publicidade
O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, chega para uma coletiva de imprensa na Grand Army Plaza, no bairro do Brooklyn, em Nova York, EUA, em 2 de janeiro de 2026 | Foto: Jeenah Moon/Reuters
Edição 306

Mamdani não vai conseguir arruinar NY

Prefeitos vêm e vão, mas a cidade permanece fundamentalmente a mesma

Na minha primeira viagem de carro a Nova York, ainda adolescente, fiquei chocada com a paisagem industrial quando nos aproximávamos da cidade. “Por que colocariam essa sujeira tão perto?”, perguntei aos meus pais. Como alguém que cresceu em D.C., nunca me ocorrera pensar para o que as cidades realmente serviam. Em Washington, fazemos principalmente regras e grandes monumentos de mármore.

Foi a primeira vez que vi uma cidade impulsionada pelo comércio e pela arte, não pelo poder político. Em meados da década de 1990, o auge da indústria e do transporte marítimo já havia passado, mas os sinais ainda estavam por toda parte. Nova York era mais crua do que viria a ser em breve. Tão bruta que meus pais me proibiram de tentar uma vaga na faculdade. Eles a achavam muito cara e perigosa, mesmo amando a cidade.

Hoje em dia NY é muito mais rica e agitada. Os pais ainda se angustiam com seus perigos e o alto custo de vida. Prefeitos vêm e vão — lembram-se de quando Rudy Giuliani era o “prefeito da América”? — e a cidade permanece fundamentalmente a mesma.

Confete cai durante a cerimônia de posse do prefeito de Nova York, Zohran Mamdan, em 1º de janeiro de 2026 | Foto: Jeenah Moon/Reuters

Zohran Mamdani venceu a eleição para prefeito com uma plataforma que incluía passagens de ônibus gratuitas, supermercados públicos e congelamento de aluguéis, além de uma política educacional “inclusiva” e um plano de policiamento que mantém o status quo — algo estranho para quem já defendeu a abolição da polícia.

Há muitas razões para temer que tais políticas sejam, na melhor das hipóteses, ineficazes e, na pior, profundamente contraproducentes. Como dizem meus pais, quando a governança e as políticas se tornam ruins o bastante, isso pode afugentar tanto potenciais residentes quanto visitantes.

O poder incrível de Nova York deriva em grande parte do fato de ser o lar de uma montanha de dinheiro. Em mãos privadas, esses recursos impulsionam a inovação e o corre-corre frenético. Também propiciam a caridade e o patrocínio das artes. Um prefeito pode fazer pose para a plateia, regulamentar e pressionar empresas em coletivas de imprensa. Pode até afugentar investidores e empreendedores, mas a Bolsa de Valores de Nova York continuará sendo uma bateria gigante que alimenta a cidade.

A cidade de Nova York tem uma longa tradição de corrigir o rumo após desastres políticos.

Há ainda o atraente submundo comercial. A Corporação de Desenvolvimento Econômico da Cidade de Nova York registra a existência de 183 mil pequenas empresas. Sim, é irritante que os nova-iorquinos não parem de falar sobre suas amadas bodegas — é apenas uma loja de esquina! —, mas o número elevado e a sutil diferenciação dessas lojas de esquina são uma alegria para qualquer notívago, madrugador ou o mais comum dos transeuntes.

Mercados negros prosperam graças à densidade e à diversidade humana na cidade. Quanto pior for a governança, mais atividade comercial será empurrada para esses mercados paralelos, com tudo o que isso acarreta. Os nova-iorquinos são famosos por suas gambiarras para contornar um mercado imobiliário completamente insano, por exemplo. Também faz parte de uma espécie em extinção de cidades onde as transações ainda ocorrem em dinheiro vivo. De acordo com um relatório do Federal Reserve Bank de Nova York explica, a densidade aumenta a produtividade porque a proximidade reduz os custos de troca de informações e geração de novas ideias. O estudo estima que dobrar a densidade aumenta a produtividade em cerca de 2% a 4%.

O que nos leva aos humanos: Nova York torna visíveis as consequências do livre movimento. As pessoas sofisticadas, ligeiramente impacientes, que nascem lá são de uma casta diferente (meu marido entre elas). Os americanos que vêm de todas as partes para tentar a sorte na cidade grande mantêm a chama acesa (minha irmã entre elas). E, claro, Nova York é o lar de mais de 3 milhões de imigrantes — cerca de 38% da população da cidade, de acordo com o Escritório de Assuntos de Imigração da Prefeitura.

***

Região da Times Square em Nova York, EUA, 28 de maio de 2025 | Foto: Shutterstock

Visitei a cidade no Dia de Ação de Graças deste ano, pegando a estrada com a minha família. Agora imune às paisagens e cheiros da Nova Jersey industrial, maravilhei-me com uma vista diferente. O esforço do agora ex-prefeito Eric Adams para “conteinizar” o lixo estava visível nas ruas, como um lembrete de que melhorias na governança são possíveis e de que vale a pena lutar por isso. Mas elas foram ofuscadas pelos sinais de compra e venda, criação e destruição, visíveis por toda parte. A cidade de Nova York tem uma longa tradição de corrigir o rumo após desastres políticos e de absorver a má liderança — e o fará novamente.

Na época daquela viagem de adolescente a Nova York, li A Nascente (e depois tudo o mais que Ayn Rand escreveu, em pouco tempo). Embora não tenha me impressionado na época, desde então voltei muitas vezes às suas palavras sobre a cidade — especialmente depois do 11 de setembro — pela forma como ela captura a poderosa autossuficiência do lugar e sua terrível vulnerabilidade: “Eu trocaria o maior pôr do sol do mundo por uma visão da silhueta de Nova York”, escreveu. “Especialmente quando não se pode ver os detalhes. Só as formas. As formas e o pensamento que as criou. O céu sobre Nova York e a vontade do homem tornada visível. Quando vejo a cidade da minha janela, não, eu não me sinto pequena, sinto que, se uma guerra ameaçasse isso, eu gostaria de me lançar no espaço, sobre a cidade, e proteger esses prédios com o meu corpo.”


Katherine Mangu-Ward é editora-chefe da Reason e comentarista em programas de rádio e televisão. Ela também é autora da TED Talk “O que o capitalismo acerta e os governos erram”.

Leia também “Os radicais da equipe de transição de Mamdani”

Leia mais sobre:

3 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    NY não passa de um grande Rio de Janeiro frio e mais feio

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Não entendi nada do que essa mulher falou, só entendo a Nova York do filme Perdidos na Noite com Dustin Hoffman e Jonh Woith

  3. FLAVIO AUGUSTO ROSSI
    FLAVIO AUGUSTO ROSSI

    NINGUÉM ACREDITAVA , QUE SERIA POSSÍVEL DERRUBAR AS TORRES GEMEAS…..E ACONTECEU !
    OS IMBECIS SÃO MUITO INVENTIVOS !

Anterior:
Como a República Islâmica aterrorizou o Irã — e o mundo
Próximo:
A perseguição aos cristãos na Coreia do Norte
publicidade