Era uma vez uma ditadura. Uma ditadura muito lucrativa. Uma ditadura que ficou para trás, mas não ficou. Ela sempre reaparecia nos corações e nas mentes dos que a evocavam — supostamente para repudiá-la, mas discretamente para cultivá-la. Não como regime, mas como cenografia.
Essa ditadura cenográfica era uma beleza. Com o tempo, foi se consolidando como uma das instituições mais generosas do século (sendo ela originalmente do século anterior, mas isso não encabulava os seus devotos). Sua generosidade se traduzia em fertilidade: alimentava a carreira de políticos medíocres, conferia grandeza de alma a picaretas, reabilitava corruptos, consagrava internacionalmente filmes ruins e transformava canastrões em gênios da arte.
A forma preferida de encarnação da ditadura cenográfica era na condição de fantasma. Quando o fantasma da ditadura aparecia nas manchetes, todo mundo já sabia que vinha novidade por aí: filme novo, livro, candidatura ou alguma maldade contra o povo que precisava ser disfarçada. Era que nem dar remédio amargo para criança de antigamente: se não tomar, o bicho-papão te pega.

Simples e eficaz: se não aceitar os parasitas no seu cangote, o bicho-papão da ditadura volta; se não aceitar arbitrariedade, o bicho-papão da ditadura pega; se não aceitar censura, o bicho-papão da ditadura mata; se não aceitar a escória da escória torrando o seu dinheiro à luz do dia na sua cara, o bicho-papão da ditadura come. Não vai arriscar, né?
Para proteger a sociedade do fantasma da ditadura, valia apoiar outras ditaduras. China, Venezuela, Irã, Nicarágua… Eram muitos os exemplos de ditaduras amigas que os heróis do cinema aceitavam amistosamente. A indústria do combate à ditadura imaginária era baseada no regime de retroalimentação: o poder dava uma força para a arte panfletária e a arte panfletária embelezava o poder — exaltando seus predicados democráticos para lindas plateias de black-tie aplaudirem. Ninguém ia querer estragar uma festa dessas, né?
Claro que havia liberdade para dizer que se tratava de um bando de demagogos enriquecendo às custas de uma falsa resistência política. Mas quem dissesse isso seria automaticamente enquadrado como fascista. E a ditadura imaginária continuaria protegida, numa boa, sustentada pelos seus amantes secretos — e sustentando o autoritarismo inconfessável deles. Final feliz!

Leia também “Esculhambaram o suborno”




Ninguém reclama da ditadura de Vargas ou da tentativa de Goulart querer ser um deles nem de Brizola. Mas atacam o regime de 50 anos atrás quando muitos nem haviam nascido porém são influenciados pelos velhos sem escrúpulos ,ladrões dia cofres brasileiros.
A esquerda sempre se esforçou para colocar o regime militar de 1964 fora do contexto histórico, criando assim uma ameaça que parecia ser constante. A mesma esquerda também sempre se esforçou e se esforça para tratar aquele regime como uma arma que se levantou contra todo o povo brasileiro. O contexto histórico é fundamental para que se possa entender que aquele movimento sempre teve dois lados, apesar dessa hipertrofia histórica e cultural que se acometeu apenas para o lado daqueles que queriam que o país tivesse sido um satélite da URSS. O curioso é que essa mesma claque nunca tratou a queda do muro de Berlim como se fosse o fim de seus sonhos. Pelo contrário.
Fiuza , como sempre, brilhante
Textaço. Demolidor, verdadeiro e corajoso. Faz a gente se sentir como um animal preso em uma armadilha cruel, sem chance de escapar, com a Sociedade Protetora dos Animais cúmplice do caçador, zombando de nossa agonia.