  7. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    A delicadeza e a boa educação também são subestimadas hoje.Poucos se lembram de agradecer.Pode-se comparar algumas artes modernas com desenhos de crianças e paga- se muito por elas.

  8. Enoch Bruder
    Enoch Bruder

    Alexandre Garcia impecável. Bastião civilizatório! Nem tudo está perdido! Obrigado mestre pela luz!

  9. Emilio Sani
    Emilio Sani

    Triste e verdadeiro, e pior é que talvez e infelizmente somente os ‘antigos’ acima de uns 60 é que veem isso com clareza

  10. Luciano Espinheira Fonseca Junior
    Luciano Espinheira Fonseca Junior

    “ O rapto de Proserpina”. Excelente artigo. Imaginemos um total de setenta milhões de analfabetos funcionais, em idade produtiva, chegaremos à conclusão de que esse país não tem conserto possível à vista.

  11. Antônio Suárez Abreu
    Antônio Suárez Abreu

    Nós, seres humanos, somos sensíveis à simetria, que é a base do classicismo. O belo horrível defendido pelo modernismo é antissimétrico. Isso aparece até mesmo na música clássica moderna, o dofecafonismo. Sua origem está na Escola de Frankfurt, na Alemanha dos anos 20, do século passado, que tinha por objetivo destruir a civilização ocidental judaico-cristã, para implantar o socialismo. Há um livro que vale a pena ser lido: “A escola de Frankfurt e a nova esquerda” de Cristián Rodrigo Iturraldi.

  12. Carlos Perktold
    Carlos Perktold

    Bravíssimo, Alexandre. Você disse tudo que venho dizendo pra moçada de hoje, que não me ouve, como não lerão seu texto. E se lerem, não mudarão e talvez nem saibam do que você escreve. Nos jornais de tv ninguém mais usa pronomes “eu entrevistei ele” é comum em todos os canais. Ninguém mais sabe português, inclusive a nova geração de seus colegas. As palavras vão sendo decapitadas “bora”, no passado, era “vamos embora”. Quanto à arte pós-moderna os “artistas” que a fazem, não são responsáveis, mas seus compradores, que imaginam ser peças de grande beleza e que valerão fortunas no futuro. Eles não têm coragem de dizer “não gosto”. Eu não entrarei no bestiário do ano 2100 ao afirmar que a esmagadora maioria é porcaria que serão descartadas, tão logo elas começarem a incomodar na decoração. E vida longa aos artistas que sabem desenhar, pintar, conhecem cores e cores complementares, número de outro, ritmo e equilíbrio numa composição. Abraço solidário.

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